1.4.06

1.º d’Abril



O dia das mentiras é, para os portugueses, o dia de se contarem verdades.
Ao contrário do que manda a tradição, hoje pode muito bem dizer-se mal sem se ser enganoso e sobrepor outras plaisanteries. É como um Carnaval alterado no melhor sentido do termo, onde “o bom mentiroso não cora, não se engasga e mente tão bem que acredita na falsidade que está a contar.”

Tem alguma ideia de qual seja a verdade mais mentirosa?

29.3.06



Lá como cá...

Por muito que maçador se torne falar do Benfica, ontem, no jogo com o Barcelona verifiquei muitas semelhanças entre o Glorioso e Portugal. A sério.
Lá, como cá, também se vive do passado. Do sonho. Da enganosa fantasia.
Cá, como lá, faltam os malabaristas. Os artistas. Poetas de bem-dizer e melhor fazer.

Por muito que me repita, lá como cá, só a garra não chega. Faltam complementos importantes que façam a diferença. Faltam os sorrisos largos de quem fizer um filho fá-lo por gosto. Faltam botas 45, uma camisa número dez, o capitão que nos envolva ao desafio e 3333333 medidas.

Ter o estádio cheio e o país ao rubro é pouco.
Lá como cá, os efémeros minutos da fama não chegam. Ir mais além do que se propõe seria a meta. Funcionar em bloco era o ideal. Criar a nota tilintante com que se compram os melões faria com que se viabilizassem ideias. Mas isso dá trabalho e faz levantar cedo.

Por muito que acredite que alguma coisa possa melhorar e que a inércia se aniquile, as diferenças da qualidade existem. Lá como cá, são assustadoras as desigualdades, as fragilidades, os nervos à flor da pele que impedem a progressão no terreno e a competitividade criativa. Não basta ter a tecnologia de ponta à mão. É necessário saber geri-la. Aproveitá-la como mais-valia.

Por isso se diz neste pequeno e grande mundo que é Portugal, que quando o Benfica espirra o país fica constipado.
Lá como cá!

27.3.06



Dia Mundial do Teatro

Tal como todos os dias internacionais, o do teatro também é para celebrar, claro.
E fugindo um pouco de Gil Vicente, um extraordinário site disponibilizado (entre outros) por João Vidal de Sousa, este assinalável evento não pode morrer de pé como as árvores, como dizia Palmira Bastos, essa grande Senhora do Teatro português. Temos que lhe dar ânimo, já que de vida anda pelas salas d’amargura.

Sou um português que nunca foi muito de fazer teatro mas sempre gostei de boas peças. Estou a lembrar-me de Fátima Felgueiras… perdão, da Mãe Coragem de Berltolt Brecht (Lisboa, 1975), quer interpretada por Gisela May (em Nova Yorque) ou Eunice Muñoz que tive o privilégio de conhecer em fim de carreira, no Teatro Villaret.
Como se percebe, também não frequentei muitos palcos. Eram mais tapumes, pisos duros e, de vez em quando, as escadas rolantes do Parque Eduardo VII.
Quanto a actores, estou recordado de Lawrence Olivier em Hamlet (Viena, 1966), Orson Wells em Citizen Kane (Budapest, 1941), e Luís Guilherme na Reunião Misteriosa (Porto, 2006).

Quanto ao glossário apavora-me os termos, sou franco. Coxia, por exemplo, tira-me o apetite. Já para não falar do Fosso de Orquestra ou Didascal, que me dá uma ligeira sensação de hérnia sedentária à boca de cena mesmo sendo na direita baixa.
O que gosto mesmo é dos dramaturgos. Esses sim. Vivem a peça, os diálogos, fazem todos os personagens. Já a encenação tem a sua farsa. Veja-se o happening dos espectadores de futebol na intertextualidade dos seus ícones.

Para terminar este quiproquo, de maneira alguma se pretende satirizar o solilóquio. Trata-se apenas de um texto cénico onde o imprescindível ponto faltou ao ensaio. Mas acho que fiz o meu papel.

24.3.06



Prestes a passar três anos sobre a descoberta dos blogs, sinto que muita coisa mudou na minha vida.
Neste espaço virtual choveram descobertas magníficas e mil outras coisas interessantes.
Encontrei poemas e prosas que gostaria de ter escrito. Histórias que gostaria de ter contado. Ideias que gostaria de ter tido. Pessoas. Muitas pessoas que podiam fazer parte da família, do núcleo duro das preferências, da roda tertuliana e humanitária onde, se se quiser, encontramos diariamente por esse vasto mundo da blogosfera.

E essa descoberta trouxe-me mais-valias em todos os sentidos. Bastaria partilhar as sensações destes quase três anos para descrever o que ganhei: Amigos. Muitos amigos. E também muita cultura, sabedoria. Bocadinhos únicos que não têm preço.

Sei que não é fácil ser blogger, scripter de dias pardos e longínquos. Não é fácil impor um estilo, um ritmo, um sentido único, uma actualização diária na escrita e nas palavras. Menos fácil será acompanhar duma assentada tudo e todos. Quase impossível saber o que acontece in locco nesta passarelle de testemunhar motivos.

Mas que vale a pena, lá isso vale.

Que seja um bom fim-de-semana!

23.3.06



Realidades da Vida

Quem acompanha mais de perto este cantinho meio escondido sabe muito bem que o dia vinte e três tem um significado especial: é o dia de me sentir gato vadio acarinhado. Um lobo a quem dão um dia calmo, um pardal de telhado endiabrado que saltita mesmo que chova. Um carneiro tresmalhado. Um cavalo à solta.

Tomara que os desgraçados que a vida despreza, se tornassem num dia vinte e três. Fossem todos eles abençoados por um deus que não existe e pudessem compartilhar a vida nova que me calhou.


Sempre soube que nem tudo é pão e milagre das rosas, onde é a própria vida que o ensina em cada despertar antecipado.
Devo pouco a muita gente, devo muito a toda a gente, mas devo tudo a quem cá sei.

Com dedicatória:

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21.3.06



Dia Mundial da Poesia

Sendo Portugal poeta, somos um país profeta que não rima. Impedem-nos os sulcos das terras lavradas, as casas mal acabadas e senhoras mal afamadas.
Desapareceram as armas e os barões assinalados, os barcos no outro alentejo naufragados em troca de tipos mal encarados.
Ficámos um país que não grita nem labuta, um país que virou a cara à luta e que enaltece os filhos da puta.
Sendo Portugal poeta, fadista e profeta, é figura de campónio que da vida faz gemer uma guitarra e um harmónio.
Por isso continua em fila de espera e de agasalho.
Que apenas consegue rimar com primavera e a vontade de mandar tudo p'ró...

Oiçamos um comum amigo:


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15.3.06

Mudar de vida

Quando por motivos incontroláveis se alteram hábitos e horários, levam-nos a repetir a frase esbatida de que se está a mudar de vida. Uma ciganice pura, ou um acto nómada se lhe quiser chamar assim.
Ora eu, bastante familiarizado com estas coisas, pareço quase um saltimbanco. Um artista de circo sem rei nem roque.
Na minha idade (isto de referir sempre a idade como desculpa será sinal de velhice prematura?) já não é normal. Quanto muito, umas adaptações profissionais e sociais fariam sentido. Agora andar com a casa às costas de tempos a tempos parece-me obra dum destino traçado que nunca foi muito meu amigo.
Mas a procura do encaixe duns tostanitos a mais faz sempre jeito. E se existem coisas na vida que muito prezo, uma delas é mudar de vida. Porque nunca me sinto completamente satisfeito com a que levo.

Por vezes interrogo-me: porque será?

11.3.06

Quadrúpedes




“Identificaram aquilo que parece ser uma alteração genética que impede três raparigas e dois rapazes, com idades entre 18 e 24 anos, de caminhar erectos.”




Lendo e relendo a notícia, acabrunho-me.
Ouvindo e repetindo Fernando Alves, vergo-me ao peso dum possível retrocesso humano: a evolução de voltar às três etapas; de caminhar sobre as duas mãos e os dois pés os trilhos dos primatas desaparecidos setenta milhões de anos atrás.

Como René-François-Auguste Rodin, o homem do nariz quebrado, também me espanta que da inadaptação à marcha erecta possa também fazer um retrato deste labirinto a que chamam de sociedade.

Mas não faço!
Porque pertenço à única raça que tolera os inadaptados.

4.3.06



Porque hoje é sábado...

há um relógio que toca aqui ao lado e não é meu.

O emitido som pertence ao quotidiano onde sobram sombras; claridades apagadas dum fugaz descanso. Sobrevivências que resistem a mais uma semana dura de trabalho. No entanto, esse despertar acorda as ideias adormecidas em lençóis brancos de linho onde as certezas, que são algumas, se esfumam no debruçar sobre as notícias matinais.

Como hoje é sábado…
recordo ser o dia das limpezas grandes ao cantinho onde o encanto e cumplicidade pernoitam juntos. Dia de arrumar ideias velhas e descobrir outras mais novas que nos façam esquecer as esperanças falsas. Aquelas temporalidades esperançadas onde muita da nossa juventude está depositada e que faz tempo.

E porque hoje é sábado…
apetece abrir as persianas, usar roupa informal e ir ao Mar apanhar conchas. Trazer de lá as ondas de energias ocultadas e fotografias dos desenhos que deixámos no areal. Naquela areia fina que a próxima onda apagará esse registo.

Mas porque hoje é sábado…não vou ter tempo.
Talvez no próximo descubra a hora exacta de me deixar arrebatar por utopias e demais leviandades. Das tais que é proibido assim dizer ou revelar. Talvez na ideia de que o dito se possa eternizar no imortal Vinicius.
Ou em tantos outros que fazem do sábado o seu próprio dia.

26.2.06



Carnaval

Reza a História que em 1861 desembarcou no Rio de Janeiro o Entrudo; uma festa tradicional portuguesa criada por gente pobrete mas alegrete.
Quase duzentos anos depois surge também por lá o primeiro Zé tuga: o nosso Zé Pereira, menos conhecido por José Nogueira de Azevedo Paredes que de figura foliona e anafada do bombo era parte inseparável.
Passados que foram todos estes anos até 2006, o maior Carnaval do Mundo tem a marca lusitana e ponto final. ( Quem duvidar da seriedade da análise que consulte os anais em Ipariguá que o Perfeito explica tudo)

Serve esta pequena nota introdutória para esclarecer que os Pierrot e Arlequins desta nova geração são outros. As máscaras da Commedia dell'Arte dos séculos XV e XVI, que fizeram sucesso na Corte de Carlos VI também. E mesmo que se retrocedesse no tempo da Era Romana ou Egípcia o resultado era o mesmo.

Portanto, compinchas e foliões dos Dias Magros e da expressão latina de "carne, vale !", vamos mascarar-nos! Tentar imitar Baco (Dionísio para os gregos) e homenagear Pã. Vestir de cores garridas o protesto e fazer do Bacanal um ritual. Só assim o Corso fará sentido.

Eu cá p’ra mim continuo a torcer pela Tijuca e pelo Benfica até que a verdade dialéctica venha ao de cima. Quem sabe não seremos o maior Carnaval do Mundo de emoções angustiadas já para a semana que vem quando chegar o recibo do ordenado deste mês de fantasias!?

Divirtam-se!

20.2.06

Tal como o homem da rádio, também eu acordo antes do trinar dum relógio já velhinho que me alerta para o começo de mais um dia de passos vazios.

E como sempre, da janela aberta do meu quarto, uma janela que me dá a ver as cores do mundo repintadas de traços que não entendo, debruço-me perante os cenários que se arrastam pelos trilhos sulcados das memórias tristes dos velhos sentados na beira dos caminhos.

É por esta abertura rasgada nas quatro paredes frias, de onde me olham as vítimas de Guernica, que me apercebo da raiva e ódio semeados. Da visão profética do Apocalipse. Das rosas de Hiroshima já sem pétalas. De olhares vagos e sem brilho.

Tocam ao fundo os acordes das palavras de Zaratustra. Melancólicas e cruéis. Soltam-se, em vertentes inclinadas, gritos. Vindos dum lugar distante que Kai-Tak e Kirogi, dois impiedosos ventos, assinalaram.

Do outro lado do mundo, homens de negro sem rosto e sem defesa aguardam julgamentos de juízes sem toga. Cem razões que nos escondem da verdade. Cem maneiras de torturar almas embriagadas por outra tanta gente sem gesto. Precisamente igual aos ventos que sopram do lado da Terra dos Arianos.

Terra onde as Geórgicas de Virgílio alertam que pode estar a chegar outro Holocausto. Desta vez vindo dos céus em asas brancas onde se escuta um belíssimo canto: o Canto do Cisne.
Um canto a que as Muralhas de Tróia não podem resistir.

11.2.06

Há dias assim...




Perante os cenários de todos os minutos e horas que passamos em contacto diário com o mundo que nos rodeia, há uma coisa com que ainda não sei lidar lá muito bem: a morte.
Aquele “morrer sem ser visto” que nos toca mais de perto. Aos mais chegados. Gente da família.
E hoje, em vinte e quatro horas passageiras como o vento que me bate na janela, tive dois casos. Mortais. Daqueles que mesmo que esteja preparado para quando tiver que acontecer, ainda assim há uma certa relutância em aceitar e que nos levam tudo o que somos.

E o mais preocupante é que se sabe que em todos os minutos nasce e morre gente comum. Diversa. Desconhecida até. Gente que apenas as sei pelas notícias, e com quem nunca convivi, mas demonstra que o obituário nunca mente.

Por isso, para além dos choradinhos triviais, julgo que nunca fui capaz de encarar o fim que temos pela certa como uma certeza absoluta. Soa-me a mentira. A coisa passageira. Sarcasticamente falando, daquelas coisas que acontecem apenas, e só, aos outros.
Mas não! Na verdade, hoje tocou-me a mim.

Perdi a última das irmãs da minha mãe. A tia preferida da minha visão de ver os outros. Uma minhota dos quatro costados com uma vida que dava um filme e que me deixou mais pobre nos afectos.
Passadas as horas acima referidas, mais uma “acostumância “que me ligava há vários anos nos abandonou: a Becky. Uma cadela meiga e doce que nunca ninguém teve e que deixou uma das nossas casas mais vazia.

Morreram as duas em silêncio. Sem avisar. Provavelmente, sabendo que nunca queriam dar trabalho aos outros. Aqueles outros em que estes próximos dias não vão ser fáceis de esquecer.
Mas a mim toca-me as partes piores quando estas coisas acontecem: saber gerir o golpe trágico que afecta a vida com estas realidades que temos pela certa. Porque também me fino ao dar conta delas. Sejam pessoas ou animais.

Há dias assim…

31.1.06

A Bilha

Tal como Bill Gates, também tive uma visão futurista: nunca, mas mesmo nunca, conseguiria aderir ao gás canalizado. Eu cá sabia porquê!


















(Imagem generosamente retirada do Praça da Repúlica. Em Beja. Onde nevou há bem pouco tempo.)

20.1.06



O dia da reflexão

Encontro-me perto de reflectir, anunciam, lúcidos, os guardiães dos templos das certezas que não vingam. Aqueles que moldam ideias e caminhos. A vida. Caminhos traçados até que a ligeireza dos dias que nos calharam se esfumem num assopro.

Finjo não ouvir o apelo. Fujo das vozes sonantes dos cantinhos da rádio. Das esquinas de onde a caixa que mudou o mundo nos persegue.
Penso e reflicto. Devagar. Ao som das aves migratórias que fizeram ninho e das teclas de um piano que me conta estórias imortais. Estórias que já fazem parte do passado onde foi criada vida. Onde se criaram também laços e afectos que nos amarram para a existência efémera em que dura apenas o anúncio.

É dia de reflexão, voltam a lembrar. Em mais um take para que o espectáculo, perante as luzes que ainda não abriram, possa continuar.

E eu a julgar que reflectia todos os dias…

14.1.06



Na vida de qualquer um de nós, os que existimos, as mudanças e as aprendizagens tornam-se importantes ao longo do tempo em que vamos subsistindo. Por norma ou pela caracterização que se faz do nosso próprio existencialismo.

Por princípio, não sou apologista de mudanças sem sentido. Mas algumas são necessárias e imprescindíveis. Tal como as que pretendo fazer agora: mudanças simples e que não prejudicam nem alteram a relação que tenho com toda esta rapaziada dos blogs.

Só que, ao longo de três anos de convívio com o sistema, e porque tenho um “brinquedo novo”, vou pausar uns tempos. Abdico de editar a pretensão de escrever o que posso ter na ideia e vou recomeçar a ler os outros. Fazer do próprio espaço deles os meus posts.

É mais giro. Mais gratificante.
Talvez o sol da meia-noite que me faltava.

Até lá!

7.1.06



O meu computador está a dar o berro

Parecendo uma frase banal, do tipo “o que é que tenho eu a ver com isso?,” não deixa de me levar à fantasia e, ao mesmo tempo à realidade, na vida de um blog. De um espaço a que já me habituei, ou até mesmo, desenhar a vida do varredor da minha própria rua.

Tal como qualquer ser vivo, um computador tem os dias contados.
O varredor também.

Depois de vários anos ao serviço, a máquina que já faz parte das nossas vidas perde características, personalidade, vigor. Habitua-se a certos hábitos, crenças, automatismos. Segue quase de olhos fechados as definições, as pré-definições ou o que lhe mandamos executar. Muitas das vezes sem ter o cuidado de pensar se a podemos estar a prejudicar.

E um dia dá o berro. Estoira. Faz kaput depois de um esforço demasiado. Tal e qual como qualquer varredor da minha rua ao fim de imensos anos de trabalho. Parece normal à primeira vista mas não devia ser assim.

O meu computador, e outros muitos computadores de almas que sempre dizem certas coisas, mais o varredor da minha rua, deviam ser eternos. É com eles que vejo o mundo e o entendo. É neles que me apercebo que o dia está chuvoso, frio, e me alertam para tomar cautelas. É neles também, em outros dias, que vejo o sol nascer airoso quando lhes vejo aquele sorriso: um sorriso que dá prazer de cá andar e me mostra quanto foi bom o ter nascido.

Mas desgraçadamente, o meu computador está a dar o berro.
O varredor da minha rua não. Nem todos aqueles de águas turvas e de silêncios não são cúmplices.
Ainda bem!, porque não há retorno.


Nota: um agradecimento especial à Márcia Maia, ao Buba e ao Orca, pela generosidade de fazerem ter chegado à minha humilde casa o muito da amizade que nos uniu ao longo deste tempo que vamos passando aqui.
Em palavras editadas na morada certa.

Agora vou dar uma volta por aí, antes que estoire de vez o companheiro que está a dar o berro.

1.1.06



Ano Novo, vida nova

Depois de uma voltinha pelos blogs australianos, ingleses, italianos ou jamaicanos, nota-se alguma perspectiva em relação ao ano que nos entrou pela porta adentro. Os portugueses não fogem à regra.
Existe uma esperança redobrada no primeiro de Janeiro pela melhoria da qualidade de vida de cada um, que se vai desfazendo à medida que os outros dias vão passando. É normal, e estamos fartinhos de ver o mesmo filme.
No entanto, há uma coisa que sempre me fez espécie: não podendo manobrar o futuro, posso muito bem controlar o presente e o que ele pode representar para dias que se desejam melhores.

O que é que isto quer dizer?
Quer dizer que tenho me esforçar mais, trabalhar mais, saber mais. A função de cada um de nós na sociedade, e o modo como nos inserimos nela, faz com que tudo possa melhorar. Mas tem que começar por mim. Por ti, pelo colega, pelo amigo ou vizinho, talvez hipotecando que sejam outros a decidir por nós.

Também eu me proponho no dia 1 a que tudo corra pelo melhor. Mas duvido. Não só pelo anos que já levo nestas andanças sociais, mas porque também sempre fui céptico em relação às pessoas que têm o nosso destino nas suas mãos.

Mas hoje não quero ser desmancha-prazeres. Vou confiar na credibilidade que os portugueses me merecem.
No entanto, já estou a gastar aquilo que ainda não ganhei. Aumentou o gás, a electricidade, e o meu vício. Amanhã, também vou pagar mais por um cartãozinho que me leva ao local onde trabalho. Pode ser que comece logo a resmungar, mas lá estarei a tentar criar riqueza num país que já de si é pobre.

Bom Ano, ó companheiros!

31.12.05



O último dia

Duma forma geral, os portugueses têm memória curta. Por isso gostamos dos balanços, dos resumos finais e dos rescaldos de cada ano a mais por que passamos. Este (2005) não é diferente.

Choramos as tragédias alheias. Sentimos saudade de tempos idos. Sofremos perante dramas diários que nos passam pela calçada da nossa rua e com novelas que tenham finais angustiantes. Gostamos que nos lembrem o que para trás ficou como se disso estivéssemos carentes.

Para além disso, temos a terrível inclinação para o fado que só nós contemplamos e sabemos exteriorizar. Habituados permanentemente a lidar com coisas tristes, não nos damos conta que passam coisas giras à nossa volta. Que ficam na memória de muito poucos. Que só compartilhamos entre as quatro paredes da nossa própria casa.

Tenho a pretensão de alterar isso. Não só de agora, mas porque os amigos virtuais que conhecemos - e que da família já fazem parte - também pensam assim.

Daí, deixar apenas um desejo a todos eles: Sejam felizes!



Logo, venho cá abrir uma

11.12.05

O Subsídio

Se existem coisas que fazem sorrir os portugueses nesta altura do ano, o subsídio é uma delas.
Mesmo não gostando do nome que lhe deram (soa-me a esmola, pedinchice ou até parece que estou a roubar alguma coisa) a mim sabe-me bem. Dá para comprar o bacalhau e as couves. As prendas p’rós miúdos. Alguma coisa que nunca tive.

Mas tem um senão. Porventura, alguns senãos.
Primeiro, porque é pouco. Segundo porque é só um. E eu que sou do contra, comecei a constatar que merecia mais.

Vejamos eu a pensar p’ra dentro: só pelo facto de trabalhar, aquele que me dão já está justificado. Mas ao longo de um ano de esforço pela camisola que visto, (onde o patrão tem comigo sempre lucro, passe a imodéstia,) merecia outro. Isto para não referir que o facto de aturar as más disposições dos colegas de trabalho, o stress traumático dos transportes que se dizem públicos, as más condições das dez/doze horas que se passam num dia cheio ou a má alimentação que um gajo é obrigado a fazer durante a sensação de que se podia fazer mais e melhor, acho que mais um era soberbo.
No entanto, há aqui qualquer coisa que me chateia: por muitos mais que me dessem, ou a eles tivesse direito, tenho sempre na ideia todos aqueles que não usufruem de apenas um que seja.

E isso, nunca sei a quem hei-de me queixar. Será ao Totta?