15.12.04



Hoje chegou-me um dinheirinho extra: o subsídio de Natal.
Não dá para fazer muitas “loucuras” mas tem já o destino marcado.
Como não sou apologista do consumismo desenfreado, cá tenho as minhas ideias onde o vou gastar. E com esta família enorme que tenho não devem faltar as ditas.
De velhos a novos, esta malta está sempre a precisar de alguma coisa.

Mas lá vem a nostalgia onde esta quadra me castiga:


e não me sinto bem.
(f******...)

14.12.04



Leituras e tremuras

Portugal tremeu.
Tremeu mas não caiu, digo eu.
Quem caiu foi o Benfica, o Governo, e a esperança que eu tinha na mudança.
Porque são contínuos e repetitivos os sketch’s, iguais os discursos e o mesmo ritmo hipocondríaco para a resolução dos problemas reais deste país: a pobreza, a saúde e a educação. Nada a fazer.

Curiosa a forma como a um canto do mundo à beira-mar se podem formar doutores e engenheiros, metalúrgicos e chauffeurs de praça, cartomantes e revolucionários, estilistas, decoradores ou analistas, e não se consegue formar dirigentes.

De várias leituras efectuadas a singel, mais os anos que já levo desta vida, sei que a solução estaria no trabalho. Mas os portugueses gostam de fazer nenhum, népia e outras coisas tais que não puxem pelo cabedal adquirido.
Pode parecer reaccionário, mas nestas coisas a Monarquia tinha outra visão.

10.12.04



A minha árvore de Natal deste ano não tem cor!
Foi feita, apenas e só, para os meninos da rua que eu conheço.
Colocada a um canto do meu mundo, não tem presentes e, no lugar das fantasias, são visíveis amargas recordações duma vida constantemente injustiçada.
Fruto duma visão de sofrimento e dor, de abandono e tristeza, que abrange todos aqueles que sofrem na pele o dia-a-dia que vivemos.

É Natal!, dizem-me. Eu sei muito bem que é Natal.
E para os meninos da rua que eu conheço, estão a comprová-lo as mil e uma mensagens dum amor e carinho hipócrita que ouviremos todos estes dias. Se não chegasse, bastaria olhar os milhões de calendários coloridos que aceleram os anos, e reconhecer nos jardins deste país os presépios feitos de luzes que não brilham e apenas estão por ali.

Mas para quem está habituado a sofrer os dias pardos da desventura e da desgraça, da fome e da solidão, do esquecimento a que são votados nas horas sempre iguais, é apenas mais um ciclo destes últimos quinze dias que custam a passar. É apenas o olhar para um amanhã sem soluções. São as realidades deste espelho retardado que se conseguem vislumbrar em amargura e desencanto em quem nunca conseguiu alcançar o que deseja e a que tem direito.
É neste meu mundo que vivem os meninos da rua que eu conheço.

Nestes meninos da rua que eu conheço, há em cada história pessoal uma tragédia que se esconde. Há em cada silêncio consentido, uma revolta amarga e negra que não se consegue perceber. Existe em cada rosto imberbe de criança, uma expressão azeda e ferida de ilusões e de tormentos. De sonhos perdidos e desfeitos. De rugas que escondem as horas, os dias, os anos, a que conseguem sobreviver.

São estes os meninos da rua que eu conheço, muitos deles já crescidos, que melhor entendem o destino ao qual estão vinculados e a que é impossível fugir. Por cada um dos seus olhares, vagos e perdidos, destes meninos da rua que eu conheço, perfila o lado triste de quem morre de frio a cada esquina. Cada um deles apenas a mostrar o futuro incerto que se conta e se transmite. Feito de nostalgia e fé. Por vezes, recheados de sonhos quebrados para um dia que eles sabem não ter amanhã. Ténue e vazio como a própria quadra que se festeja.

Daí que, na minha árvore de Natal deste ano, apenas haja espaço para os que se encontram isolados e tristes. Para os que da fome e da escassez fazem a fartura de nada possuírem. Para aqueles a quem mais um pouco de carinho e de atenção bastaria para esquecer toda uma vida sem sentido.
Por isso, não façam do meu silêncio uma obrigação de cobardia. Por isso, não me obriguem a mudar a cor à minha árvore de Natal. E se por milagre ou ilusão, arte mágica ou fantasia, as cores se alterem ou apareçam, ao menos que seja para os meninos da rua que eu conheço.

9.12.04


Hospital de Santa Maria, quinta-feira, 16 horas

- Boa tarde, gostaria de falar com alguém que me desse informações sobre os doentes. Queria saber se certa pessoa está melhor ou piorou...
- Qual é o nome do doente?
- Maria Isabel e está no piso 5, serviço 7.
- Vou passar às enfermeiras...

- Boa tarde, faz favor…?
- Gostaria de saber como está a Maria Isabel da cama 4, por favor!
- Só um momento, que vou consultar os registos... hummm... ok, de facto, ela já está a esta a comer duas refeições por dia, a pressão no sangue está estável e vai ser tirada da máquina que monitoriza o coração dentro de algumas horas. Se continuar estável, o médico deve dar-lhe alta na terça-feira.
- GRAÇAS A DEUS! São notícias maravilhosas! Que alegria!
- Pelo seu entusiasmo, deve ser alguém muito próximo, talvez da família?
- Nem por isso, sou a Maria Isabel da cama 4. Só que aqui ninguém me diz merda nenhuma! Tive que telefonar...
- …!!!

8.12.04



Depois de quinze dias de "calvário", a velhota voltou p'ra casa.
Fina como a terra que a viu nascer, já está à roda de um “Cozido à portuguesa”... a manganona.
As minhotas são assim.


Bem-vinda, Mãe! (Ao reboliço normal desta vida que, por vezes, é sacana para a malta da tua idade.)

4.12.04

Reencontro de amigos



Ao descer a Serra da Estrela encontrei um amigo, o Dose Tripla, que já não via desde o tempo do PREC.
Está diferente (mais alto e espadaúdo) mas reconheci-o de imediato. Como estou num ciber-café em Manteigas, aproveitei para comunicar que somos capazes de demorar.
Provavelmente, vamos a casa de Irene recordar outros tempos.
Sigilo é o que se pede, s.f.f..

3.12.04



SocialBloguismoA Ordem Nova.

Para além de existirem algumas vaidades naturais, viver em SocialBloguismo é uma forma de estar na vida mais correcta, mais igualitária e justa. Repare-se: todos os seus membros defendem a Paz, o Ambiente e os Direitos Humanos. Denunciam injustiças e promovem a sabedoria e o conhecimento como forma de melhorar todas as relações interactivas.

Viver numa sociedade de blogs deve ser bom. Existe tolerância e solidariedade. Ama-se e partilha-se. Apontam-se caminhos para uma sociedade perfeita onde as ideologias de cada grupo não absorvem a nossa liberdade individual.
Um gajo que me pisa os calos no Metro e não pede desculpa não é digno de viver numa sociedade de blogs. As mentes brilhantes que pululam em redor do poder, acicatadas pelo odor da carne fresca, não têm perdão pelos disparates lesa-pátria que cometem todos os dias e não merecem ter blog.

Os blogs são poetas, são crianças, são operários, são professores, são áreas de trabalho e pesquisa. São médicos, são fábricas, são juízes, são labuta. Não são ditadores nem proscritos, sequestradores, corruptos e outros filhos da puta que nos roubam todos os dias. Os blogs não pisam, não destroem nem dilaceram os anseios, os sonhos, as paixões. Existe neles o sentido de Estado e de Justiça.

Como não preciso de heróis, por isso, e desta vez, vou votar nos blogs.

30.11.04



Declaração pública (de rua, tás a ver?)

A minha experiência indica que não devo entrar em encantamentos momentâneos.
Continuo um português sem obrigações partidárias, mas com deveres sociais a cumprir. A minha “tendência” é subjectiva aos olhos de cada um que me lê, vê, ou comigo reparte a sua passagem por esta vida. Quer no dia-a-dia social, quer nesta brincadeira dos blogs.

Não nego uma feliz disposição interior pelo facto de alguém com responsabilidades maiores que as minhas, tenha decidido o que todos – ou quase todos – apontavam como a melhor solução. Porque pior não se podia estar.

Venham então mudanças. Mas mudanças que se vejam com olhos de ver. Palpáveis. Que se reflictam na qualidade de vida desta gente. Na sua inteligência e perspicácia. Na família que custa a criar, nos empregos que custam a manter, na riqueza que podemos criar.

I9var é preciso e a competência é fulcral. Esta será a última oportunidade que todos os futuros governantes deste país têm para ganhar a confiança dum povo a descrer e a mingar.
Antes que mais trinta anos de Abril se passem e continuemos à procura do Portugal de que precisamos e queremos. Honremos, pois, todos aqueles que se sacrificaram por nós e nos ensinaram a sonhar.
Acordados.

29.11.04

“O pecado maior de um político de carreira é fazer duma solução um problema”



BLOGS AO PODER, JÁ!

Cavaco Silva, no seu discurso, lançou “Portugal e o Futuro”.
Henrique Chaves fez passar “E depois do Adeus”.
Ficarei à espera de ouvir Sampaio cantar “Grândola, Vila Morena”.

Depois virei p'rá rua.

25.11.04



"Não há mal que sempre dure nem bem que não se acabe"

Acham que a vossa vida corre mal?

(Esta história vem a propósito de a minha mãe ter sido internada nos Capuchos com uma infecção respiratória logo após o meu dia bom. O tal 23.)

Um sujeito encontra um amigo que não via há muito tempo e, querendo ser simpático, inicia a conversa:
- E então Paulinho, tudo bem?
- Péssimo. - Responde o outro.
- Mas como?... Com aquele Ferrari que tens?
- Perdi-o... e o seguro tinha acabado de vencer.
- Bem, vão-se os anéis, mas ficam os dedos! E aquele filho inteligente?
- Teve o acidente com o Ferrari. Morreu.
O amigo tenta fugir daquele assunto tão trágico.
- E a sua filha que mais parecia uma modelo?
- Pois ... ia com o irmão. Só a minha mulher não estava no carro.
- Graças a Deus! Como está ela?
- Fugiu com o meu sócio.
- Bem... pelo menos a empresa ficou só para ti.
- Sim, falida. Totalmente falida. Estou a dever milhões!
- Porra! Então vamos mudar de assunto. E o teu clube?
- Tá mal, sou benfiquista.
- Pelo amor de Deus, Paulinho!, não tens nada de positivo na vida?
- Tenho... HIV.

23.11.04





Novembro este

onde a vinte e três

das nossas vidas enlaçadas

plenas e amadas

faz mais um ano

vivido

partilhado

num retrato

que guardo e amo


* dedicado a Nela Cintra, um dos meus amores.

22.11.04



Uma frase que me ficou:

"Dos melhores prazeres na vida, um, é ter o prazer de dar prazer aos outros."
* Helena Sacadura Cabral

20.11.04

Sugestões de fim de semana

Um Bar


Um Filme


ou... limpar a vista

Para eles ou para elas. Julgo eu.

E ainda pode...

- Começar a ornamentar a Árvore de Natal
- Mudar os móveis da casa
- ou dormir o dia todo

Escolha... e tenha um bom fim de semana!

19.11.04

Alguém se lembra?


“Dedico este gol 1000 às criancinhas do Brasil”.

Foi há 35 anos.

Dez anos depois, nascia um dos meus “Pelés”: O Marco.
Franzino e hiperactivo, tornou-se Homem bem cedo e chutou sempre com os dois pés as anomalias das diferenças sociais.
Impulsionava-o a descoberta das coisas novas. Justo mas revoltado, a vida demonstrou-lhe que também pode ser madastra e fazer cair os sonhos nas angústias dos “penaltys”.
Aprendeu e cresceu sem nunca ter conhecido a amargura da “expulsão” e mantêm-se no topo da classificação dos audazes. Assim o ajude a sorte das bolas paradas.
Hoje é o Rei dos “Pelézinhos”. Joga e faz jogar, mantendo a coerência da sua cor. A cor da camisola que adoptou. Sincera e pura como nos seus tempos de menino.
Saiu ao pai.

Parabéns, meu filho!

17.11.04



Provavelmente, serei o blogger menos letrado no conjunto das minhas amizades virtuais. Não é choradinho, é a constatação de um facto.
Por isso, sinto-me orgulhoso de ter como amiga Márcia Maia.
A Poetisa do outro lado do mar, reconhecida pela sua vertente poética, literária e, sobretudo, pela sua enorme capacidade de amar a vida e o próximo, vivendo com a riqueza de ter

nada.

só um verso
um raio de sol

e a estrada...

Como iletrado, reconheço que não sei adjectivar o suficiente para a ilustrar. Ficará sempre ao critério de quem a conhece. A prová-lo está o Prémio que recebeu de Luiz Alberto Machado.

Parabéns, Márcia. É merecido.

15.11.04



Os discursos

O Miguel teve a amabilidade de partilhar a sua descoberta de quem elabora os discursos do Presidente da República.
Fiquei com uma dúvida: será só os de Jorge Sampaio? É que me parece que existem outras personalidades bem castiças do nosso meio que usufruem do mesmo serviço.
Digo eu.

Tentei aproveitar-me do facto e idealizei um para a discussão do "Orçamento Geral do Estado".
Saiu como eu queria: claro e sucinto.

" As experiências acumuladas demonstram que a contínua expansão de nossa atividade cumpre um papel essencial na formulação do investimento em reciclagem técnica. Não obstante, a complexidade dos estudos efetuados aponta para a melhoria do fluxo de informações. Evidentemente, a consolidação das estruturas talvez venha a ressaltar a relatividade das condições financeiras e administrativas exigidas. A nível organizacional, o julgamento imparcial das eventualidades exige a precisão e a definição de todos os recursos funcionais envolvidos. Percebemos, cada vez mais, que a execução dos pontos do programa nos obriga à análise das condições inegavelmente apropriadas. "

Perceberam?

Agora vou tratar do peixinho assado que tenho no forno.


13.11.04



Revelações estatísticas

Alguns blogs, por exemplo, parecem-me o bacalhau: fazem-se da forma como se quiser.
Por isso, e como não tenho mais nada para fazer até às quatro, fui tentar compreender o ranking das preferências temáticas da blogodependência nacional. Por conta própria.

Sendo assim, detectei que: 75 % dos manganões que para aqui andam preferem temas de sexo! Ou assuntos a roçar o dito. De preferência, com bastante “hardcore” sem cair no obsceno e , de preferência, que não sejam detectados nem identificados.

45 % das pessoas que “descobriram” a blogalização encaixam os seus segredos para a temática poética ou prosaica sem terem que frequentar Tertúlias. Versões ligth de circunstância, poemas inéditos e razões de sobra para escrever o que lhes vai na sensível parte espírita do corpo. Fazem bem, digo eu, e a prová-lo estão os registos dos seus adeptos e visitantes.

Quem está por baixo é a rapaziada da “bola”. Apenas 8 % dos que tratam do assunto são lidos com regularidade. Os picos mais altos sucedem quando alguma desgraça acontece (tipo da morte em campo, ou a bola que entrou mas não contou), ou quando as “bacoradas” do gentio dirigista faz capa na imprensa. Picardias clubistas também acontecem, mas é raro. São assuntos que esfriam rapidamente mesmo com quarenta graus à sombra.

Existem determinadas variantes em alguns blogs que exigem leituras obrigatórias. São os chamados excluídos sociais. Completamente radicais e sem prazo de validade mas que postulam e pulam e saltitam em torno dos mais diversos e descarados temas. Sempre em cima, sempre na berra, mas com uma ligeira impressão de descrédito e à má-fila.

Uns 36 %, ao acaso, não dispensam as absorvências diárias. Escândalos sociais, notícias detalhadas sobre as lides políticas, as toiradas governamentais e coisas assim, fazem o género. Sabiamente talhados em reuniões exaustivas nas faculdades, gabam-se de serem tidos como uns gajos espertos e sabidos. Mas como diz o Ricardo Araújo: “falam, falam, falam e não fazem nada! Um gajo fica chateado…”

Mais adiante, e com som de fundo, 26 % dos “musicais” contam com a visita diária de uma boa parte dos blogs com lugar reservado na zona da 24 de Julho. Sempre em actualização e com as novidades da cantoria reinante à mostra. Seja “pimba”, seja “catrapimba”.

Já os tradicionais “jet 7” dos bolgs caíram, assustadoramente, para 32% das leituras que tinham à uns meses atrás. Saturação dos leitores? Desacreditação confessa do rigor? Passaram a ler a Sábado ou a Maria? Venha o diabo e escolha…

Os regionalistas também não estão lá () muito bem. 12 % é que, de quando em vez, vão à terra deles e nos dão a saber dos enchidos, das castas e dos caciques, mais dos negócios em que esses compadrios resultam. Mas só de vez em quando.
Apenas os generalistas conseguem algum equilíbrio. 49 % vão mantendo o sentido editorial a que se propuseram e assim seguem o seu percurso. Calmo e penoso. Até com alguma regularidade pomposa e contam com os seus fiéis, acima de tudo.

Dos infantis nem falar. Compreendemos que a escola, os testes, os exames, param a actividade virtual das gaiatas e dos gaiatos. Mas, diga-se de passagem, quase ninguém liga aos putos. Estão abaixo dos 3 % das preferências e só a muito custo e cuspo lá se vão aguentando. Mas gabo-lhes a paciência e o querer.

Por mim, não me queixo.
Quem está-está, quem vai-vai. Ando por aí, muita das vezes sem rumo, e outras sem obrigatoriedades, mas a lista dos amigos aumenta cada vez mais e, qualquer dia, nem tempo tenho para me coçar ou perder tempo com estas pesquisas disparatadas.
Mas duma forma geral, nesta aleatória apreciação, podíamos melhorar um bocadinho no relacionamento que mantemos com os outros bloggers. Até por uma questão de orgulho patriótico. Afinal, que diabo, não somos piores nem melhores do que a estranja dos blogs. Sejam eles vietnamitas, sejam elas suecas, sejam lá eles e elas quem forem.
Lá vou eu na cantilena do costume: Somos portugueses, mas falta-nos um bocadinho assim...

8.11.04



Lisboa, um lugar onde se nasce

Andei o dia pela minha cidade.
Cidade que já não via em tempo e pormenor tanto como hoje. Os seus lugares rosmaninhos, as vielas cantadeiras e os becos e as tascas onde em cada copo três se canta um fado e se declama poesia já não existem. Os lisboetas, se ainda os há, estão diferentes, trajam diferente, andam esquisitos.

Uma rua onde passei, lembrou-me um quadro. Aquele quadro, cujo autor tão bem conheço, que retrata o crescimento, as brincadeiras de catraio e ilustra tudo aquilo que ele foi. De tantas outras ruas onde passei, havia lembrança nas janelas dessas casas. Feitas de madeira verde e pé descalço, com calçãozito rasgado, sandalita rebentada e onde delas se via o mar. Agora diferem e assustam. São outros, os arquitectos.

Mesmo assim fechei os olhos e, por momentos, sentei-me no primeiro degrau do lugar de fruta, meu vizinho. “- Ti Tónio, não tem uma frutazinha estragada?”. Não tinha. “- Desaparece-me da vista, filho dum galego” era a resposta adequada naquele tempo de vacas magras.
Despertei e, mesmo assim, ainda deu azo para sentir no ar o fumo cinzento daquela castanha assada desse tempo. Vinda em saco roto, metade boa, metade ardida. Mas eram castanhas que sabiam a gente pobre e cheiravam a Lisboa.