12.4.05


Por onde andam os Carneiros da minha estimação?
Que horizontes e hastes já crescidas
têm histórias e noites p’ra contar?
Onde estão os da minha geração,
que de mudanças radicais
fizeram suas vidas?
Eu sou um deles!
Haverá mais?

.

11.4.05



Os Convites

Convidados estão todos aqueles que, de uma forma ou de outra, preenchem com muito agrado uma parte dos meus dias. As minhas fontes de rendimento, da qual vem a maior parte daquilo que dá para comprar melões, são de tal maneira escassas e curtas que tenho que aproveitar ao máximo os recursos baratuchos que tenho ao meu dispor sem ter que me endividar para pagar cachet a quem quer que seja.

Assim sendo, vou aproveitar a presença do Seal em Portugal, para podermos ver e ouvir o que ele vai cantar. Dar a conhecer a outra faceta de Júlio Guilherme Ferreira Machado Vaz (por aquelas bandas mais conhecido por Murcon) , apresentar um tipo que é casado e expor a pintora Nela Vicente. Só para iniciar. Porque a Angela faz anos hoje!
Teatro, Poesia e Canto, também terá a sua parte. Tal como o convívio a que estou habituado por todos quantos fazem o favor de por aqui passar.

Mais: seria infindável a lista de convivas, que fariam deste pobre escravo de trabalho uma verdadeira estrela de Hollywood, se aqui enumerasse todos quantos do seu próprio tempo e obra fazem as delícias de quem os vê, escuta, lê ou descobre.
E como devem calcular, o núcleo dos que se contactam diariamente, nem de perto nem de longe, conhecem todos os amigos dos seus amigos.
É isso que vou tentar mostrar durante o tempo que durar a Festa. Contando com a colaboração dos meus ilustres visitantes para apresentarem os seus pares.

Home is open!
.

8.4.05



Como é fácil de calcular, é difícil em três ou quatro dias dar a volta a esta “aldeia global” onde quase toda a rapaziada com tempo para estas coisas dos blogs, "mora". E o mês de Abril, os meus trinta dias preferidos, torna a tarefa ainda mais penosa mesmo com máscara alugada.
Por muitas indeterminadas razões e mais o diabo a sete.

Um tipo feito eu pensa assim: “olha…, deixa cá dar uma vista d’olhos a fulano de tal!”. Ou, “eh, pá, faz tempo que não vou ao blog de cicrana…”.
Mal não seria esse, se optasse apenas por cumprimentar o destinatário da visita. Mas qualquer pessoa cede quando se detém perante outras indicações que leva a outros lados, a muitas outras curiosidades apontadas, a referências que são difíceis de fugir.
E um gajo perde-se, claro.

O que pretendo eu dizer com isto? É trigo limpo!
Vou armar-me em chico esperto e fazer com que sejam os meus ilustres visitados a cá vir, evitando, muito diplomaticamente, dar a desculpa esfarrapada de “sabes e tal… o tempo é escasso e esquisso e não sei quantos…”, estão a ver?

Preparem a trouxa, porque tenho na ideia fazer uma festa. Inclusivamente, com convites e tudo. Os convites, envio eu. O tudo, é com vocês.
Topam?

Então grave a sua mensagem, s.f.f.

.

6.4.05



Se alguém, porventura, estaria à espera de pormenores curiosos/pecaminosos da noite espectacular por que passei, desengane-se. Redondamente.
Já não tenho idade para coisas daquelas e apenas digo que fiquei num estado muito parecido como esse aí.
Vou descansar um pouco as diabruras e pôr-me a andar. Ver uns e saber de outros. Aliás, como é costume quando estas coisas me acontecem. Enriquece-me o reportório e não cansa tanto.

Deixem a chave no sítio do costume, s.f.f....

.

4.4.05



Hoje apetece-me mijar fora do penico.
Que diacho…também sou mortal e os ensinamentos de uma catequese obrigatória nunca, mas mesmo nunca, me moldaram o espírito inventivo. Fraquinho, diga-se de passagem., mas de qualquer maneira, pensei que um dia teria que o fazer.
Por isso, vai ser hoje!

Ele há quem faça anos de casa, anos de sócio, anos de caixa, anos que não fuma ou não bebe, e/ou muito naturalmente, apenas faça anos.
Pela parte que me toca, e antes que a noite se cale e deite, hoje decidi festejar. Festejar o quê? - perguntarão os mais curiosos que me acompanham há menos tempo.

Uma despedida de solteiro!
Na passagem de hoje para amanhã vou fazer um interregno temporal onde as horas se calam e consentem. Onde os minutos e segundos duma vida sempre certa façam ruir as éticas e as moralidades que cumpro no resto dos outros dias. Hoje vai ser assim.

E para que o crime se possa consumar em pleno, desafiei a companheira, a amiga, a amante, que de me aturar tanto se emprega. Apenas assim fará sentido, esta loucura.
Motivo? Amanhã farei trinta anos de casado. Depois faz ela.

2.4.05

O Retrato

Um dia destes um engenheiro fez com que me lembrasse de Dorian Gray.
Terei lido o livro em mil, novecentos, e sessenta e troca o passo, e já nem sequer me lembro muito bem da história. Acho que tinha a ver com um retrato de um tipo e tal, e que falava de juventude, vícios, virtudes e assim.
Mas o efeito da recordação tem a ver com outra coisa. Traduzindo.
- Ó Eduardo, você que é um barra em computadores (gentileza dele) e está sempre a falar de blogs, faça-me lá um retrato dessa malta.
Eu que até sou um indivíduo lesto e desinibido, engasguei-me.
Toda a gente sabe que o Tico e o Teco (como diz a titas) são os neurónios mais rápidos do mundo. E em fracções de segundo muita fotografia me veio à cabeça. Nos dois minutos de silêncio que se seguiram, passaram no meu ecrã os retratos mais diversos. Putos pedrados e homens de negócios, solteironas, professores reformados, educadoras, barriguinhas salientes, malta do bairro, papagaios, jornalistas e outros desempregados.
Puxei de um cigarro para ganhar tempo de resposta e, de cada vez que me embrenhava nos perfis para tentar bater a chapa, a confusão instalava-se ainda mais. Como definir o retrato de alguém que apenas conhecemos pelas palavras? E se tudo isto é um embuste de personalidades duplas e dúbias? E se o gajo que eu tenho por amigo, afinal é um gaja? Ou vice-versa. Estarão os blogs a retratar fielmente a pessoa que está por detrás deles?
Custa-me admitir que não consegui satisfazer o pedido do meu interlocutor.
- O Sr. Engenheiro desculpe, mas não sou capaz!

Volta e meia ainda me espicaça: - Então Eduardo, já fez o retrato?

Sacana!

1.4.05



Hoje é dia de dizer algumas verdades:

- O Benfica vai ser Campeão!
- Vai começar a chover!
- Os pedófilos e os corruptos vão ser julgados e condenados!
- O próximo Papa será português!

Haverá mais?

.

31.3.05

Memórias de mim

Quando eu era pequenote, a infância (e mergulho fundo na minha infância, esse grande território de onde todos saímos com medalhas e mazelas), era um Mundo!
Um mundo só meu, onde entrava só quem eu quisesse.

“De onde eu sou?” – perguntava-me. “Sou da minha infância como se é do meu país...”, escrevia já Saint-Exupéry n’O Piloto de Guerra. Todos, realmente, comprovamos isto diariamente. O mundo interior povoado de imagens e recordações, muitas delas nebulosas, outras bem mais nítidas, que têm origem nos anos verdes da mocidade de cada um de nós.
Em muitas ocasiões, temos até de recuar a essas épocas da nossa vida para compreendermos algumas atitudes, hábitos, reacções, tendências, que fazem parte da nossa maneira de existir, da nossa forma de pensar, da nossa forma de sentir.

E aqui entram alguns dos meus heróis. Cada qual com o seu tempo e no seu espaço. Um tempo de Fúria e de Lassie, que ainda hoje sinto serem essas as referências que me fizeram gostar tanto de cães e de cavalos. Li quase todas as estórias de cow-boys e vesti-os na pele. Armei-me em Zorro e em Tarzan. Quis ser Robbin dos Bosques e almejava por beber a poção mágica do Astérix. Passeei em França sem sair de casa com Tin-Tin e conhecia tão bem o Brasil do Tio Patinhas que mais parecia ter lá vivido. Adorava os filmes do Bonanza, do Rim-Tim-Tim e ninguém me tirava da carpete enquanto o Mr. Ed, o cavalo que falava, não acabasse. Existia até uma maneira razoável de comer legumes: imitar o Popeye e de seguida demonstrar a minha força no primeiro puto da minha rua que encontrava.

Um pouco mais tarde, com escolaridade um pouco mais avançada, aventurei-me com D. Quixote e descobri a Lua com Verne, convivendo de perto com novas gentes e novos mundos. Soube de meninos pobres como eu - que Dickens me relatava - e onde Dostoievski também fazia parte dos meus planos. Amei. Amei livre e apaixonado, como só naquele tempo se podia amar, as donzelas de D.H. Lawrence. E, quase ao mesmo tempo, por volta dos doze, tornava-me Corsário. Destemido e acérrimo defensor de causas perdidas, que me fazia andar à espadeirada como se dos Três Mosqueteiros fizesse parte. Sem antes, ter todos os cromos daquele tempo, mas nunca me ter saído "a bola". O tempo do Benfica europeu, da guerra colonial, de Amália, da minha infância.

Tempos bons, esses do berlinde e do pião. Do arco e do carrinho de esferas. Das fisgas.
Agora sou o que sou, mais tudo aquilo por que passei. Em tempos idos dizia-se que “a Cultura era tudo o que resta depois de ter esquecido tudo o que se aprende”. Talvez fosse. Até ao momento em que apareceram os blogs. Estes desnaturados que me fazem engordar.

.

26.3.05

LISBOA!

Engraçado como esta quadra me une à minha cidade. E amanhã ainda mais.
É que foi, precisamente, há meio século e mais um ano que ela me viu nascer.
De modo algum faço anos amanhã, mas nasci num dia de Páscoa.
Que por acaso também era domingo.




ps - Agradecimento especial para a Cachopa e o Morfeu, pelas prendinhas da Páscoa que me enviaram pelo correio.

.

23.3.05

Os versos que te fiz

"Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem p’ra te dizer!
São talhados em mármore de Paros
Cinzelados por mim p’ra te oferecer.

Têm dolência de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos p’ra te enlouquecer!

Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!

Amo-te tanto! E nunca te ocultei...
Que neste beijo, Amor, que já te dei
Guardo os versos mais lindos que te fiz!"

.

21.3.05



Primavera Bloguista

Costumo dizer em tom de brincadeira que depois da invenção da roda e da fundação do Sport Lisboa e Benfica, os blogs foram a melhor coisinha que me aconteceu desde que me endividei para comprar um computador. E não vale a pena tentar perceber porquê, porque eu explico.

Parece difícil de crer que houve realmente um tempo em que a minha vida era explosiva, preenchida e divertida. Não apenas pela permissão da juvenil idade e disposição, mas também pela naturalidade como conhecia pessoas interessantes e coisas assim.
Aos 18 anos era já dono de uma substancial cultura básica, um pouco acima da média dos putos broncos da minha rua e, passe a imodéstia, até era considerado o exemplo do tipo esperto (e um bom partido, hehe…) pelas miúdas da escola no quarteirão mais à frente.
Porque a política estava então amordaçada, os perfis mais significativos que podia transmitir à malta da minha juventude tinham a ver com as sinaléticas culturais da época: o Tarzan e o Bill the Kid. Só mais tarde se seguiria Spencer Tracy, Abbott e Costello e o D’Artagnan.
Viciado em aventuras do género e nos discos do José Cid pela vida fora, nunca imaginei que para além da janela do segundo andar onde morava, existisse outro mundo. Mais abrangente e diversificado, mais tendenciosamente cultural e de grandes repercussões no planeta. Isso mesmo. Descobri os blogs!

É a eles que devo a rápida e forçada aprendizagem das línguas. Foi neles que descobri a Condessa de Ségur, o Pacheco Pereira e as trouxinhas de bacalhau. Foi por eles que tomei conhecimento dos lagostins-marmanjolas imunes à dor física e o segredo de Fátima. É deles também a responsabilidade de se saber o código Da Vinci, o código da Estrada e o código do Messenger.
Aliás, foram os blogs que me fizeram entender melhor o protocolo do Kioto, o acordo ortográfico e o Alberto João Jardim. E para não dizer que sou ingrato, é nos blogs que tomo pela primeira vez plena consciência do direito do contraditório, do estudo da Spina Bífida e da memória colectiva de Vilarinho das Furnas.

Qual Der Spiegel, qual Time? Os blogs, até na Quirguízia são o fiel retrato de que não existem distâncias e fronteiras nesta nova maneira de saber das coisas.
Quem seria eu hoje sem eles, hã…?

.

20.3.05



Tínhamos prometido que quando começasse a chover, eu e o John Kid, ficaríamos toda a noite a ouvir Falco. É hoje!

.

19.3.05



Nostalgia dos dias pardos.

Nunca se tem em demasia quando se fala de Amigos!
Há os amigos de ocasião, os amigos de Peniche, os amigos do peito, os amigos da onça e os amigos do alheio. Mas quase todos temos - pelo menos - mais um amigo: o Pai.

E amigos amigos, negócios à parte, o Pai é o amigo que nunca devíamos perder. Aquele cuja amizade nos acompanha a vida toda. Aquele de quem imitamos exemplos, gestos e outras fantasias. Aquele com quem completamos os nossos desvarios, as nossas loucuras de meninos. O personagem omnipresente. O nome que nunca mais nos larga.

Uma nódoa negra, um braço partido, um joelho esfolado, temos o Pai. Uma camisa aos quadrados, um dente arrancado, casamento marcado, temos o Pai. Angústias disfarçadas, sonhos perdidos, pequenos fracassos, temos o Pai.
O Pai é o estilo faction, o primeiro livro, o nosso orgulho. É magia, palco do mundo, natal dos dias. Janelas, portas abertas e maresias.

Quando o perdemos, uma parte do corpo é decepada. Ficamos agrestes, ao sabor do vento que nos arrasta para a nossa própria vida. Damos conta de uma revolta surda e o mar perde um pouco a sua cor. Viramos fera ferida, presa ameaçada. Segredo velhacamente profanado em dias pardos como este.

Perdi o meu a 19, faz tempo. Trezes anos, para ser mais rigoroso.

.

15.3.05



Atarefado, mas vivinho da costa

Esta semana tenho que andar assim.
Estou num horário lixado, que nem é carne nem é peixe, e é provável que não consiga acompanhar todos os blogs da rapaziada amiga. Muito menos, outros que também prezo.
Por isso, não estranhe se calhar a si eu lhe aparecer só p'rá semana.

As minhas desculpas.

.

13.3.05


Desenho de Javier Calvo


Porque a Sofia está a dormir, os Netescritores fazem um ano de blog e já não vejo ninguém à frente do Benfica.


As minhas sugestões:

- "Memória das Minhas Putas Tristes" de Gabriel García Marquez
- "Million Dollar Baby" de Clint Eastwood
- "Badoca Park"

.

11.3.05



Provavelmente, hoje, quase toda a gente fala, ou falará, sobre terrorismo.
Eu também o faço, não numa de análise sociológica ou vincadamente partidária, (sou inculto o bastante para que possa aprofundar o assunto), mas apenas como se estivesse a deambular sobre o tema com amigos à mesa do café a ver passar mulheres vistosas.

Sobre actos perpetrados em solo nacional, os portugueses não se podem queixar. O sermos pacatos, obedientes, e não constar da lista das ameaças estrangeiras, muito menos invasoras, são pontos a nosso favor. Ao contrário de países poderosos, onde a força política instalada agride, interfere, invade, rouba, mata e sacrifica outros povos para seu próprio benefício, em nome de sei lá quantos disparates e ganâncias, que seria de esperar senão uma retaliação que posso muito bem apelidar de legítima defesa.

Esta afirmação pode custar-me cara, da forma como será entendida. Pensarão: “este gajo defende o terrorismo!”? Nada disso. Mas entendo-o.
E não ter passado por situações que os chamados actos terroristas provocam, não me impede, também, de entender a dor, o sofrimento, a revolta de quem, diz-se, não ter nada a ver com isso. Mas tem. Os analistas na matéria não o escondendo, velam-no.
E os politicamente correctos sabem disso.

A sociedade actual funciona dum maneira tão indecorosa que o cidadão comum não se apercebe que é carne para canhão, moeda de troca. Seja em Jerusalém, em Nova Iorque, Bagdade ou na Cochinchina. Os veículos de transmissão das regras impostas pelos senhores do mundo encarregam-se disso. Os submissos também.

Os tempos são outros, pode-se contrapor. Está certo. Mas as lutas continuam as mesmas. O que mudou foram os métodos. E desde que o mundo é mundo, o Homem sempre quis ser um caçador nato. Mas qualquer presa tem o direito, e o dever, a defender-se do predador.

É importante não descurar esse pequeno pormenor.

.

8.3.05



Elas sorriem quando querem gritar.
Elas cantam quando querem chorar.
Elas choram quando estão felizes.
E riem quando estão nervosas.

Elas lutam por aquilo que acreditam.
Elas levantam-se na injustiça.
Elas não levam "não" como resposta quando sabem existir melhor solução.
Elas andam sem sapatos novos para os filhos poderem tê-los.

Elas vão ao médico com uma amiga assustada.
Elas amam incondicionalmente.
Elas choram quando os filhos adoecem e se alegram quando ganham prémios.
Elas ficam contentes quando sabem de um aniversário ou um novo casamento.

Pablo Neruda

.

7.3.05



Os Netescritores

“Ao amigo Eduardo que quase todos os dias nos visita e que com atenção lê tudo o que escrevemos…”

Por natureza sou um indivíduo excessivamente sensível a tópicos que me tocam mais de perto e não sustenho com facilidade a fase lacrimante da consequência.
Quando se trata de crianças, então, é o caos total e os meus sentidos ficam em cacos.
Num acaso, vai para um ano, descobri estes pequenotes e nunca mais os larguei. Assim como outros bloggers onde a amizade virtual se fez obrigatória.

Na mensagem recebida que acima transcrevo uma parte, senti-me como se eles, além dos sete filhos que tenho, e quase igual número de netos, dos meus fizessem parte.
Como crianças que são, admiro-as. A rebeldia dos seus actos surpreende-me. A pureza com que se manifestam transcende-me.

E estes pequenotes estão na sua fase de afirmação pessoal. Estão agora a descobrir de como é feito o mundo e a definir a sua própria escolha entre o que é bem e o que é mal.
Fazem-no de diversas formas e com os meios que têm mais à mão: o computador e o blog. São crianças que nos contam histórias, escrevem poemas e cantam livremente o que o seu pequenino/grande coração transporta. De modo simples como fazem todas as crianças. E com o apoio incondicional da sua professora vimaranense: a Emília Miranda.

Deles, tenho a estima. O carinho e a certeza de que estão no rumo certo.
Para eles tenho apenas uma palavra: Obrigado.

.

6.3.05



Há dias assim

Hoje, não sei porquê, sinto-me assim-assim.
Ou é da terra girar mais rapidamente do que o costume, (facto que me põe a cabeça em fanicos) ou da variedade de pessoas que não conheço mas que me assinalam e me acarinham.

Por um lado, sinto-me bem. Talvez pelas comodidades e atenções de que sou alvo e sinta como duma qualquer transcendência orbital tivesse renascido.
Por outro, desgasto-me a pensar como retribuir e fico mal. Parece que me sinto anulado, incapacitado e ao quadrado. Sou capaz de estar absorvido até, para uma melhor compreensão pedagógica da coisa, por algum malefício asiático ou por algum vírus que ninguém ainda descobriu.

Seja como for, incrédulo como sempre fui, pode ser que o futuro que me resta seja a resposta ao passado que nas mãos de outros existe. Para bem de todos e de mim. Mesmo que sejam filhos da fruta. E sabe porquê?. Porque há dias assim.

.

1.3.05



Esta coisa de escrever nos blogs tem muito que se lhe diga.

Se por acaso, o espaço em branco abaixo introduzido fosse propriedade sua, o que lhe apetecia escrever que não possa dizer no seu?
















.Está a ver? Não é tão fácil assim...

28.2.05

Bom dia!

Desconheço ainda a formação do novo governo, quem será o gajo que me vai vir ao bolso e o que vão fazer à saúde e à educação. Mas este ano, mesmo assim, quero ganhar uns amigos a mais. Livres de impostos.
Por isso optei por abrir uma Oficina onde posso fazer uns biscates durante esta semana. Estar entretido é o objectivo, aprender a fazer coisas novas seria o ideal.
Só para tentar aliviar o stress que o jogo de logo à noite me está a provocar e não tentar pensar que este ano não sou aumentado.
Mas para isso preciso de clientes.

Vá lá. Ponham-me a trabalhar…

.

26.2.05



Está a dar-me um "vaipe"... será por ser sábado?
Eu explico:



A Idade do Retiro

Estão a aparecer transformações estranhas no meu ser!
Não é que esteja a ficar gordo. Nada disso (coitadinho de mim… setenta e cinco quilos e trezentas gramas). O colesterol?... nem sei o que isso é. A tensão está boa, a atenção recomenda-se e o outro "ão"… de vez em quando, funciona.

É mais a paciência, digo eu.
Dei comigo a não ter pachorra para aturar na vida gente mais parva do que eu. Aglutino-me já com coisa pouca e qualquer mesquinhice me incomoda. Nunca gostei de multidões, muito menos de apertos e vejo-me sempre rodeado de estafermos. Estou numa fase de sentir que só me aparecem cromos pela frente e já me falta a paciência para os aturar.
O que será isto?

Nunca tive psiquiatra e o médico de família nem sequer me conhece. Não recorro a advogados, cartomantes ou medicinas não-convencionais. O gajo que às vezes me dá umas dicas (um psicólogo radical e fundamentalista, que por acaso é meu irmão) quando lhe falo no assunto manda-me logo ir dar banho ao cão. Ele que até sabe que é uma cadela…

Pode ser um bom sinal mas eu sei que não estou bem.
Já não suporto a gritaria dos cachopos, os programas que passam na TV e os resultados do Benfica. Tudo isto sem referir que perdi a vontade de ir à pesca, de beber umas imperiais depois das dez e de gastar algum em novidades.

Vão-me valendo os blogs e toda a malta que está por detrás deles.
Mas isso só não chega para justificar esta mudança no meu ser ou explicar a metamorfose repentina do meu Eu.

(Epá!, se alguém souber de algum remédio…?)

Bom fim de semana!

.

23.2.05



Papelinhos guardados na gaveta (com dedicatória)

Por vezes, fico perdido em recordações temporais de dias e noites que nunca mais regressam. Vivo em conversas trocadas sem sentido. Filosofias vãs que aniquilam a oportunidade de me voltarem a encontrar.
Mas os tempos, hoje, são diferentes.
As noites continuam a ter a lua como horizonte, mesmo não acompanhando o ritmo frenético da minha juventude. Os sons que oiço não perdem o brilho de todos os bancos de jardim e os espaços... esses espaços tão meus, continuam feitos no timbre artesanal do meu lado quedo da nostalgia. Da silenciosa esquina que reparto com flores. Flores essas que devem ter o seu próprio odor. Tão próprio como as cores que perpetuam o seu nome.

Agora é tempo de redescobrir as noites inventadas por crianças. Dias menos agrestes que me façam amar e rir, até que volte a anoitecer. Daqueles que iludem e deixam rastos. Que me indicam os caminhos para reduzir o outro lado da vida e da má sorte. Que deixam as cinzas apagadas dos cigarros que fumei.

Embriagando-me nesse odor, posso ver menos tragédias e ventos impelidos por desgraças. Posso ver partes iguais naqueles que nascem mais de perto. Posso ter até, diversas maneiras de sentir. É a própria vida que me ensina todos os dias. Pois “se há gente que encara a tristeza a rir", diz o poeta, "existem muitos outros que choram de alegria” .
Por isso, da minha janela ainda vejo o mar. Esse mar que me leva longe sem daqui sair. Mas que tranquiliza e me afaga. E me afoga em delírios trementes de ilusão.

Para quem tem pela frente uma vida dura e pintada em vários tons, viver sempre em função dos dias e das horas que passam vigorosas não é bom. Muitas delas lentas e difíceis, outras incrivelmente rápidas e decisivas.
Daí que, para além dos filhos e netos que já tenho, mais não deixo que a minha própria estória de ninguém. Que nunca escrevi. Mas que está inscrita onde só eu sei.

Talvez por mágoa, talvez por medo, pela angústia do dia de amanhã, se torne a máscara de mim e de todos os momentos. Pode ser até a sina minha, o meu fado, o egoísmo de todas as coisas e o terminal dos meus sonhos cor-de-rosa na esperança de que existe sempre, algures, um mar abandonado que me pode voltar a descobrir. Mesmo que seja nas areias dum rio que nunca encontra a foz, terei sempre perto de mim os trabalhos forçados atribuídos a um crime que nunca pratiquei. Mas que condena. Numa condenação a mais para um homem só.

Mas por amor, serei capaz de tudo. Até deixar de amar.

.

21.2.05



Depois de passar esta euforia controlada, tenho a sensação que daqui a bocadinho vou trabalhar com outra vontade. Tomara que "eles" fizessem o mesmo.

Uma boa semana a quem passar por aqui.
Aos outros também.

Vá, toca a trabalhar...

.

20.2.05



"Chamam-te fama e glória soberana ,
Nomes com quem se o povo néscio engana."
Canto IV, est. 96, vv. 7,8

O Velho do Restelo

Acompanhando de perto as motivadas gentes, feitas por momentos “salvadores” da Pátria, meti-me à estrada. Descobri escarpas de vontades esquecidas e campos onde as “mudanças” das portas que Abril abriu nunca se encontram.
De apagados que estão todos os cultos. De escondidos que estão todos os sábios.

As novas que trago são já velhas. Ressequidas pelo tempo que não faz, alagadas pela chuva que não cai neste país. Pobre e triste. Resignado e escravo.
Desiludam-se pois, os esperançados. Todos quantos depositam no dia de amanhã um rumo novo ou uma nova era. Todos aqueles que pretendiam outra etapa.
É tudo um jogo.

Um jogo que o fogoso tempo da minha juventude fez abandonar a esperança e o encantamento nas coisas raras. Um jogo de poder que traiu a fé nos homens e mulheres que nos governam. Onde o pano abre sem se ter escutado de Molière todas as pancadas. Em que o happy end nunca tem lugar e onde as trapaças duplicam como apostas.
Eu vi. Eu estive lá, considerado como sendo deles.

Seja qual for o resultado, amanhã continuaremos ao sabor das velas que não abrem. A remar contra marés sempre vazias e enredados no odor do sabonete Palmolive.
Continuaremos a projectar futuros e a adiar decisões. A desconfiar do vizinho e a fazer duma mentira uma verdade até que chegue o dia da natureza obrigatória.

Por mim, e de qualquer das formas, mais revoltado não posso estar ao longo de estes anos todos . E é naquele pedaço branco de papel que o vou dizer, assim como todos os anarquistas da minha mocidade.
Mas não é por eles que o faço. É pelo meu direito à Revolução.

Portanto, vou ali derrubar este governo e volto já.


Confira os resultados das Eleições Legislativas 2005

Aqui...
Ou aqui.

11.2.05


Marcel Marceau

Estamos, praticamente, a uma semana de mais uma metamorfose social prestes a eclodir neste país onde já quase toda a gente sabe onde está plantado. Isso mesmo! À beira-mar.
Do quarto onde nasci continua a ver-se o mar. Mas durante os últimos trinta anos mantenho-me à beira. À beira de um ataque de nervos sempre que alturas destas acontecem. Para mal dos pecados de todos nós.

Pode ser da idade, diz-me o meu vizinho da frente.
Calcula-se até, que não tendo ninguém por perto para ler o futuro na palma da minha mão, a menopausa da mãe que me foi dada conhecer possa estar a dar cabo dos meus genes de estimação. (Pode ler-se em estudo recente da Science sobre a emancipação dos filhos). Ou, diz quem sabe, o facto de estar “agarrado” ao computador tempo demasiado possa prejudicar a minha visão analítica destas coisas. O que poderá tornar-me num desequilibrado mental. Crónico.

Mas desde miúdo que recordo a minha adoração, quase idolatria, pelo Zorro e/ou Robin Hood. Tem a ver com uma tara manienta que sempre tive sobre humilhados e ofendidos. Sobre secos e molhados, ricos e pobres e coisas assim. E se a verdade estiver nos signos do Zodíaco, sendo eu Carneiro, há em mim o desejo de mandar em toda a gente e por tudo em pratos limpos. Ajudar e resolver. E sobretudo, dar. Dar a perceber que a malta deste povo não é (não deve ser) estúpida e, se preciso for, também sabe retribuir. Nem que seja um par de estalos a quem nos julga por imbecis. O que me daria um gozo do caraças e o sentimento de um dever cumprido.

Mas como já demonstrei neste meu pequeno espaço, por variadas vezes, sou uma besta-quadrada em psicanálise e em cálculos matemáticos. Erro sempre em sociologia e, parece-me até, que necessito urgentemente de uma consulta psiquiátrica. Sem necessidade aparente de internamento compulsivo, diga-se de passagem.
Em sondagens ainda menos acerto, o que adjudica uma maior dose de estupidez da minha parte às tentativas a que me exponho.
Talvez por nunca recorrer muito aos ensinamentos de Platão, ser avesso a muitas filosofias de Nietszche, ao iluminismo de Locke e ter sido quase obrigado a aceitar as teorias de Charles Darwin. O que logo faz de mim um eleitor confundido. E por consequência... fodido.
(peço desculpa pelo palavrão)

Mas haja saúde!

Tendo a ser mais Dickens e Dostoievski, ou precocemente Agostinho da Silva. Pois fico "nunca sabendo se há filosofias nacionais". Mas admiro imenso as pessoas que descobri pelos blogs e estou agradecido pelo que tenho apreendido com elas em perfomancesestatisticaspontocom. Em claro e obscuro. Em verso e prosa, e outras advências que me surgem por acréscimo.

Sempre que quiser, serei tudo e nada. Poderei olhar as mamas da Samantha Fox quando ela tinha a vossa idade, apreciar um bom vinho alentejano e todos os carinhos que me enviam pelo correio. Também o ser benfiquista, faz de mim, desde já, um potencial sonhador nas capacidades humanas tornando uma mais-valia ao crer no futuro, e nesta malta toda, que nos pode representar neste vazio constante desta vida que se escolhe.
Mas existe um bichinho qualquer que me diz que não é desta que vamos lá.
Bastou-me olhar p'ra "eles", ouvi-los, e apalpá-los vem. Como diz o RAP.

Eu não sou político. Eu não tenho palavras. Eu não tenho vinho.
Mas que está aqui um caso dos trabalhos, lá isso está.

Agora, se não houver inconveniente, só cá venho no dia 20.
Vai apetecer-me andar por aí. A saber de uns e a outros conhecer.
Antes de me darem a saber a conclusão a que chegaram.

7.2.05



Carnaval 2005

Há seis mil anos atrás, o Carnaval justifica que afirme que “a tradição já não é o que era”.
Nem Baco tem o mesmo grau, nem Ísis aderiu ou se converteu às novas tecnologias.
Coincidente, ou talvez não, os carrum navalis da homenagem a Saturno, que eram viaturas puxadas por algumas cavalgaduras dessa altura, quer fosse em Roma ou no Egipto, afloriam nas ruas e vielas transportando em cima homens e mulheres nus. Despidos do seus mais elementares direitos ao agasalho, à reconversão de matérias fantasiosas ou outras abstinências pagãs.

Nos dias de hoje, o Corso está inserido numa sociedade menos clássica onde as máscaras surgem mascaradas. Menos artísticas, mais alegóricas. Pertinentemente mais Sócrates, infelizmente menos Dionisus, mas aonde se mantém alguns vestígios de bacanais, saturnais, lupercais e outros tantos uis e igual número de ais.

A Igreja sempre condenou estas manifestações até surgir Paulo II. Não este, o outro do século XV, quando permitiu o Baile de Máscaras no seu palácio. Uma abertura vista como mais uma fantasia dos tempos. Aqueles tempos. E nesses tempos, como nos de agora, posso aproveitar os ensinamentos do Dr. Hiram Araújo, um estudioso em assuntos relacionados com culturas carnavalescas, que considera estas barracadas em quatro períodos de excelência: O Originário, o Pagão, o Cristão e o Contemporâneo.

E se tudo isto é Carnaval, se tudo isto existe, se tudo isto é fado,

vais te mascarar de quê?

5.2.05



"xi... o Miguel Cadilhe, pá! Onde é que eu andava com a cabeça?
Tenho que reaver a minha agenda dos tempos do liceu..."

As minhas diferenças com Pedro

Pode até parecer absurdo, mas sempre admirei o Pedro.
E porque não somos todos iguais, simpatizo menos com Santana Lopes.
Estudamos juntos, reinamos muito, mas as nossas distinções verificaram-se logo após a infância pela altura da escolha dos nossos actuais dissabores : eu escolhi Benfica, ele optou Sporting.
Porém, a sorte ou azar que os (des)equilíbrios económicos provocaram não se ficaram por aqui.
Ele seguiu os estudos, eu fiquei pelo caminho. Chegou a PM, e eu, por outras vias, consegui um patamar social que, mesmo com as diferenças reais existentes nessa matéria, nada me envergonha de poder estar à altura dele. Como cidadão. Apenas com a diferença de ser eu a poder julgá-lo. A ele, o "retórico", porque sempre fui mais "prático". Ele comprava o "Diário de Lisboa", eu pedia emprestado o "República". Ele escarnecia disto, eu ria-me daquilo. Ele tem que arranjar trabalho, eu já o tenho. Ele tem um partido. Eu ainda não.

Nunca foram as festas de garagem que nos separaram. A função social encarregou-se disso. No entanto, convém sublinhar, que o Pedro sempre foi um visionista. Lírico e sonhador. Um "sebastião" convicto e sem Império. Como eu. Só que ele sempre possuiu o condão de ter mais lábia. Um exemplo de oratória para os engasgados. Mas, depois de alguns comportamentos corrigidos, e com uma vida - a minha e a dele - recheada de experiências, ele é uma pessoa rejeitada pela maioria dos putos da nossa escola (São Domingos de Benfica).
Eu nem tanto assim.

Nem ele se lembrará que costumávamos comparar cada "conquista" (se eu tivesse "duas", ele ia a terreiro e arranjava "três"), e onde o rumo de cada um de nós se foi desenvolvendo em separado. Eu casei, e ele já o fez mais vezes. Tem um património maior que o meu, e nunca o invejei por isso. Desenvolveu as suas apetências, sabe do mundo, da vida, e toda a gente o conhece. Eu não consegui. Só nos filhos é que (ainda) lhe ganho: sete a cinco.

Por isso, encontrar pessoas como o Pedro nas nossas vidas não sucede a todos. Agora ter Santana Lopes por perto, pode acontecer a qualquer um. Daí, ser apenas isto que me faz ter a mão na consciência e decidir se o avise, ou não, do fim da sua carreira quixotesca . Uma fase terminal de um círculo viciante e compulsivo onde a política o levou e que faz as diferenças que nos separam. Que pode acabar mal e anular, irremediavelmente, o Pedro que eu conheci.

Dá para acreditar?

3.2.05


Estou danado!

Não me convidaram para o debate.

(foto d'A Capital)

Mas fui ver! (sozinho)

A mulher adormeceu meia hora depois não sei antes de me responder a um comentário à mesa no jantar.
Eu - Estes gajos mentem com quantos dentes têm na boca!
Ela – Claro. São políticos.
A neta nem me disse nada quando veio buscar os bilhetes para “O Aviador”. Um beijo reconfortou-me a noite.

E eu que tinha tantas coisas para abordar...
Mas vali-me de um senhor que já foi vivo e que escreveu o que nunca morre, infelizmente:

“Aproxima-te um pouco de nós, e vê. O País perdeu a inteligência e a consciência moral. Os costumes estão dissolvidos e os caracteres corrompidos. A prática da vida tem por única direcção a conveniência. Não há princípio que não seja desmentido, nem instituição que não seja escarnecida. Ninguém se respeita. Não existe nenhuma solidariedade entre os cidadãos. Já não se crê na honestidade dos homens públicos...”
Eça de Queiroz n’As Farpas

Depois... acho que também adormeci.

1.2.05



Ainda sou do tempo…

Hoje tenho vestida a minha farpela de sociólogo de meia-tigela. Não apenas para ter uma aparência diferente, mas porque a outra, a de operário, foi para lavar.
Já velho e cansado destas coisas da política, lembrei-me (faz hoje anos) que o Costa e o Buiça deram uns tirinhos para alterarem um regime.
Desta vez, no dia 20, Portugal, ou melhor, os portugueses vão dar tirinhos não para a mudança do dito mas, muito provavelmente, escolher outro chefe de governo.

Ainda sou do tempo em que os valores que despertavam nas pessoas a vontade de se expressar pelo voto eram a honestidade, a honradez e os ideais que os candidatos a tal cargo possuíam e com seriedade os defendiam.
Mas o "people" olha para estes tipos e fica logo a bater com "eles" numa lage. Não apenas pela forma como se degladiam, mas pela expressa falta de vergonha na cara, pela baixeza e a deselegância nos ataques pessoais, por golpes sujos e outras vilanesas, pela merda dos argumentos que arrastam atrás de si e pelo palavreado que alardeiam e nada muda.

Ainda sou do tempo em que os melhores políticos eram bem formados e as "promessas" que faziam não ultrapassavam o irreal. Ainda sou do tempo em que os políticos tinham um passado. Limpo. Cristalino e coerente. Sem correr o risco de lhes apontarem esquisitices, devaneios ou comportamentos que nunca podem ser de exemplo. Onde a arrogância e a prepotência logo ficavam banidos à partida , por quem de sol a sol fazia a sua vida.

Houve tempo em que lutei para acabar com a submissão implícita daquela gente e incentivar a liberdade no indivíduo como tal. Mas os tempos adulteraram-se e a escola destes gajos transformou-se. Por isso, não me admira que este povo transforme esta "cena", que devia ser bastante séria, numa palhaçada de risada à boca larga.
Diria mais: eles não sabem ou já não se lembram, que ainda sou do tempo em que umas trolitadas bem assentes faziam impor respeito e davam dignidade a quem assim lutava.
"à Buiça", se preciso fosse!

Mas... os tempos são outros agora.
Vá, vão lá votar, enquanto vou ver se a farpela que vesti ontem já está seca.

27.1.05



Auschwitz - 60 anos

Primeiro eles vieram atrás dos comunistas
e eu não disse nada porque não era comunista.
A seguir vieram atrás dos judeus
e eu não disse nada porque não era judeu.
Depois vieram atrás dos católicos
e eu não disse nada porque nunca o fui.
Quando vieram atrás de mim
já não havia ninguém para falar em minha defesa.
[Martin Niemöller]


Memórias

Chegaram era já noite. Sem aviso prévio.
Levaram-me e tiraram um retrato a preto e branco.
Despiram-me as roupas, roubaram-me acessórios e a alegria que me invadia nessa tarde. Chocalharam-me os ossos e o que restava da raiva que trazia. Humilharam, ofenderam e tatuaram-me na pele um número. De algarismos desiguais na casa de imensos mil.
"ARBEIT MACHT FREI" era o tapete da minha casa nova . Velha e sombria, gelada e sem réstia de esperança de rever o meu país. A família, os amigos e o futuro.
Nas marcas dos carris dos vagões da morte como destino, ouviam-se tiros. Réplicas às respostas dos sins e nões que nunca acertavam nas perguntas. Vazias e vagas. Sem assinatura.
Três anos de amarga resistência naquelas campas sem nome onde havia um esgar de aviso. O último aviso que podiam ter deixado: “sobrevivam!, para que possam contar que aconteceu.”

26.1.05



Estou um pouco mais liberto depois de uma semana complicada.
Quase como todas as semanas. Porque ninguém me afiançou que a vida era fácil.

Consternação
Pelo falecimento do pai da Blue Shell.
Uma das ilustres visitantes recém-chegadas ao convívio deste pequeno espaço, mas que a amizade que se adquire, virtualmente ou não, faz com que pareça que somos todos íntimos. De longa data. E nestas coisas, é como se de família se tratasse.

Percepção
É das minhas vitais qualidades que arrasta consigo um dos meus piores defeitos: o perfeccionismo. Custa-me ter de aceitar que, há medida que a esfera de contactos se alonga, menos tempo tenho para “retaliar”. Não se trata de desculpa esfarrapada. É mesmo assim. Tomara o meu dia ter horas que nunca acabem. Saber de todos ao mesmo tempo e ir ao encontro imediato de quem passa por aqui. Mas não consigo.
Tenho horários compridos, uma família a sustentar, compromissos a que não posso fugir. Mas vai devagarinho. Ninguém está esquecido/a.

Detecção
Soube que alguns dos ilustres candidatos às eleições de 20 de Fevereiro “descobriram” os blogs. Ainda por cima, no “sapo”: um dos piores alojadores de páginas web. Com a agravante de apenas o Ministro da Defesa em gestão ter um sistema de comentários directo. Ele nem calcula os "piropos" a que se pode sujeitar. Mas demonstrou a coragem de que quando era jornalista.
Aos outros, os que o quiserem fazer (ajavardar), colocar dúvidas, sugestões ou mandá-los para um sítio que agora aqui não digo, só por e-mail.

23.1.05



Hoje é dia 23

Eu e esta senhora vamos festejar à moda antiga.
Por isso, depois do trabalho e de um banhinho tomado, vou estrear os sapatos novos. Pode ser que calhe um tango.
Nada de poemas e outras coisas líricas.
Hoje é assim

E nos outros dias também. Xau, até amanhã!


21.1.05



Seixal-Lisboa-Seixal

Numa cidade com mais de um milhão de pessoas entre as oito horas da manhã e as sete da tarde é difícil reconhecermos alguém durante esta viagem.
As pessoas levantam-se absortas, programadas e sem um pingo de alegria nos olhos.
À medida dos seus trajectos, tomam um pequeno-almoço errado e insuficiente, pegam o Destak na estação e dão uma vista d’olhos apressada pela outra informação.
Compram tabaco, uma revista e sentam-se para, em média, cinquenta e seis minutos de pública tortura.
Para muitos, um suplício maior do que o de Tântalo.

Hoje, declaradamente, fiz figura de parvo, mas não resisti olhar nas pessoas os seus tic-tac matinais e saber como que se envolvem nesta viagem.
Por hábito, as pessoas não entabulam conversa. Os portugueses ainda menos. Olham pela janela, distantes, a paisagem que sabem de cor e salteada. Olham diversas vezes para o relógio como se pudessem controlar o tempo que lhes foge. Remexem-se, inquietos, nas curtas cadeiras, suficientemente mini para quem tenha cento e noventa centímetros de altura e pernas longas. E não estou a falar de Naomi Campbell.

Os horários são outra desgraça que afecta quem viaja à procura do pão, do suor e das lágrimas.
As mentes brilhantes das administrações dos vários concessionários nos serviços de transportes, optaram pela redução em vez da dispersão e do método. Conseguem afunilar dez pessoas por metro quadrado. Juntam-nas em magotes de massa humana em movimento lento e levam-nas. Como quem dirige um rebanho opaco, Sempre na pior das horas: a de ponta. Quentinhas, ao molho e obrigatoriamente aconhegadas. Na fé de que um dia destes metade delas se reforme.

Para agravar ainda mais a situação, a maior parte das pessoas não sabe andar de Metro, escada rolante, ou até mesmo saber como funciona, socialmente falando, uma fila na paragem do autocarro.
Devido, quiçá, à múltipla variedade de raças e credos desta moderna escravatura, muito menos se preocupam por onde anda o título de transporte ou se trazem os trocos certos para a compra do ticket. E perdem-se minutos. Horas.
E paciência.

Será por isso que estou sempre desejoso de chegar a casa?

17.1.05



A falta de assunto

Quando assim pensei, notei que a mim próprio me enganava.
A falta de assunto, só por si, já é assunto. Vesgo e parvo, desinteressante e vago, mas é assunto. Tão bom ou melhor do que qualquer outro por onde o mar nos leva.

Bem posso socorrer-me, de entre outros, da Língua Portuguesa.
Essa pátria tão maltratada, e mal tratada, nos seus mais recônditos segredos. “Essa a língua em que por acaso de gerações nasci..."
Ou, melhor podia optar por Torga, o maldito, que “nem sempre escreveu que era intransigente e duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) e que nem sempre admitiu que estava irado com este camarada e aquele amigo. (...) tal a desgraça de nunca o deixarem estar só, pensar só, sentir só.”
Ou até mesmo de Cervantes. Ilustre andante Cavaleiro em que “ não havia medo em nada e de ninguém” e afirmava aos áureos ventos em generoso acto, que “se nos ladram é porque cavalgamos” e somos “o casto ardor de uma amorosa chama”.

Falta de assunto?
Falta assunto a quem é morto. Jaza cadáver. Frio, enregelado já, pela longa espera da mortalha a quem a “palavra que me lavra, alfaia escrava, de mim próprio matéria bruta e brava, é expressão da multidão que está comigo”. Falta de assunto?
Não!

Sei de Martinus e Adriana Iliescu,
mais Titã e os sons do infinito.
Sei do tremor da terra
e o flagelo sombrio e nu
que me traíu
e que me cega.
O castigo ténue,
o labirinto,
e a palavra vã.
Sei o tom deste ciclo
que não encerra.
Sei da raiva,
da vida pela manhã,
incontida,
foragida,
em vários credos
atravessada,
pela parca
e pobre Liberdade
adulterada
nos dias e horas que atravesso.
Sei de mim.
Do Mundo.
De ti
e do Mar calmo ao seu regresso.
Sei do poeta
e do amigo.
Por isso,
e sem desculpa,
faltar assunto
é coisa que eu não digo.

16.1.05



Apelo à Humanidade

"Tivemos a tristeza de ver recentemente o tsunami, causando uma grande destruição e vitimando um número inconcebível de pessoas em sete países da Ásia. Sabemos que esse tipo de facto é um acontecimento natural, porém havemos de analisar e acrescentar que a intensidade desse tsunami mostra-nos claramente que o desequilíbrio ambiental é, incontestavelmente, potencializador de forças naturais deste porte. Cabe a nós, definitivamente, uma reflexão séria sobre o assunto e buscarmos maneiras mais correctas de lidarmos com o espaço em que vivemos para que não sejamos os responsáveis por catástrofes desta natureza."

Continue a ler esta cadeia de solidariedade em Diálogos Fraternos ou Fraternidade.

* Subcritores

13.1.05



Efeitos colaterais
(Como devem calcular, esta generosidade não podia ficar escondida na caixinha dos comentários.)

"Fiz este poema a pedido da Inês, de 8 anos. O poema foi-lhe dedicado, mas a generosidade das crianças deixa que o partilhe hoje contigo (e todos)." *


A AMIZADE

A amizade é:
como o fresco da sombra,
no Verão!
Como a carícia do mar,
ao nadar!

A amizade é:
água que mata a sede,
pão que mata a fome!

A amizade é:
gostar do outro como de nós.
Não o querer mudar.
E como é, o aceitar!

A amizade é:
Estar atento e dar,
ao amigo,
o que de nós precisar!

A amizade é, também:
A VERDADE,
mesmo que doa!
Mas não por QUERER
Magoar!

A amizade é:
Jogar a mão e suster na queda.
É amparar,
presente estar
quando de nós necessitar.

A amizade é RIR!
Rir muito, gargalhar
mesmo sem porquê saber,
se o amigo feliz estiver!
E é também
a capacidade de com ele chorar, mas
principalmente,
ajudá-lo sempre a andar,
pois é vasto o mundo
e longo o caminhar.

* - TMara (01.11.05 - 6:21 am)