20.1.07



Cortaram-se os festejos!
Eu tive sorte porque demoraram um pouco mais do que é normal na maioria da rapaziada que anda por estas bandas. Nem todas largas, mas dá para desenrascar qualquer cumprimento que se queira dar aos que de mais de perto acompanhamos nesta brincadeira dos blogs.

Já cá venho! Ou melhor... já aí vou.

6.1.07



Presentes

Desde o século XIII, as encenações do Natal de “nuestros hermanos” tem sido um dos aspectos mais conhecidos das celebrações espanholas. País com forte tradição católica e talento para realizar festas religiosas tradicionais, desenvolveu muitas maneiras de comemorar aquela noite especial. Uma delas, ao contrário do que acontece em Portugal, é serem dados os presentes na manhã de 6 de Janeiro, “Dia de los Reyes”.
Para além disto, os festejos são particularmente dedicados às crianças. Em Madrid, por exemplo, iniciam-se junto à Puerta del Reloj com o desfile de carros alegóricos de figuras alusivas à quadra, com os Três Magos distribuindo doces e caramelos entre a multidão.

Neste dia, a família reúne-se à volta da mesa saboreando “roscón de reyes”, o bolo-rei deles, e mantêm a tradição de quem achar a fava será rei por um dia. Quem sabe se hoje não me tocará a mim? (que de espanhol não tenho nada)


Agradecimentos a:
Wathctower e Novo Milénio (fontes históricas)

Márcia Maia (E À Mais Bela Princesa de Além-Mar)

quase um poema de natal


eu queria um natal sem luzes
sem sinos sem coroas sem presentes
sem festas de confraternização
onde se repete quase escandindo
(e à exaustão) a palavra so-li-da-ri-e-da-de

eu queria um natal mais solstício
que natal — um natal pagão —
um natal simples sem palco
onde a gente ousasse ser apenas gente
como a gente que a gente é nos outros dias


Jorge Castro (Poema Inédito)

não te digo do natal coisa nenhuma
do natal enfeitado a sumaúma
que se arruma em cada ano nalgum canto

não te digo do natal em mar de espuma
esse efémero natal-coisa-nenhuma
quebradiço a ter-de-ser e sem encanto

não te digo do natal de coitadinhos
nem daquele de nós todos tão sozinhos
conformados sem ter sonhos nem espanto

não te digo do natal feito de prendas
num afecto leva-e-traz que me encomendas
e trocamos cada ano em qualquer canto

mas te digo um natal fio de seda
do casulo entretecido que te enreda
e te leva ao riso ao sonho em doce encanto

digo ainda do natal feito de enlaces
desfiando o casulo onde renasces
enlaçando cada ser por valer tanto

digo então um natal que desse fio
deslassado mundo fora como um rio
nos envolva a todos nós num acalanto

mais te digo do natal de um outro início
celebrando a nova esperança o solstício
recriado em nossa voz num novo canto.


Morfeu (Cartão Festivo)

Peciscas (Cartão de Natal)


... e também a Neuza, Cinda, Joaquim Nogueira, Civana, TMara, Jacky, Titas, Roger, Vanda, Nuno Soares, Delfim Freire, Publipt e todos os que na caixa de comentários deixaram um pouco da sua amizade.

24.12.06



A esta hora já ninguém passa por aqui.
Mas de qualquer forma, este ano fiz um propósito: não mandei nada p'ra ninguém. No entanto, hei-de dar a conhecer tudo aquilo que me enviaram. Só porque este ano achei mais graça comemorar a data na mesma altura dos espanhóis.

Até lá!

23.12.06



Hoje é dia 23

Apetecia-me plantar a maior árvore de natal do mundo. Gostaria de contar a mais bela história, pintar um quadro repleto de cores que ninguém tem, e desenhar todas as caras de corações que ninguém vê.
Apetecia-me sonhar com outro mundo. Ter notória a percepção de estar aqui. Sereno e solto, rodeado por um mar de azul onde os sonhos e os encantos ultrapassam qualquer fronteira.
Sabia-me bem reviver a criança que não fui. Soletrar poemas que não fiz. Cantar canções alheias, com vozes que nunca me saíram da cabeça. Hoje, apetecia-me virar o bico ao prego. Degustar melhores momentos e ter em mãos uma tarefa que ninguém saiba poder fazer. Mas não posso! Tudo à minha volta serpenteia em alvoroço. Quase tudo se transforma em atrapalho das coisas que prefiro não esquecer.

Só tu, Maria, consegues alterar o rumo ao meu sentido. Mudar a voz da minha rota, e libertar outros tempos que não voltam.

20.12.06



Durante alguns dias, grande parte dos blogs fica em stand by. Compreende-se. Compras de última hora, a azáfama nos preparativos para a festa da família e coisas assim. O meu não foge à regra e, para o caso, já tinha elaborado um discurso faustoso, feito de muitos blá-blás, para transmitir em palavras escritas de ocasião, o que quase toda a gente diz por esta altura.

Mas, em mais um ano que passámos juntos em leituras, trocas de mimos e coisas que tais nas partilhas virtuais de outros adornos amigáveis, optei pelo simples desejo que tenham uma quadra festiva do vosso agrado.
Não que seja penoso ou chato poder ter optado por esta outra forma. Todos merecem mais. Muitos merecem tudo.
Por isso, tomara poder estar no aconchego do vosso lar. No seio da família que os rodeia. Entre sólidos laços que nos unem, caso me aceitem como um dos vossos.

Simplesmente vos desejo um Bom Natal, e que 2007 vos traga tudo quanto desejam.
Porque de qualquer maneira, a gente vê-se por aí.

17.12.06



Crónicas festivas (3)

Por esta altura do ano, mesmo o mais macambúzio dos seres humanos, ninguém fica indiferente ao Natal.
Das formas mais diversificadas, todos os pensamentos vão desaguar na quadra natalícia. É nesta altura em que se disponibilizam cinco minutos a quem não vemos o resto dos dias. É nesta altura em que se faz gato-sapato das dietas e nos mascaramos de bons samaritanos. É nesta altura em que toda a gente apela à tranquilidade que nos falta durante os outros meses.

E o drama da questão reside precisamente aqui: todos sabemos disso e todos os anos se repete a dose.
Ainda nunca ninguém pensou prolongar definitivamente o Natal?

12.12.06


Crónicas festivas (2)

É costume por esta altura do mês alguns blogs realizarem variadas iniciativas animadas no sentido de um balanço geral do ano que está prestes a findar. Não tenho nada contra, nem nunca tive. Algumas até são engraçadas e divertem. Mas uma coisa é o balanço, o baloiço e o critério onde se agitam, e uma outra é serem levados a sério.
Tal como Sócrates garante aos portugueses boas notícias, eu não me esforço tanto nas estimativas dos promotores de tais iniciativas. Talvez por pequenina maldade. Talvez porque os meus genes são quase cem por cento alentejanos.
E o engraçado da coisa reside precisamente aí. Não no facto geográfico da região mencionada, mas na simples constatação de quem pretende avaliar os outros não se conhecerem de nenhures. Ou talvez sim...

Corre por aí “Os Melhores Blogs de 2006”. Até aqui tudo cool. Só que na primeira leitura que fiz aos resultados já apurados, soa-me a leviandade e subordinação. Lembro-me perfeitamente do meu primeiro post à quase quatro anos que tinha a ver como se iniciaram os bloggers. Recordo ainda com mais prazer aquele que referia as novas descobertas e a devida divulgação de pessoas que continuam a escrever para agrado de quem, na leitura, lhes é fiel. E nenhum deles, provavelmente por descuido ou limitação de metros quadrados nos indicadores de referência, está lá.

A mim, por exemplo, já me aconteceu ser considerado “O Melhor Avô dos Blogs” pela Jackie, “O Mais Assíduo” pela Emília, e ganhar um prémio, que agora já não me lembro, por ter sido o visitante número não sei de quantos zeros, pela Catarina. Tive sorte e ganhei estima. Mas agora essa dos “melhores” blogs deixa-me frustrado. Primeiro, porque nunca seria capaz de ser um deles. (e a quarta classe arrancada a ferros é sempre um entrave). Segundo, porque os blogs são tudo aquilo que o seu autor quer que ele seja, mesmo que a avaliação possa ter razão de ser.

Um blog pode ser uma dor de cabeça. Um alçapão. Pode ser um filme, um pedido de auxílio, uma serenata. Um bom blog pode tornar-se até num péssimo programa de entretenimento televisivo na RTP1, um sucesso de vendas ou numa ressaca. Mas tentar considerar “Melhor” qualquer blog, não. Eles são todos bons.

11.12.06


Crónicas festivas (1)

Está na hora de iniciar o que a singela criatura indica.
Tem alguma ideia do que vai receber neste Natal?

Quando se passa a barreira dos cinquenta, no meu caso, a vitalidade nas coisas importantes da vida que levámos esmorece um pouco em qualquer área onde nos quisemos impor. Seja em sexo ou álcool, droga ou poesia, política ou luta armada. Os que sobrevivem às consequências nefastas que quaisquer delas provocam quando em exagero, não o negam. É da lei que o próprio mundo impõe.

Daí o estar mais preocupado em dar do que receber; como foi sempre apanágio nesta humilde criatura que rascunha na mediania em contra-baixo neste blog. No entanto, este ano a coisa está preta. Por muito que tente conseguir ganhar mais uns trocos, entre ajudado por dois braços que me abraçam e se coordenam, nunca vai dar para satisfazer as necessidades de todos quantos de mim mais perto vivem.

Não me basta morrer mais um traidor fugido à causa do que é nobre. Não me chegam os gritos aflitos das petições pelas causas da fome, da miséria e da vergonha, que qualquer sociedade que se diga digna, possa conseguir calar. Não me convence a promessa que justiça seja feita a tanto crime por julgar e a tanta mortandade a que assistimos.
São vírgulas e reticências a mais. São máquinas emperradas por olear. São pontos de exclamação sem respostas adequadas e são as merdas do costume que sentado no sofá não consigo resolver.

Sei muito bem que é Natal. Posso não ser é o pai dele.

17.11.06



Uma coisa chamada blog

Hoje, ao ouvir os Sinais de Fernando Alves na TSF (às 17:52), dei comigo a pensar que o homem é bruxo ou eu sou um grandessíssimo plagiador. Eu explico.
Ontem, já noitinha, vindo para o aconchego deste lar que nos acolhe, optei por dar uma olhadela nos blogs antes de enroscar o meu cansaço, ao lado dum corpo ainda mais cansado da labuta. Para meu espanto e tristeza verifiquei que não tinha acesso à Internet. Logo na altura que tinha em mente uma crónica adúltera, estranhamente explicável ao ser comum, muito parecida com uma outra que escrevi faz anos cujo título era o que acima se descreve.

Num primeiro olhar pelos cabos e outros truques que eu cá sei, não consegui que a máquina arrancasse. Mesmo que me esforçasse a inventar estratégias que podiam fazer inveja à Microsoft.
Como àquela hora os técnicos do Apoio Técnico deviam já ter puxado para cima os cobertores, fui deitar-me debruçado sobre a ideia. Para que quando me devolvessem o meu mundo, pudesse então dar largas às fantasias reais que algumas vezes assolam o espírito de qualquer blogger que se preze.

Do rascunho que tinha delineado fiz um triplo no meu velhinho caixote que, enganadoramente, chamo do lixo.
As palavras amarrotadas que por lá ficaram até à recolha, nunca poderiam ser as mesmas que aquele enorme e ilustre comunicador de imprensa e rádio deu às suas mas a sensação daquela madrugada foi a mesma com que, finalmente, adormeci.

11.11.06



O Verão de S. Martinho está a ser aqui! Sábado. Na hora que der mais jeito.



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Para começar vai ser assim. Em Mangualde, terra de gente nobre e cativa, cantava-se:

“No dia de S. Martinho
Rabusca o teu soitinho
Faz o teu magustinho
Encerta o teu pipinho”


Daí, três coisas são primordiais para se ter uma noção mais completa do evento: conhecer S. Martinho, saborear castanhas e beber numa malga a água-pé. O resto é fado e festa e povo nas tradições seculares.
Para isso ser presente, eis um excelente trabalho de Manuela Ramos sobre o Santo.
Noutro apontamento, conheçamos melhor a castanha e as relações que mantêm com a cozinha tradicional portuguesa e a sua pequena história. Por fim, a água-pé. Esse derivado vinícola que faz as delícias ao magusto e acompanha as Festas pelas mais variadas zonas do país. Desde Marvão a Sernancelhe. De Estremoz ao arquipélago da Madeira ou até em Terra Chã, Angra do Heroísmo. Dos bairros típicos de Lisboa até Vinhais, onde está previsto um megamagusto para mais de sete mil pessoas no maior assador de castanhas do mundo. Quem sabe se na sua própria casa, onde o costume é tradição, não tem histórias de fogueiras e magustos p'ra contar. Talvez não como esta malta que adora o São Martinho, mas de outra forma que nos faça sentir origens. Quer contar a sua?

"Quentes e boas!..."


Boas e quentinhas, pedem vinho novo, barriguinha amparada ao balcão, copinho embevecendo o olhar - a postura típica do... "em flagrante delitro", como escreveu Fernando Pessoa sobre o próprio.
(artigo de Alfredo Mendes, jornalista do DN)


Fernando Pessoa na adega de Abel Pereira da Fonseca, em 1929.
Fotografia enviada pelo próprio a Ophelia Queiroz com a inscrição: «Fernando Pessoa em flagrante delitro».
Provavelmente acompanhado à guitarra e à viola na imprescindível voz de Hermínia Silva.


Gentileza d'A Minha Rádio ponto com


Tempo de Poesia


Os pequenotes da Escola de Ovar.


O Vendedor de Castanhas

Numa tarde chuvosa neste Porto
No Outono frio ventoso e cinzento
Um homem vende doses de calor
Em folhas de jornal velho embrulhadas

No pedaço de papel o conforto
Do bom petisco assado no momento
P’la perícia do vendedor
A preparar as castanhas assadas

Diz-me velho vendedor de castanhas
Que já fazes parte desta cidade
Nos dias frios que só tu entendes!


Quanto é mesmo aquilo que tu ganhas
Com o meu sorrir de felicidade
Ao comer com prazer o que tu vendes?


De João Natal, in Poetry Café


Efemérides de S. Martinho

Didas, a própria. Fez três anos que nos atura e vice-versa, e até parece que sempre nos conhecemos. Mesmo sem comermos castanhas juntos ou brindar com um copo de água-pé, registamos os Parabéns por tal ventura.


Do outro lado do mar também há castanhas

Cora Rónai é jornalista, editora e autora de livros e peças de teatro para crianças. Fotógrafa. Crítica. Blogger. Defensora acérrima do “seu” Rio de Janeiro, do meio-ambiente e dos animais. Senhoras e senhores, rabiscos do sítio dela:

"Vocês sabem como nascem as castanhas portuguesas? Em ouriços verdes, que crescem numas árvores lindas, frondosas e esparramadas. Quando esses ouriços ficam maduros, caem no chão e são colhidos. Às vezes já estão abertos, o que torna relativamente fácil soltar as castanhas; quando fechados, só com expedientes variados -- luvas de couro, instrumentos de jardinagem, pedras. Vale tudo para libertar as castanhas da sua competente armadura.

Imagino que numa plantação profissional existam ferramentas apropriadas e precisas ara a tarefa, mas no sítio temos apenas dois castanheiros, plantados há 40 anos pelos meus pais, e que, mais ou menos por esta época do ano, gentilmente produzem as castanhas de que precisamos.

Os castanheiros foram presente do Mr. Smith, o vizinho inglês, único habitante da região quando o sítio foi construído, em princípio dos anos 60. São árvores voluntariosas, que não crescem como ou onde a gente quer, mas como lhes dá na telha. Não adianta plantar as sementes. Nada acontece. Mas por baixo dos castanheiros crescidos aparecem, volta e meia, umas mudinhas que, eventualmente, podem ser transplantadas. Assim chegaram as plantinhas pequenas nas latas do Mr. Smith, e assim já saíram daqui tantas outras.

Mr. Smith morreu há anos, seu terreno foi vendido e um novo loteamento cresce ao lado do sítio; o morro em frente, antes deserto, hoje é um mar de luzes. Apesar disso o céu continua cheio de estrelas e os castanheiros seguem, ano após ano, seu destino de árvores bem amadas, enchendo o gramado de ouriços."

Festa rija
Falar de S. Martinho sem referir a Golegã é um pecado quase mortal.
As suas ruas nestes tempos estão cheias de cavaleiros e de amazonas. De charretes e outros carros de tracção animal. Mesmo os burricos que por lá se vão vendo ajudam a compor a emblemática feira que tem o mundo equestre como mote. No Largo do Arneiro, o coração da Vila, uma dúzia de cavaleiros percorrem o espaço nas calmas. Alguns cavaleiros envergam trajes de gala, com camisa branca, casaco apertado pela cintura, chapéus de aba larga, botas de cabedal. Outros circulam mais desportivos com calças de ganga e camisas de xadrez onde o chamamento da castanha assada faz sentido.
Acredita-se que ainda lá não fui?

(fonte Espigueiro e aproveitamento musical do meu amigo e saudoso Fernando Campos)



Crónicas de província


Subir a um Castanea não é fácil. Muito mais difícil é saltar dele. No entanto, lembro-me bem que em garoto era o maior desafio que os putos idos de Lisboa ao Minho tinham que enfrentar. Qual carro de bois, tosquia de ovelhas ou pisar as uvas em pé descalço nas vindimas!? Ir ao tojo e ouvir os lobos junto a um riacho de água límpida era soberbo, mas saltar dum castanheiro era o maior rappel daquela altura.
As frondosas galhas aparavam-nos a queda. Os aparatosos gritos das nossas mães em pulgas era o nosso prémio.
Ainda hoje, se não estivesse já c’os copos, atirava-me de um que ainda deve lá morar.
Coisas de putos. Que mantenho vivas até que a queda seja fatal.



Gostava de ter aqui a Aldina a cantar, o Zé Fanha a declamar, e todos os poetas e artistas desta vida que é só nossa em redor da mesa posta que entendemos como farta.
Foi o que consegui mostrar no S. Martinho, mas Portugal tem coisas ainda melhores.

Bom fim-de-semana!

31.10.06



Estou farto *

Estou farto que me digam que não presto. Farto de servir a vilanagem e dar comer aos burros que escoiceiam quando me vêem. Estou farto dos mandantes, dos algozes, de estudantes, e da merda desta vida que me deram. Estou farto!

Depois de dias a trabalhar arduamente num projecto sem importância, quedo no quebrado espelho à minha frente o meu olhar de espanto. O meu corpo, curvado de amargos anos, perdeu juventude e o juízo. Também o senso e os postiços dentes que me custaram uma fortuna. Os anéis foram-se igualmente nas enxurradas dos romances e dissabores mal amanhados a que nunca soube resistir. Os meus olhos claros de castanho marcam pupilas embriagadas de lugares castiços onde me perdi noites sem fim. E as rugas, estas rugas debaixo deste pescoço cansado e esguio, são a prova disso e estou farto.

Farto de alternativas partidárias, de capítulos abertos ao futuro, do sucesso indicador dos outros gajos, da lucrativa pose das bruxas, anti-cristos e outros futebóis.
Já não tolero nem consigo perceber o mundo onde nasci. Já não entendo o nuclear, o militar e as relações bilaterais. Já não tolero mais promoções, revoluções e novos rumos petrolíferos. Sabem-me a folhas secas onde cacarejam as galinhas, a ramos partidos onde mijam sete cães, a terrenos lamacentos onde cagam os porcos todos.

Abomino e desgraço o dia em que nasci sem fortuna exposta. Estou farto dos dias de poupança, dos dias de trabalho extra e da má aventurança que anda atrás de mim. Já não consigo olhar de frente a mulher que me pariu. Já não consigo amar a mãe que me deu filhos. Já não consigo sustentar tanta boca faminta em meu redor. Estou farto! Farto de abortos e arautos da desgraça. Farto que me indiquem o caminho. Que digam cheguei tarde. Que pisei o risco. Que cuspi no chão. Que estive a falar para o boneco.

Estou farto!


* nota do editor: catalogado como ficção e inspirado num anúncio do óleo Fula. De resto, estou muito bem e recomendo-me, hehe...

23.10.06



Cartas de amor, quem as não tem?

Ao contrário da paixão, um amor com muitos anos ganha raízes. Cresce desmesurado e forte. E declaradamente, o dia vinte e três tem lugar cativo neste blog para o conseguir reinventar.

Dizem as influências que tudo tem um significado que, mesmo a figurá-lo nas minhas regras de todos os meses, tem uma condicionante que atrapalha: a maneira de o fazer.
Por isso, hoje, meu amor , não te escrevo em versos de rimas mal escolhidas.
Relembro apenas que nestes passar de anos muitos, continuas a amante e a amiga, a esposa e o suporte entrelaçado deste amor pintado em cores de azul e lima.

Passámos por risos e choros. Trocámos abraços e beijos, mantivemos o hábito de lermos juntos as pieguices do recordar de mais um dia vinte e três, e o nosso cantinho encheu-se de gente boa. Os nossos olhos encontraram-se várias vezes para dar respostas às agruras da própria vida num desejar de cúmplices carinhos. Rabiscámos papelinhos, na surpresa de encontrar colada uma simples palavra de amor, ou de um afago expresso num postal que ilustra as nossas vidas.

E no fundo, talvez nunca tenha sabido dizer-te nas parcelas do meu tempo as coisas lindas que mereces. Reconhecer que me deste uma vida com sentido. Que te devo também a minha parte em troca da tua que nunca me negaste.
Mas conheces-me bem e sabes o meu modo de te estar agradecido.

18.10.06

Por falar de amigos…


Uma recente pesquisa no Google deu-me a conhecer outra variante de como podem funcionar os blogs: em Solidariedade.
Não que desconhecesse essa vertente. O blog com o mesmo nome pode falar por ele, como tantos outros que se prestam a igual virtude. No entanto, a pesquisa levou-me até aqui.
Isto fez logo com que recordasse um dos primeiros casos que aconteceram aos bloggers portugueses. Temo que a Dânae (do Verso Explicito) se tenha também finado em 2004/05 devido a uma doença prolongada. Tal como Fernando Campos (ainda tão recente), do qual sinto saudade da leitura dos seus textos e da nossa cavaqueira sobre os netos e os filhos e da luta contínua no melhorar da nossa própria vida, no Messenger.

Parecendo que a vida continua – claro que terá de continuar – estas coisas mexem comigo (provavelmente é mais um trauma), e levam-me a pensar diferente sobre a vida e a morte. Sobre os que se movem e perpetuam até um dia neste sistema de contacto virtual.
Este raciocínio levou-me a dois casos ímpares: O Memórias do Cárcere e o Sidadania.

Dois casos diferenciados, mas com ligações subsequentes entre si; um está preso por delito, o outro preso está, na tentativa de minimizar os estragos da doença de que padece. Mas têm os dois o mesmo objectivo: divulgar a sua própria situação e alertar os outros para que se previnam das causas do estado em que se encontram. Sem tabus, sem medos. Por vezes até, sem retóricas académicas.

Ao contrário do que tenho afirmado, esta “brincadeira” dos blogs é um caso sério.
E não preciso esperar pelo Natal para reconhecer que é necessário dar-lhes um abraço. Extensivo a todos quantos desta imensidão humana fazem parte.

Hoje especialmente dedicado à minha Mãe,
minhota dos costados todos (Paredes de Coura) que perfaz a módica vivência de 81 anos, a quem faço alongar tal gesto,dedicando-lhe este poema de José Carlos Ary dos Santos:


QUEM DISSE QUE MORREU A MADRUGADA?
QUEM DISSE QUE ESTA NOITE FOI PERDIDA?
QUEM PÔS NA MINHA ALMA MAGOADA
AS PALAVRAS MAIS TRISTES QUE HÁ NA VIDA?

QUEM ME DISSE SAUDADE EM VEZ DE AMOR?
QUEM ME DISSE TRISTEZA EM VEZ DE ESPERANÇA?
QUEM ME LANÇOU A PEDRA DO TERROR
MATANDO O CANTADOR E A CRIANÇA?

QUEM FEZ DA MINHA ESPERA DESESPERO?
QUEM FEZ DA MINHA SEDE TEMPERANÇA?
QUEM ME DANDO TUDO QUANTO EU QUERO
DA MINHA TEMPESTADE FEZ BONANÇA?

QUEM AMAINOU OS VENTOS DO MEU CORPO
E SACIOU O MAR DA MINHA FOME?
QUEM FOI QUE ME VENCEU DEPOIS DE MORTA
E SOLETROU AS LETRAS DO MEU NOME?

QUEM FOI QUE ME FEZ SERVA SEM SERVIR?
QUEM FOI QUE ME FEZ ESCRAVA SEM QUERER?
QUEM FOI QUE DISSE QUE EU PODIA IR
TÃO LONGE QUANTO NÓS PODEMOS SER?

APENAS QUEM ME VIU CALADA E TRISTE
E DESPERTOU EM MIM UM MUNDO NOVO!
APENAS A ESPERANÇA QUE RESISTE,
APENAS O MEU SANGUE, APENAS O MEU POVO!

17.10.06



"Conhecer alguém aqui e ali, que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado."
Goethe

Poderia ser com estas palavras do filósofo, escritor e cientista alemão, que justificaria a minha entrada nesta brincadeira dos blogs. Para além de ter referido algures que, sendo extrovertido, cultivo amizades reais com relativo jeito, no que toca aos amigos virtuais sinto mais dificuldade. A anomalia é minha, eu sei. Talvez seja por ter entrado já tarde para a blogosfera e estar um pouco mais maduro do que a maioria das pessoas que encontrei. Mesmo assim, não aprendo e não tenho juízo nenhum.


Ainda agora me inscrevi em mais um dos serviços gratuitos disponibilizados na rede (a Facebox) que me garante a companhia de três milhões de almas. Juntando o Orkut e o Gazzag, e mais quatro ou cinco em que estou registado, estarei rodeado de mais de cem milhões de indígenas. Isto sem falar dos quatrocentos e tal blogs que tenho em carteira.


Claro que não mantenho contacto com todos. Também era melhor. Já me vejo aflito para responder aos que tenho ali ao lado quanto mais. Mas a questão que me coloco é simples: terei necessidade de ter tantos amigos à minha volta?


Talvez, porque a minha infância não foi famosa nesse sentido, e sinta a necessidade secreta de manter os que arranjei por aqui. (Traumas, é o que é)
Por isso, neste "arrumar da casa" que me levou os últimos três dias sem quase levantar o cu da cadeira, tive uma sensação esquisita ao verificar que tinha perdido alguns.

Não posso descurar os que me restam.

12.10.06



Os Grandes Portugueses

Nesta altura do campeonato, este programa da RTP, que vai para o ar na sua primeira sessão no domingo, não deixa de me espantar pela negativa. A sério.

Quando se vive uma indefinição social e laboral com as medidas que este Governo tem implementado ao país, não deixa de ser curiosa a forma como alguém se pode recordar do tema. Até parece tortura chinesa.
Se por um lado me parece uma tremenda cabala contra o executivo do engenheiro, por outro, também pode dar a ideia de uma maquilhagem e assessoria como aquela que o ex-PGR tardiamente se deu conta que lhe faltava.

Podem vir a lume nomes como Aristides de Sousa Mendes, Camões, Infante D. Henrique, Egas Moniz, Duarte Pacheco ou Marquês de Pombal. Admito. Tal como admito Amália ou Eusébio, ou Carlos Lopes e Rosa Mota, António José de Almeida ou a Padeira de Aljubarrota. Todos eles com o seu grau de contribuição para engrandecer o nome de Portugal.

No entanto, as minhas segundas escolhas recairiam em Zé do Telhado e Alves dos Reis. O primeiro porque, ao contrário do que faz este sistema tributário, roubava aos ricos para dar aos pobres. O segundo, porque é o melhor exemplo da actual banca nacional. Onde as notas falsificadas de quinhentos daquela altura, foram substituídas por grandes máquinas de feudalizar bens, serviços, capitais e trabalhadores endividados.

Por fim, o grande vencedor deste certame, que promete entretenimento e grande espectáculo, seria este Povo que aguenta tudo isto. Sem dúvida, são eles Os Grandes Portugueses.

6.10.06



A minha retoma

Acredita-se que os blogs criam dependência. Discreta, é certo, mas dependência. O cidadão comum – homens, mulheres e crianças, que vamos achando diariamente se quisermos - ao descobrir esta ferramenta, exorcizou alguns fantasmas de comunicação. Problemas que vivemos todos os dias pelos motivos mais complexos que se podem supor.
Eu não fujo à regra.

Excluindo os personagens que fazem disto uma forma de trabalho, outros porém, compenetram-se na divulgação e no partilhar das coisas mais incríveis. Anónimos puros que rebentaram fechaduras das escrivaninhas onde tinham guardado papelinhos segredados de imenso valor artístico e pessoal. Tanto assim, que até os próprios meios de comunicação social já têm um espaço reservado aos seus próprios blogs no aproveitar do andamento deste fenómeno.

Mas esta brincadeira também cansa, satura, mesmo sem ser deprimente. Muito mais quando não se sabe do que falar ou expor.
Nas centenas, para não dizer milhares de blogs que já visitei durante estes quatro anos para onde sigo, muitos deles ficaram pelo caminho no primeiro mês de exposição pública. Outros, nem tempo tanto duraram.
Deixando de fora os clássicos, os mediáticos, os ícones da classe jornalística, o que sobra?
Sobram mais milhares a que é impossível aceder por falta de tempo.

E é neste pormenor, que já tentei decidir acabar por aqui por mais que muitas vezes, depois de ter perdido um pouco da Cinda, do Pedro, do Fernando B., do Verso Explícito, do Green Shadows, do Ivo Jeremias, da Ângela a quem já perdi o rasto, e muitos outros que da passagem breve deixaram marcas. Outras tantas, terei pensado que melhor seria telefonar-lhes. Perguntar pela saúde, pelos miúdos, pelo cão ou periquito, e tentar saber como andam as coisas, como se de família se tratasse.

Auto-impondo um compromisso que tomei com outros mais reais (os blogs da família), vou continuar a ter enorme honra e prazer ao fazer parte do núcleo dos amigos virtuais. Não saberei nunca ao certo por quanto tempo, mas é um bem que me está enraizado.

Por isso, aí vou eu!
Abram-se-me as portas e janelas das palavras que procuro.

26.9.06



Presumivelmente, esta brincadeira já ganhou teias de aranha.
Mas não demoro muito. É só arrumar a tralha, umas coisitas publicadas e…


Depois, será bom saber de novidades e rever os bloggers amigos com um bronzeado de fazer inveja, hehe...

8.8.06



Foto Golfinhu2

posted by Thita - "ordens simpaticamente sugeridas pelo chefe", algures em trabalho.
(tá calão para os blogs, é o que é, hihi...)
Responsável pela ordem e manutenção neste período ficará o meu tio-avô.