O FIM
Na vida ganha-se e perde-se. Correm-se riscos. Vivem-se momentos mágicos. Trágicos e nostálgicos.
O que me vai acontecer, contêm uma sensação esquisita. Um sentido de perda enorme e um frio na espinha que abalam todas as estruturas do meu ser. Como um descalabro ou um terramoto que deitou por terra muitos anos bons.
Até um dia, Amor.
Vou ter saudades do teu sorriso e dos teus pés pequeninos.
Vou ter saudades da tua mão amiga com que me afagavas.
Vou ter saudades de te acenar da janela quando partias.
Vou ter saudades da tua companhia.
Tantas, que ao dedicar-te este sentimento, me sinto nada só de as pensar.
"Interessam-me os actos humanos. Nunca para rir-me deles, mas sim para os compreender." B.Spinoza
8.8.07
6.7.07
O negócio da China
Hoje em dia é fácil percorrer trezentos e cinquenta mil quilómetros em dois segundos e três décimos.
E eu ao fazê-lo lá consegui descobrir o grupo económico chinês que está a tentar comprar o Benfica. São estes, os gajos:

Da esquerda para a direita: Joe Berardo, Jaime Antunes, Alberto João Jardim e Stanley-Ho. Muito provavelmenta caracterizados por Fátima Lopes ou Siza Vieira, já não me lembro.
Desde Marco Polo e a Rota da Seda, Mao Tse-Tung e a Muralha, ou Wenceslau de Moraes e Tokushima, que já não me lembrava dos chineses. A sério. Tenho lidado mais com outras chinesices, tipo loja dos trezentos. Mas este interesse repentino pelo meu Benfica faz com que medite seriamente durante este fim-de-semana sobre as minhas próprias capacidades mentais e faça um auto-diagnóstico à reacção neurótica.
Desde o choque tecnológico de Sócrates aos chocos com tinta comidos em Setúbal na semana passada que também já não me lembrava que os neutrões das tomadas que por vezes sou obrigado a mudar cá em casa me fizesse sentir aquele abanão tão sumariamente natural quando não se percebe nada de electricidade e de mercados financeiros sem pontos e vírgulas chegasse a este ponto.
No entanto, nestes últimos dias os choques têm sido demasiados para a minha idade e já não sei se aguento. O melhor mesmo, é ir pedir um pouco de açúcar mascavado e uma folhinha de hortelã à minha vizinha da frente enquanto espero que isto me passe.
Não sem antes de desejar um bom fim-de-semana a quem por aqui passar.
Hoje em dia é fácil percorrer trezentos e cinquenta mil quilómetros em dois segundos e três décimos.
E eu ao fazê-lo lá consegui descobrir o grupo económico chinês que está a tentar comprar o Benfica. São estes, os gajos:

Da esquerda para a direita: Joe Berardo, Jaime Antunes, Alberto João Jardim e Stanley-Ho. Muito provavelmenta caracterizados por Fátima Lopes ou Siza Vieira, já não me lembro.
Desde Marco Polo e a Rota da Seda, Mao Tse-Tung e a Muralha, ou Wenceslau de Moraes e Tokushima, que já não me lembrava dos chineses. A sério. Tenho lidado mais com outras chinesices, tipo loja dos trezentos. Mas este interesse repentino pelo meu Benfica faz com que medite seriamente durante este fim-de-semana sobre as minhas próprias capacidades mentais e faça um auto-diagnóstico à reacção neurótica.
Desde o choque tecnológico de Sócrates aos chocos com tinta comidos em Setúbal na semana passada que também já não me lembrava que os neutrões das tomadas que por vezes sou obrigado a mudar cá em casa me fizesse sentir aquele abanão tão sumariamente natural quando não se percebe nada de electricidade e de mercados financeiros sem pontos e vírgulas chegasse a este ponto.
No entanto, nestes últimos dias os choques têm sido demasiados para a minha idade e já não sei se aguento. O melhor mesmo, é ir pedir um pouco de açúcar mascavado e uma folhinha de hortelã à minha vizinha da frente enquanto espero que isto me passe.
Não sem antes de desejar um bom fim-de-semana a quem por aqui passar.
4.7.07
Os novos equipamentos do Benfica... estavam já previstos.
E há sempre uma forma diferente de ver a coisa.
Explicando um pouco mais da situação que para alguns pode parecer de gozo, estamos em crer que a escolha foi a mais acertada. Senão vejamos; o local onde está o centro de estágio do Benfica é no Seixal (que por acaso é onde moro), certo? E neste caso verifica-se que a ideia é ir mais longe na retribuição do apoio que esta população tem dado desde que aqui chegaram. E porquê? Porque na baía do Seixal, um dos nossos ex-libris são precisamente os flamingos. E os flamingos são cor-de-rosa, não são? Ok, siga.
Por outro lado, nestas coisas de mercandish ou lá o que é, convém o reconhecimento às mulheres mais bonitas do país. E as mais lindas, sem dúvida, são do Benfica. E todas elas gostam desta cor. Mais. Também pensaram nas crianças, e decididamente na minha neta Thita que é uma fã incondicional do cor-de-rosa só ultrapassável pelo amor que ela tem ao Glorioso. Além disso, tente-se imaginar a Pink Panther, a Barbie e o Ken, o Noddy e o Ruca, todos juntos, a cantar no Estádio o hino do Benfica vestidos cor-de-rosa.
Eh pá, não me venham cá com merdas…
E há sempre uma forma diferente de ver a coisa.
Explicando um pouco mais da situação que para alguns pode parecer de gozo, estamos em crer que a escolha foi a mais acertada. Senão vejamos; o local onde está o centro de estágio do Benfica é no Seixal (que por acaso é onde moro), certo? E neste caso verifica-se que a ideia é ir mais longe na retribuição do apoio que esta população tem dado desde que aqui chegaram. E porquê? Porque na baía do Seixal, um dos nossos ex-libris são precisamente os flamingos. E os flamingos são cor-de-rosa, não são? Ok, siga.
Por outro lado, nestas coisas de mercandish ou lá o que é, convém o reconhecimento às mulheres mais bonitas do país. E as mais lindas, sem dúvida, são do Benfica. E todas elas gostam desta cor. Mais. Também pensaram nas crianças, e decididamente na minha neta Thita que é uma fã incondicional do cor-de-rosa só ultrapassável pelo amor que ela tem ao Glorioso. Além disso, tente-se imaginar a Pink Panther, a Barbie e o Ken, o Noddy e o Ruca, todos juntos, a cantar no Estádio o hino do Benfica vestidos cor-de-rosa.
Eh pá, não me venham cá com merdas…
23.6.07

Qualquer dia vinte e três de todos os meses são extraordinários numa celebração cá muito minha. Mas este, o de Junho, é mais ainda.
É o dia em que me dobro em emoções e onde o cúmplice olhar com que o vejo tem um significado especial. É o dia em que me engasgo e gaguejo. Um dia em que as palavras e os gestos se afugentam num coração a bater mais forte. Um dia a menos para a contagem final dos que já me restam, mas que vivo com enorme intensidade.
É a pieguice do costume. A dificuldade de encontrar a forma de exprimir o sentimento. O medo que um simples "Amo-te" não seja suficiente para demonstrar o carinho, a gratidão, com que se deve tratar com quem se vive.
Pikena!
21.6.07

Previsão do Tempo
Entrámos no Verão.
E este, a analisar pelo que corre no mundo e no país, vai ser um verão quente. Daqueles estaladiços como os “frades” que eu compro pela manhã, vindos da padaria em Casal do Marco.
A crer na meteorologia política, social e desportiva, isto vai ferver. E não há protectores solares que aliviem a agressão das temperaturas elevadas que se vão fazer sentir.
Como sou mais pobrezinho do que a maioria dos bloggers e avesso a grandes deslocações ao exterior, sinto uma camada de ar quente oriunda da região Ota-Alcochete. Prevejo, também, céu pouco nublado ou limpo a norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela devido à precipitação dourada onde podem surgir neblinas ou nevoeiros matinais se a coisa der para o torto.
No centro do país o aquecimento continuará com valores elevados já que o nosso Primeiro fez questão de lavar a sua honra no mar encrespado do Portugal Profundo. Os ventos podem soprar moderados se o falso engenheiro não fizer subir nas terras altas a temperatura máxima que deve rondar os três graus académicos.
Mais a sul os ventos podem soprar a muitos quilómetros por OPA e não existem colecções que façam baixar as ondas que podem atingir alturas ideais para a terceira idade. Aguaceiros fracos podem surgir na capital devido a ares quentes vindos da região centro, onde Telmo Correia explicará os trinta e três mil e duzentos caracteres que Carrilho ainda tem na gaveta.
Nas regiões autónomas, vento em geral fraco com ligeira subida de temperatura caso se verifique que o Alberto João possa ser ressarcido dos valores orçamentais da Madeira. A temperatura da água do mar manter-se-á, apresentando-se boas abertas em todo o território se o gajo ainda continuar a mandar em tudo aquilo.
12.6.07
4.6.07

Uma pa mim, Ota pa ti
Desconheço o plano, o contexto, o impacte ambiental que uma obra desta natureza pode conter e/ou alterar. No entanto, qualquer coisa me diz que a não queria ver enraizada e construída aqui. No deserto. Mesmo-mesmo de braço dado com a nova designação que a cidade onde vivo adoptou: Al-Seixal.
Por isso, não ando a dormir bem e respiro ainda pior. A visão também não anda lá grande coisa desde que deram o nome sui generis de “Caixa Futebol Campus” (!) ao Centro de Estágio do Benfica e a sacana da Sul-Fertagus nunca me deixar chegar a horas ao trabalho nos domingos e feriados. Não sei… parece-me que a criatividade, a competência e o bom gosto, sofreram alterações que me é difícil aceitar. E ver todo este país nas mãos de engenheiros e arquitectos, também não ajuda muito.
Ainda se me dissessem que a excentricidade cria talentos e desenvolve a sociedade, devolvendo poder crítico e soluções alternativas, tudo bem. Agora a malta assistir, impávida e serena, às preocupações do Cavaco sobre a matéria e não aproveitar os direitos que (ainda) temos para fazer vincar as preocupações e dificuldades que a maioria de nós estamos a passar, isso tolero menos ainda. Mas o elo mais fraco deve ser a minha visão – fraca – de ver as coisas.
Não deve tardar muito os blogs a favor da Ota e do Poceirão hão-de esclarecer as dúvidas. Ou então, os interesses privados e os fazedores de opinião não tarda nada colocam tudo em pratos limpos.
Cá para mim, mandava-os todos p’rá Madeira. De lá é capaz de se ver melhor...
30.5.07

Esta brincadeira dos blogs tem coisas giras.
Estarei a lembrar-me de no século passado, os mais antigos nestas andanças (os meus amigos brasileiros), faziam da blogosfera dessa altura a moda do célebre FlashBlog; um momento único em que um blogger estava vinte e quatro horas à frente do teclado a editar o seu blog com tudo o que lhe viesse à cabeça. Desde música, arte, literatura, culinária, poesia e outras coisas que não lembravam ao diabo, para animar um dia como outro qualquer a rapaziada que por lá passasse. O/a desgraçado/a tinha que ali estar de noite e dia a animar os visitantes e que, ainda por cima, era obrigado/a a responder aos comentários que se faziam chegar. Chegaram a ser às centenas.
No final, provavelmente exausto/a e bem tocado/a, o/a pobre diabo passava o testemunho do próximo ao visitante mais participativo e, a coisa por assim dizer, passava de blog em blog até a malta se aborrecer e partir para novas iniciativas. Claro que copiei a ideia. E como na altura os blogs portugueses estavam mais virados para a guerra do Iraque, a brincadeira nem de perto nem de longe teve o sucesso com que a minha amiga Civana fazia o dela. No entanto, com os vinte ou trinta, já não me lembro, que por lá se fizeram representar, divertimo-nos à brava.
Isto vem a propósito de quê?
Vem a propósito que o meu amigo António Peciscas se lembrou de me atribuir, e a mais outros quatro bloggers, o prémio “Blog com Tomates”. É mais uma cadeia que rola em cadência nas pessoas que se tornaram amigos pela escrita. Agora para dar continuação à coisa, já é mais difícil. Primeiro, porque escolher alguém que nos toque mais de perto e que “lute pelos direitos fundamentais do ser humano”, como refere a origem desta menção, é complicado. Segundo; designar cinco que conheçamos já é mais fácil, mas peca pelo número escasso que nos é permitido nomear porque são imensos. No entanto, as minhas nomeações para receber este Prémio são:
- Tupiniquim
- Memórias do Cárcere
- Sidadania
- SolidariedadeBlog
- Netescrita
Mas haveria mais. Muitos mais, que fazem ver que vale a pena lutar pelos direitos e conquistas contra as desigualdades, injustiças, precaridades e desenquadramentos que presenciamos a toda a hora. Quer na saúde, no ensino, na justiça.
23.5.07

A Candidata
Esta candidata, parecendo a mais fácil de todas, é a mais difícil a quem posso contrapor o que quer que seja de irrazoável.
Para além de ser a suposta eleita que fará com que o meu círculo de vida termine com dignidade, é a “pikena” que mais pachorra teve nos meus excessos e conceitos. Os meus filhos sabem disso, e nada melhor que um dia vinte e três para dar a conhecer certos parâmetros. Desenganem-se todos aqueles que possuem de mim um retrato colorido.
Sou intolerante, ditador, tipo de gajo que acredita que o pensar dele é o mais certo. Considero-me atrevido e sem funções qualificadas, esperto ou parvo consoante os dias em que se vai sobrevivendo. Penso ser ateu, de esquerda (ou o que isso queira dizer), e ainda creio no Benfica e na boa-vontade de toda a malta em quem acredito diariamente. Mesmo, mesmo, desde pequenino. No entanto, todos os defeitos de quem ama alguém ou alguma coisa acompanham-me desde que nasci.
Sempre gostei de pobres, de animais abandonados, de causas perdidas. E hoje em dia, mesmo sabendo que as pessoas conotam e avalizam pelo que ouvem ou lêem nos blogs, não temo dizer à boca cheia que gosto de crianças. Pode provar-se pela família numerosa que consta no meu registo paternal, pelas lutas laborais e políticas que travei, pelos cães que sempre tive e gatos que agora tenho. Pela vontade com que me dispus ajudar, logo que possa, os que estão mais à rasquinha.
Pode trair-me uma paragem cardíaca, o vinho alentejano, a visão que tenho das coisas falsas. Podem trair-me as horas extras de trabalho ou as sensações que concluo serem normais em dias a que não posso responder. Mas o que nada me pode trair, é a certeza que tenho nesta minha candidata que me promete, e cumpre, um final feliz.
17.5.07

O Candidato
Para o melhor e para o pior, qualquer português é um eterno candidato.
Retratando-me pelos que já conheço, sei de fonte segura que desde o início do crescimento dos primeiros pêlos da futura barba que muitos depois passam a odiar, somos logo candidatos ao melhor partido da terra; ou seja, a miúda mais bonita que alguém alguma vez já viu. E temos largas experiência no assunto; fomos candidatos ao maior pão com chouriço do mundo, aos maiores fundos comunitários e, a crer no desafio de Blatter, somos candidatos a um dos próximos Campeonatos do Mundo de Futebol. O que me fez logo relembrar noutra vertente, o Benfica; o candidato a maior galáctico à face da terra.
Pelo sim pelo não, e entretanto, o termo candidato é “aquele que aspira a emprego ou dignidade; o que solicita votos para ser eleito para um cargo”, diz o dicionário. Mesmo que o cargo não dignifique toda e qualquer candidatura, mesmo assim, gosto da expressão. Soa-me a cândidas promessas, infelizmente candidatas a caírem em saco roto, como qualquer candidato que se preze gosta de salientar nos seus desaires.
Para quem conhece bem o país e os portugueses, não pode desmentir que numa simples matança do porco a candidatura de haver festa começa logo antes de trazerem o animal da loja, onde provavelmente nasceu, e no qual era o candidato número um para o destino que lhe estava reservado: presunto, salpicão, chouriça. Febras, coiratos e rabinhos com feijão encarnado.
Tal como um tipo qualquer, a acontecer num simples bailarico de aldeia, se se meter com a nossa namorada candidata-se a levar um murro nos cornos e a sair dali em maca. São assim mesmo os candidatos, e não há volta a dar. Porque falar dos ditos nos tempos que correm, qualquer estudante em disciplinas abrangentes e contemporâneas, candidata-se à nota máxima. Tudo pela urgência da teoria. Tudo pela mensagem que um candidato a qualquer coisa quer fazer passar.
E neste caso, não sei se fiz passar a minha. Quer a mensagem, quer a candidatura. De qualquer das formas, e até ver, permito-me pensar que me candidato a que ninguém passe cartão aos disparates de um candidato a candidato. Depois de ler o que um que nunca o foi tivesse dito:
"O pior analfabeto é o analfabeto politico. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, (...) do sapato e do remédio, depende das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e enche o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista. O charlatão, o corrupto, o lacaio, os exploradores da malta que vota neles."
Bertolt Bretch
24.4.07

Por vezes me interrogo se comemorar Abril ainda fará sentido.
A distância que me separa de 1974 é cada vez mais longa. A imagem menos nítida. O som das botas na calçada menos sonoro e estou a envelhecer ao lado duma esperança que nunca dali saiu.
Falta-me o vigor dos vinte anos com que assisti à queda do regime. Perdi já o fulgor da juventude entusiasmada naquele sobe-e-desce constante pelas ruas de Lisboa. Deixei de ver realizadas as promessas que a nova ordem das coisas apregoava.
Em dados momentos, é-me desagradável constatar que perdi o rasto dos poetas e dos pregões. É-me penoso pensar que, passados trinta e três anos, o meu povo continua cómodo e casmurro. De cinzento vestido. Desgarrado e triste. Obeso de formas consentidas.
Em mim entristece-se-me a figura. Falta-me o brilho dum olhar novo. Rareiam as causas em que acredito.
Provavelmente, estarei azedo. Desiludido e parvo.
Mergulhado talvez na dúvida se Abril ainda terá razão de ser.
18.4.07

18 d'Abril
Fazer anos é como rever capas de discos já usados. Páginas a preto e branco onde se apontam datas e rabiscos que escondemos. Coisas raras que guardamos.
E em todos eles, sentimos a proximidade com quem já estivemos.
Existem retratos que provam quem amamos e beijámos todos aqueles que nos seguem. De quem ouvimos o primeiro choro, a primeira palavra que disseram e o primeiro andar.
Mas fazer anos, é ir mais longe. É dar pulos sem olhar para trás. É dar um passo a mais na direcção de um abismo que nos espera. Logo ali. Num traço de caminho da linha recta que nos foi dado a percorrer.
Fazer anos, também é um imenso mar de gentes e lugares que nos marcaram. É o tic-tac do relógio que nos vinca o andamento. É o minuto seguinte à nossa espera e a vontade de ultrapassar mais uma barreira. Sem cabelos alvos e de medos assustadiços. Soletrando os dias já passados como decorados já estivessem.
Fazer anos faz a prova que acontecemos. De ter aproveitado o que a própria vida deu e ensinou. De conseguir dizer nas palavras do poeta: “Eu vivi!”.
Por isso, um ano mais me aconteceu.
E fico grato por tanta gente boa ter em meu redor. Como agora. Onde ao contá-los, verifico que ultrapassam os anos que já fiz.
Parabéns Thita. Parabéns mano. Parabéns Lourenço.
10.4.07
30.3.07

O fim do mês
(leitura não aconselhada a pessoas demasiadamente sensíveis)
Pelo discurso governamental que oiço diariamente, até parece que vivo num país em crescimento constante. Não me parece. De há uns tempos a esta parte, além do Dia 23, é o fim do mês que me traz maior encanto. A sério.
Um gajo vê-se em palpos de aranha para pagar os compromissos com a compra da casa, do carro, dos cigarros desalmadamente fumados em nervoso miudinho, e à rasca para poder comprar um bom vinho tinto alentejano. Um gajo vê-se grego para que lhe aumentem o ordenado, para que lhe dêem mais trabalho, para que lhe proporcionem novas oportunidades de ir buscar mais algum. Mas a coisa está preta e é no final do mês que os neurónios têm quarenta e oito horas de descanso.
Dando ao coiro quase todos os dias 14 a 16 horas sem paragens, vejo-me de aflitos para fazer face a esta merda da vida que levo. Por vezes me interrogo se estar na situação do Zé “Prisas” Amaral não seria melhor. Pelo menos, como ele diz, e com toda a razão, tem-se cama, mesa e roupa lavada. E nunca se estará preocupado com despesas, acrescentaria eu. Para além de existir a probabilidade de ficar bem na vida se o golpe tiver sucesso.
Já sabia que Portugal é um país de fantasistas. De desenrascados. De malta que faz das tripas coração.
Mas foda-se! Já chega. Sou fantasista, desenrascado e faço trinta por uma linha para ter um fim de vida descansado.
O que não sei fazer… é milagres. Seja com um, ou com dois éles.
Por isso, já estou naquela de pedir às senhoras da limpeza do local onde trabalho papel higiénico para trazer p'ra casa.
Não por comer ou cagar em demasia. É apenas um princípio de poupança nas voltas ao estômago que esta política me dá.
23.3.07

Carta de Amor
Mais um dia vinte e três como tantos outros que ao longo destes anos de blogs comemoro e te dedico. Só que desta vez resisto ao trocadilho do Impulse (passe a publicidade) com que costumo brincar, e vou tentar escrever-te sobre coisas sérias em vez de te oferecer perfumes ou flores por este meio.
Se bem me lembro, como dizia Nemésio, o número em si sempre fez parte da minha vida. Tu sabes, mas dou alguns exemplos simples e avulsos:
1 - Quando era miúdo, meu pai jogava a sorte do rumo da vida dele com esse número nas rifas e nos cartões dos candongueiros, e volta e meia lá lhe saía alguma coisa e havia festa. Rancho melhorado, um brinquedo novo, cantares alentejanos até às tantas. E foi com estas pequeninas coisas que me fui apercebendo que a vida não é fácil.
2 - A soma dos dois coincide com o número da sorte na minha carta astrológica, mesmo sabendo que tais cartas valem o que valem e que não nos regemos por aí.
3 - A troca dos mesmos permite-me pensar que foi nesse aniversário do meu nascimento que compreendi os sonhos de uma vida melhor que todas as pessoas podem ambicionar.
4 - Por fim, foi a um dia vinte e três que deste mais sentido e significado à razão da cumplicidade humana. Tive a sorte de te encontrar e és a estabilidade emocional que sempre quis.
As coisas sérias, inicialmente referidas, são que nem todos os casais se perfilam pelo mesmo diapasão. E isso é que me dói.
Neste cantinho da nossa sala de onde te escrevo, muitas vezes assisto e reflicto sobre exemplos que fazem parte da nossa sociedade, dos nossos amigos comuns, de gente que até nos próprios espaços bloguísticos que acompanhamos mais de perto, os sabemos: casamentos curtos desfeitos em menos de três pancadas.
E lamentamos as vidas desfeitas. A dificuldade de nem todas se prestarem a começar do zero.
Ao contrário do título que dei ao que te escrevo, isto não é uma Carta de Amor! Mas podia ser.
Porque mereces todos os dias vinte e três que eu possa inventar.
19.3.07
Dia 19 (clique para ouvir Chico Buarque)
Lembrar-me do meu pai não é difícil. Cada vez que o faço recuo no tempo e chegam-me à memória retratos de família: aquele afago, um carinho, um chupa-chupa como prémio por me ter portado bem.
Homem simples de raiz alentejana, marcou-me sempre. Quase anónimo, pobre de finanças e analfabeto, batia solas em busca do sustento e fazia versos que não escrevia. Cantarolava modas da sua terra de Odemira e vivia um dia de cada vez.
Sabendo da importância que uma mãe tem na vida duma criança, do pai fica quase tudo. Copiamos a figura. Imita-se-lhe os gestos e segue-se-lhes as pisadas. Mesmo depois da incontornável separação que a própria vida nos impõe em dada altura, o pai é sempre a primeira moldura que se vê quando se abre a porta da nossa nova casa.
Por isso, hoje recordo o meu.
Arrependido apenas por não ter conseguido viver mais tempo ao seu redor e, como sempre nas limitações dos mortais, não poder voltar um pouco atrás.
Mas nada podia fazer. A morte levou-o cedo.
Cedo demais, presumo eu.
Lembrar-me do meu pai não é difícil. Cada vez que o faço recuo no tempo e chegam-me à memória retratos de família: aquele afago, um carinho, um chupa-chupa como prémio por me ter portado bem.Homem simples de raiz alentejana, marcou-me sempre. Quase anónimo, pobre de finanças e analfabeto, batia solas em busca do sustento e fazia versos que não escrevia. Cantarolava modas da sua terra de Odemira e vivia um dia de cada vez.
Sabendo da importância que uma mãe tem na vida duma criança, do pai fica quase tudo. Copiamos a figura. Imita-se-lhe os gestos e segue-se-lhes as pisadas. Mesmo depois da incontornável separação que a própria vida nos impõe em dada altura, o pai é sempre a primeira moldura que se vê quando se abre a porta da nossa nova casa.
Por isso, hoje recordo o meu.
Arrependido apenas por não ter conseguido viver mais tempo ao seu redor e, como sempre nas limitações dos mortais, não poder voltar um pouco atrás.
Mas nada podia fazer. A morte levou-o cedo.
Cedo demais, presumo eu.
14.3.07

“Hoje não me apetece escrever” podia ser um resumo simples que serviria apenas para optimizar a actualização do novo blogspot que só veio complicar. Mas não é. E não sendo um tipo de falar muito, há sempre qualquer coisa que me atrai nas palavras. O sentido, o significado, o som e a cor que elas transmitem deixam-me para aqui a ler e a escrever sozinho.
Por ordem das coisas, passados que foram já uns anitos, os blogs vieram substituir as minhas bic laranja e bic cristal. As minhas folhas A4 e a minha velhinha máquina de escrever. Nessa aturada fase de afirmação pessoal eu era um ditador. Era tudo meu, como acabei de confessar, e até os disparates que escrevia ficavam escondidos para mais ninguém os ler.
Actualmente tudo mudou. Desnudei-me de certas peças. Despi-me. E mesmo que não se veja nada de extraordinário e os disparates continuem, sinto que a inaptidão ao mundo escolar de outrora, em certas áreas, podia ter sido melhorada caso tivesse a sorte de ter Professores como a Emília Miranda.
Isto quer dizer o quê?
Quer dizer que havendo vida para além de Marte, existe também uma realidade que o jet set dos bloggers, como lhes chama o nosso conhecido Jumento (link ali ao lado), menosprezam ou votam ao ostracismo: os blogs editados por crianças e para crianças. O Netescrita, entre outros que fui descobrindo, é um deles e um exemplo.
Com a particularidade daqueles putos andarem nestas coisas há três anos.
Parabéns Emília!
Parabéns Netescritores!
10.3.07

Depois de ter passado o meu tempo primaveril a tentar focá-las (para não utilizar outro palavrão sexualmente mais desonesto), reconheço que a Mulher é, foi, e será sempre, uma pessoa fundamental nas nossas vidas. Os bloggers mais jovens que se pronunciam sobre estas coisas podem vir a descobrir isso mais tarde mas, posso deixar já registado que, quando chegarem a essa conclusão, provavelmente, já terão meninas pequeninas a quem querem dar o melhor para o futuro delas.
Aí, vão ter que contar com outras já maiores. As tais que escolheram para companheiras duma vida.
Pensando bem, uma pessoa nasce e cresce com a atenção e os cuidados duma Mulher, certo? Seja mãe, tia, avó, a vizinha da frente ou a que estiver mais à mão. Qualquer de nós, homens, teremos sempre uma relação forte com uma Mulher para contar, historiar ou definir. Quer seja no bom ou mau sentido.
Uma Mulher pode marcar-nos a ferro e fogo. Por acréscimo ou defeito, uma Mulher pode acrescentar-nos mais-valias ou problemas que nunca mais na vida saberemos solucionar. A Mulher em si, acredite-se ou não, é a pessoa com mais poderes e encantos para destinar a vida de qualquer um. E tenho as minhas já escolhidas.
Por isso, eu não tenho dia certo para as poder comemorar. Gosto de todas elas e pronto. A qualquer hora. A qualquer dia.
Basta-me que sejam as Mulheres da minha vida.
23.2.07
Como se calcula, a maior parte dos bloggers não fazem vida disso. Escrevem e contam estórias apenas por prazer e passatempo. Transmitem pedaços da sua própria vida e trocam impressões, sorrisos, abraços virtuais que nos fazem descobrir a fórmula de sermos melhores pessoas. Criam amizades e outros laços afectivos como se desde pequeninos se conhecessem. Marcam encontros, almoços, e jantam em simples cavaqueira e reinação. Celebram datas que os marcaram a todos e trocam opiniões.Este dia vinte e três não foge à regra, e hoje considero-o especial.
Para além de vincar sempre que posso a relação com a minha companheira nesta data, faz hoje vinte anos que morreu o Zeca Afonso. Isto lembra-me logo uma data de comunistas e poetas de quem fui, ou sou, compincha. Isto leva-me logo às calças à boca-de-sino e ao cabelo comprido a chegar ao meio das costas. Isto leva-me no comboio descendente e ao trazer mais um amigo. Às reivindicações, manifestações, e muitos encontrões e chibatadas de uns senhores de escuro vestidos.
O Zé estará para os putos da minha rua e geração como o Benfica esteve para os insatisfeitos da minha cidade. Coisas distintas é certo, mas que por qualquer razão que nem só os psicólogos sabem explicar, eram motivos mais do que suficientes para nos fazer pôr a pensar, a mexer e a gritar.
Zeca Afonso é, foi, e será sempre, um marco na minha formação como pessoa. Igualmente como os meus filhos e netos, ou as alegrias e tristezas que preenchem as vinte e quatro horas de todos os dias que continuarão até ao final dos outros que ainda me podem sobrar. Tal como os bloggers, essa rapaziada que escreve e contam estórias reais. E que me ensinam a ser melhor pessoa.
13.2.07

RTP 50 ANOS
São estas pequenas coisas que trazem à realidade quantos anos já passei.
Impossibilitado na escolha de ser filho do Estado Novo, sinto-me um dos netos do 25 de Abril. Só que já cá moram quase cinquenta e três e nem sequer ando a dar por isso.
O facto da RTP comemorar meio século levou-me a lugares longínquos no tempo. Nasci ao lado dela e retenho gratas recordações daquela infância.
Para quem não sabe, a minha escola na Rua de Santa Marta “dava” o dia 7 de Março. Dia maioritariamente dedicado aos miúdos. Muitos desenhos animados e muitos filmes. Estarei avulsamente a recordar o gato Silvestre e um outro com uns olhos muita grandes, o Bugsy Bunny, o Coyote, eu sei lá…, só sabia que aquele dia era o dia de fazer “campismo”; almoçava, lanchava e jantava no tapete que estava em frente da televisão.
Sendo de origem humilde, no entanto, tive a sorte de viver os meus primeiros anos na casa da minha tia Esperança. Uma minhota finíssima de trato e de perspicácia incomum que nos deixou faz pouco tempo. Mulher independente, acima da classe média em termos financeiros, que me permitiu desfrutar de oportunidades fantásticas que a maioria dos miúdos da minha rua ainda não tinham. A caixinha que mudou o mundo foi uma delas e comecei a formar-me com o Ivanhoe, com o Robin dos Bosques e com o Oliver Twist, entre outros. Pequenos momentos mágicos (link) da minha vida que ajudaram a lapidar o que hoje sou: uma completa miscelânea maluca daquela década.
Por isso, antes que passes o “Vamos dormir”, obrigado RTP!
Por tudo.
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