29.7.06



Tomar partido

Tomar partido, para além de ser o nome do blog do Jorge Ferreira que nunca vi mais gordo, é uma das posições que os portugueses apreciam em se afirmar. Quer nas discussões dos vizinhos ou da família, quer da imagem que fazemos dos da ribalta, ou quer que seja num simples acidente na Ponte sobre o Tejo.

Ao contrário dos povos nórdicos, ou de mais alguém que se suicida quando está farto de tudo e de todos, nós gostamos de nos demarcar pelas coisas que eles consideram básicas mas que, para nós, são da maior importância para o próprio bem-estar da consciência. Um blogger, em tomar partido, não foge à regra. E os da fama constatados nestas andanças, ou eu próprio que de famoso nada tenho - a não ser na minha rua - também não.

A gente tem o professor Marcelo, o Alberto João, o Miguel Sousa Tavares, o Nuno Rogeiro, o Sérgio Figueiredo, o padre Borga e o diabo a sete mais o João Kleber, o Pacheco Pereira e os seus fantasmas, para nos relembrar que o título do post em todas as matérias tem razão de ser.

Como tal, estou a favor do Hezbollah e contra o dabliubush. Tenho muitas reticências na organização e contratações benfiquistas para esta época (mais um ano a sofrer) mas acredito piamente (mesmo não seja pio) que o Centro de con(es)tágio no Seixal seja um sucesso para a nossa zona ribeirinha. E/ou, para além disso, compreender muito bem a Maria João Pires.

Para finalizar, tomo o partido dos Soldadinhos da Areia, dos Poetas na Quinta da Ribeirinha e em todos os cantinhos, muitos tantos que carecem de carinho, dos casais felizes e de todos quantos possam fazer a esta vida melhorá-la. De resto, a gente vê-se por aí.

Bom fim-de-semana!

23.7.06



"Pikena"
ainda te lembras do tempo em que não havia blogs?
Agora tenho duplamente a forma de chamar por ti.

19.7.06

Coisas de blogs

Aqui há tempos recebi um e-mail a alertar-me que era o 84.º blog mais antigo em Portugal.
Resumindo-me ao especial cuidado desse estudo, lembro-me perfeitamente de que fui dos primeiros portugueses com blog a colocar música do meu gosto e fantasias com figurinhas a mexer (os gif), mas tudo isso foi devido à enorme ajuda da minha amiga Civana (uma ex-blogger brasileira, simpatiquíssima e prestável para o que desse e viesse), e outros experts que ia descobrindo pela rede.

Em princípio, tudo levava a crer que era irritante para os visitantes “levarem” com essa dose. No entanto, hoje em dia, quase todos os bloggers dão a conhecer as suas preferências musicais nos seus espaços que têm há tanto, ou mais tempo do que eu nestas andanças, que até o João “Fumaças” Fernandes já os tolera.

Depois, (passe a imodéstia)também me iniciei nos primeiros a colocarem videoclips. Aqui já foi por mera casualidade e descoberta; havia sites próprios que disponibilizavam essa facilidade, e aproveitava a onda logo que descobria os códigos que as tags deviam ter. Agora, os que se disponibilizavam nesse tipo de função, acabaram de fornecer esse tipo de facilidade, porque provavelmente os custos desses domínios devem ser pagos e a gente deveria estar a gastar energia duma casa que não é nossa. É justo.

Após o boom destes adereços que fizeram as delícias de alguns de nós, vieram os almoços e jantares em encontros blogosféricos sobre qualquer motivo. Braga, Évora, Porto ou Lisboa, foram algumas das cidades que presenciaram esses eventos. Com relativo êxito e no aprofundar de quem somos e o que é que estamos aqui a fazer.

Também, e não por acaso, o mercado editorial estava aberto à nova forma de comunicação que era notícia em quase todos os jornais que tratavam do assunto. Dai, resultaram as edições de blogs em livro e a descoberta de novos talentos. Estou a lembrar-me repentinamente d’O Meu Pipi, do Luís Ene, da Inês Pulido (uma pintora juvenil com enormes predicados artísticos reconhecidos pela gente do Norte e não só), da Rititi e tantos outros.

Tudo isto só para referir que vai sair mais um trabalho de vários ilustres desconhecidos pela editora Apenas Livros e dinamizado pelo meu virtual amigo Jorge Castro, onde a 29 de Julho vai fazer reunir na Quinta da Ribeirinha vários Poetas destes bocadinhos de vida que se empresta.

Agora tenho que ir. Ainda me falta dar uma palavra às pessoas que são do meu aconchego bloguístico e achei por bem ir assar sardinhas para a minha "Pikena" – que está de férias – e não tarda nada está a vir da praia com o seu bronzeado novo e o seu velho, e apelativo, encanto.

A gente vê-se por aí!

13.7.06



Depois de durante estes dias ter posto a escrita em dia e a leitura, cheguei à conclusão de que, em vez de andarem faunos pelos bosques, andaram figuras públicas a fazer o papel de Miguel de Vasconcelos (1590-1640) (colaborador próximo da duquesa de Mântua e do regime filipino), só por acharem que estar do contra traria de volta à realidade os problemas nacionais aos portugueses.

Todos sabem que a maior parte deste povo aprecia imenso caracóis. Ainda mais se forem acompanhados com cerveja fresquinha. E muitas. Perninhas de rãs nem tanto assim, e nunca ouvi falar de que comessem sapos. Engoli-los?, talvez.
Mas os arautos da desgraça, vulgo velhos do Restelo – sem desprimor para o CFB – tinham que “pegar” em qualquer coisa para que se tentasse inverter o rumo das coisas que toda esta brincadeira tomou desde 2004: ele foi o Quaresma, ele foi o sol abrasante que se fazia sentir em Évora, ele foi a Sagres, o Madaíl, as bandeiras nas janelas, eu sei lá…
Haviam de ter visto a comunidade emigrante de vários países, que tanto defendem em tempo de eleições, no companheirismo, na solidariedade num contar estórias de injustiças que também por lá se vive.

Só pelo facto de terem no currículo mais alguns diplomas que o resto do pessoal, há uma coisa que estes fazedores de disparates têm que engolir: os considerados estúpidos, os escravos, os eternamente sacrificados, ganharam um mês de completa euforia e felicidade. Não, apenas e só, pelo que o futebol conseguiu alcançar; isso é efémero, e será sempre, um erro dialéctico. Mas por tratar-se apenas duma coisa tão simples que nos levou um pouco mais longe no sentir de toda esta gente que trabalha por uma vida melhor; de como alguém nos conseguir juntar para uma roda de amigos sem nos explorar e enganar. Aqueles tipos todos conseguiram que desta vez os olhos rasos d’água e corações apertados fossem de alegria e satisfação.

Coisas tão simples que muitos dos que cuspiram para o ar não conseguiram fazer quando tiveram a responsabilidade de nos proporcionar algumas delas quando estiveram no governo do país.


adenda: reparem só como já começamos a torcer por José Azevedo, (a lutar sozinho) mesmo que o ciclismo tenha decaído com a morte de Joaquim Agostinho.
Mas onde estiver um português, estão sempre dois ou três. Milhões!

9.7.06



Regresso a casa

Não tão tarde como previra. De bolsos vazios mas com um coração maior.
Os portugueses, onde se encontrarem, são de facto poetas. Pessoas de bem que apenas o futebol faz aproximar e onde o encanto deste universo fantástico é sublime.
Temos um povo que merecia melhor sorte.

Malas desfeitas, alma emproada na recepção apoteótica que presenciámos, jamais se esquece os momentos únicos por que passei. Não fosse a realidade do país, quase me apetecia gritar “Viva Portugal!”.

24.5.06

Já uma vez aqui o disse que não sei lidar com aquilo que temos de mais certo na vida!
Hoje acrescento que nesta coisa dos blogs ainda é pior. Talvez pela afinidade que nos une pela escrita, que nos aproxima das palavras e ideias abertas ou, apenas e só, pela descoberta que fazemos nas amizades que criamos.

Não é raro saber-se no dia-a-dia da nossa própria vida, de gente que nos deixa sem aviso prévio. Adoece de repente e, mais depressa ainda, nos deixa. Nos blogs não é assim. Espera-se sempre daqueles que acompanhamos mais de perto que sejam eternos.

Daí, uma raiva maior. O grito. Uma injustiça que não se pode alterar.

O fraterno e Amigo Fernando deixa-me já saudade, mas continuará eterno.

Tal como de todos quantos conhecemos assim o espero.

23.5.06

A teoria da conspiração

Duma forma ou de outra, conspirador é uma palavra com a qual tenho alguma empatia.

Ainda não solicitei explicações a Daniel Sampaio mas julgo não ser necessário fazer um trabalhoso exercício de auto-análise para o que presumo ter percebido: é que em miúdo gostava de ver filmes de espadachins e de cow-boys. Tramas que me espicaçavam a imaginação e que acabavam, quase sempre, em rocambolescos desenlaces inventados por mim.

Passados que foram todos esses anos de reprises nos cinemas da minha zona, os conspiradores continuaram a fazer das suas. Agora em cenários completamente diferentes mas com objectivos iguais: tramar, maquinar contra os poderes. Assim de repente, e como escrevo em directo, lembrei-me dos de 1640 e de 1973/74. A maquinação que levou ao derrube da ocupação filipina e a libertação da canga que o regime salazarista tinha imposto ao país. Também posso acrescentar os Três Mosqueteiros, Sir Humphrey Appleby ou os seguidores de Hare Krishna, que não perco nada com isso.

Mas sob o signo da verdade, Manuel Maria Carrilho, homem dotado de excelente cultura e experiência política, excedeu as minhas expectativas sobre o tema em que se debruça. Vendo a coisa desapaixonadamente, também não me incutem confiança todos aqueles tipos de colarinhos engomados que são alvo das alegadas acusações do marido da encantadora Bárbara Guimarães.

Por outro lado, o homem pode estar numa fase de vitimação pessoal o que poderia facilmente explicar as reacções ao livro que agora publicou, mesmo me dando conta de outras conspirações nos processos Casa Pia e Apito Dourado.

Como em Portugal a culpa morre solteira ou enviúva, só tenho uma grave incerteza: e se ele tem razão?

20.5.06



Por muito que se pretenda esconder, o futebol quer se queira ou não, é uma linguagem universal. Mais abrangente que o próprio Esperanto ou as perspectivas da retoma económica (inter)nacional.
Basta verificar que, em termos terapêuticos, funciona melhor do que uma aspirina quando as coisas nos correm bem. Sobrepõe-se, sobretudo, aos altos índices do desemprego, ao deixa-andar de todo um povo que permite auto-manipular-se facilmente e às incompatibilidades dos deputados da Madeira.

Se se reparar no esforço que os blogers fazem para se manterem “actualizados”, não há um que não disponibilize um pouco do seu tempo ao futebol. Inconscientemente, ou talvez não, a coisa não fica por aí: no fundo, bem lá no fundo onde batem as bolinhas dos portugueses, renasce uma fé que se perdeu, exibe-se um orgulho que já teve dias melhores e acredita-se que somos tão bons ao pontapé como qualquer outro país com melhores recursos.

Foi assim em 2004, será assim em 2006. Garanto eu.
A prová-lo estão vinte mil mulheres lindíssimas deste país à beira-mar que tenho aqui ao pé de mim.
Para mostrar ao mundo a bandeira mais bonita que se pode ter.

15.5.06

Ser ou não sê-lo

Jamais alguém me poderá apontar o não ser patriota!
Daqueles antigos patriotas a quem os velhos problemas do Estado e do País nunca derruba.

Não tendo já em mim as energias renováveis que disparates e outros excessos fizeram ruir bastante cedo, nunca deixarei de me identificar com a maternidade Alfredo da Costa, a farinha 33 e o velhinho e já defunto Estádio da Luz. Ciclos que combinam e se completam com a pasta medicinal Couto, o cheirinho castiço da sardinha assada e as tascas de Alfama.
Todo um retrato com Tejo e fado e tudo.

Quero lá saber das incorrectas certezas do Deutsch Bank, das nacionalizações do Morales ou do enriquecimento do urânio iraniano. Antes do mais sou português de todas as costelas que me restam. Defendo o território, a família, a língua e as iscas com elas.
A praia do Meco, a Toirada e a Selecção, também são agentes comuns à minha reacção de contra-ataque.

Agora o que mais me perturba são os efeitos colaterais no pobre do Figueiredo. Um portuguesíssimo de Carregal do Sal que rentabilizou na Afinsa um dos nossos maiores patrimónios culturais e centenários: o selo.

Estarei contigo, Albertino! Ao pé de ti, o Alberto João não é nenhum jardim. É saloio.

8.5.06

Hei-los que partem

Nesta altura do campeonato, falar de futebol é tão ou mais importante como debater os mega projectos governamentais, a crise económica que o país atravessa ou as (des)conjunturas sociais.
Porquê? Porque está em causa o equilíbrio emocional de cidadãos anónimos e sem blog, cidades e regiões que dependem de receitas extraordinárias, sentimentos patrióticos que a razão dificilmente saberá explicar.

E nesta trágica contabilidade dos pontos ganhos e perdidos, o esgar da cidadania regional condói-se. Contrai-se e contraria-se como Fernando Ferreira na defesa da sua ideia. São como colheitas arrasadas por um traiçoeiro vendaval. Um aluimento que foge debaixo do chão que pisam. Um tremor de terra que abala a sua própria vida.

Vi homens e mulheres a chorar por causa disso. Presenciei crianças com cara de espanto sem saber o que aconteceu ao vê-los naquele estado. Vi olhares sombrios e gastos, faces de rugas vincadas pelo desânimo por não terem chegado ao fim.

É terrível a angústia pessoal que o futebol arrasta atrás de si.
Uma bola que bate na trave, um penalty "roubado" à descarada, um golo nos últimos descontos, uma Rádio que difunde em dois minutos as alterações da última classificação.
Aconteceu já com abnegadas gentes alentejanas, transmontanas e algarvias. Acontece hoje com os incansáveis minhotos e com uma parte significativa dos bairros velhos de Lisboa. Mas a matemática futebolística é mesmo assim: o fado dum povo atormentado sem o carisma que Raquel Lito descobriu.

Por isso, é pena minha vê-los partir.

6.5.06




A duplicidade dos portugueses sempre foi um trunfo nas relações que mantemos ao longo da vida com toda a gente, em quase tudo e em todo o lado. Suportados por dois pés, moldados por duas mãos, orientados por duas cabeças.
Já a cumplicidade tem os seus custos duplicados na factura que pagamos se não tivermos dois empregos.

É ponto assente que, duma forma geral, vive-se e morre-se em doses duplas. Em vida somos uns filhos da p…, que depois de a alma nos ter deixado passamos a ser as pessoas mais bacanas deste mundo.
Enquanto vai durando a experimental passagem por este lugar dos vivos, nunca abdicamos de nos rodear de duplicidades; temos dualidade de critérios, de conceitos ou de escolhas, e sempre que caímos à primeira sabemos que à segunda só cai quem quer.

Em Portugal vive-se com dupla personalidade até à exaustão: dobramo-nos em esforços para ultrapassar dificuldades, duplicamos as energias quando somos espicaçados, exigimos em troca o dobro de tudo quanto se dá.
Em sociedade, o diapasão é semelhante: pede-se uísque duplo em sessões especiais, repete-se a dose do cozido à portuguesa quando não somos nós a pagar, e quem não gosta de duplicar as suas próprias emoções sexuais…

À nossa volta, tudo gira com funcionalidades duplas: temos a alternativa governamental habilitada a dois partidos, temos - pelo menos - dois clubes que elegemos ser do coração, temos sempre duas opiniões e cultivamos o amor e o ódio como duplas sensações de estar na vida.
Para mal dos nossos duplos pecados só não temos duas dela, dois ordenados e dois meses de férias.

30.4.06



Tristezas não pagam dívidas

Muitos menos se forem aquelas que não são nossas.
Convenhamos que Portugal é um país duvidoso e endividado. Por si só, já os portugueses duvidam da dívida dos endividados que duvidam e/ou vice-versa.
À primeira vista pode parecer complicado compreender o raciocínio mas não se duvide que o que nos invade a alma de tristeza, ao fim e ao cabo, são as dívidas que nos colocam dúvidas. Isto é, dividimos a dívida pela dúvida e o quociente dá-nos um resultado do qual se dúvida daqueles que não têm dívidas.
Consequentemente, advém da prova dos nove que a dívida que mantém a nossa tristeza vem daqueles que raramente se enganam e nunca tem dúvidas mas que nos deixam endividados.

27.4.06



Uma no cravo...

Em qualquer altura de pronunciados discursos é de bom-tom usar gravata. Às riscas. Recuperando a moda italiana dos anos trinta. Laços também dão jeito em lugares bem frequentados. Agora cravos?

Os cravos só podem ser temperamentais, com cor de fogo. Furacões como Daniela Mercury e apaixonados como Ronaldo. Robustos, ferozes e justos, sem papas na língua. Puros.

Por isso, estou absolutamente de acordo que o homem do leme seja coerente com arranjos florais. O que é mais difícil entender é a descoberta que só agora faz ao incluir a exclusão e a justiça social como recadinhos de menino bem comportado. Quando esteve incluído durante dez anos a tentar desenvolver o país devia saber que os cravos também simbolizavam isso mesmo.

Que se lembre disso no(s) Dia(s) do Trabalhador antes que caia da cadeira.

23.4.06

Recordar Abril

À passagem dos trinta e dois anos de Abril, lembrar a criança do cartaz faz-me doer.
Sentir que aquela pequenina mão depositava esperança num cano duma espingarda, também.

Hoje, em Londres, a criança do cartaz terá quarenta. Anos passados e percorridos num fugaz sonho de menino apesar dos seus cabelos já sem brilho. De caracóis desfeitos e promessas vãs. De sorriso triste e desnudados pés.

Abril envelheceu, tal como todos nós. Mas não morreu!

(está só adormecido, diz a minha Pikena, porque ainda estamos a 23)

19.4.06

A vida é fértil em pregar-nos partidas. E na sequência dela, por vezes, podemos entender como sinais o que nos vai acontecendo nas horas e nos dias que passam devagar.
Se já tinha o legado garantido pela linhagem que cá deixo – os meus sete filhos – também estaria completo pelos quatro netos que já tinha. Mas ontem nasceu mais um: o Lourenço.
Foi uma bonita prenda de aniversário, filha.
Já me posso dar ao luxo de morrer em paz!

18.4.06



Provavelmente cheguei a uma altura da vida em que preferia que o espaço de doze meses tivesse para aí uns quinhentos. Para outros, naturalmente, desejam que passem a correr. Mas quando se apercebem que já é irreversível voltar atrás, dão-me razão.
Por isso, nada melhor do que ter o equilíbrio que a própria vida se encarregará de nos mostrar.

Vai daí, hoje fazemos nós, nós e nós.
Amanhã faz ela e ela.

14.4.06

A paixão de Cristo


Sempre fui apegado a Cristo. Um homem afável, simpático, voluntarioso e um excelente lateral-esquerdo que usava a camisola número cinco no clube da sua terra natal.

Apaixonado por tudo o que o rodeava, de cultura não se poderá dizer o mesmo. Zé Cristo é avesso a que lhe façam o ninho atrás de qualquer parte do corpo, mas para ele não há diferença alguma entre estar À Espera de Godot e O Livro de Pantagruel de Bertha Rosa Limpo.

Mas sempre foi esperto. Saudavelmente esperto.
A forma sui generis dele ver o mundo fazia prever que não tinha sido formado em quartos escuros, nem levado quaisquer nalgadas. Modesto até na forma com entendia as desigualdades sociais e os respectivos desacertos da sua folha de féria, não pecava mais do que os outros que lêem jornais, vêem televisão ou navegam na Internet.

Mas este Cristo carrega também a sua própria cruz: reformou-se. Passa agora os seus dias de volta da beleza dos lírios e dos gerânios no Jardim Botânico para tentar esquecer os trinta e três contos que lhe deram por troca de uma vida com cinquenta anos de trabalho.
À noitinha, quando na solidão do pequeno quarto alugado na Rua do Salitre ouve as notícias emitidas por um rádio já fanhoso, nada o perturba ou enfurece ao saber que quem decidiu da sua sorte falta ao trabalho vezes sem conta. “É Páscoa!” – consola-se, ao acender a última beata, “Os cabrões hão-de morrer descalços.”

Amanhã vou levar-lhe um par de botas cardadas, a sua paixão.

4.4.06



Leio que setenta e cinco mil blogs (!) são criados diariamente no espaço cibernauta.
Provavelmente haverá algum exagero na notícia divulgada, mas não deixa de ser curioso que, confrontado com outra que nos diz que o folhear da imprensa escrita teve um decréscimo de leitores, existe uma certeza quase absoluta: as pessoas precisam de falar, criar laços e espaços, escrevendo.
Os motivos serão vários, mas a palavra solta e a vontade de exprimir bocadinhos de vidas guardadas é mais forte.

Perceber que ao lado duma janela na minha rua possa estar alguém de quem leio pequenos segredos, é admirável. Saber que um nickname esquisito frequentou os meus lugares de infância e o divulga como se estivesse lá e quase pudesse tocar-lhe, é arrepiante.

Estranhos prazeres, poderá dizer-se. Mas é esta beleza de corpo e alma enraizada que descreve que a notícia pode não pecar por exagero.

1.4.06

1.º d’Abril



O dia das mentiras é, para os portugueses, o dia de se contarem verdades.
Ao contrário do que manda a tradição, hoje pode muito bem dizer-se mal sem se ser enganoso e sobrepor outras plaisanteries. É como um Carnaval alterado no melhor sentido do termo, onde “o bom mentiroso não cora, não se engasga e mente tão bem que acredita na falsidade que está a contar.”

Tem alguma ideia de qual seja a verdade mais mentirosa?

29.3.06



Lá como cá...

Por muito que maçador se torne falar do Benfica, ontem, no jogo com o Barcelona verifiquei muitas semelhanças entre o Glorioso e Portugal. A sério.
Lá, como cá, também se vive do passado. Do sonho. Da enganosa fantasia.
Cá, como lá, faltam os malabaristas. Os artistas. Poetas de bem-dizer e melhor fazer.

Por muito que me repita, lá como cá, só a garra não chega. Faltam complementos importantes que façam a diferença. Faltam os sorrisos largos de quem fizer um filho fá-lo por gosto. Faltam botas 45, uma camisa número dez, o capitão que nos envolva ao desafio e 3333333 medidas.

Ter o estádio cheio e o país ao rubro é pouco.
Lá como cá, os efémeros minutos da fama não chegam. Ir mais além do que se propõe seria a meta. Funcionar em bloco era o ideal. Criar a nota tilintante com que se compram os melões faria com que se viabilizassem ideias. Mas isso dá trabalho e faz levantar cedo.

Por muito que acredite que alguma coisa possa melhorar e que a inércia se aniquile, as diferenças da qualidade existem. Lá como cá, são assustadoras as desigualdades, as fragilidades, os nervos à flor da pele que impedem a progressão no terreno e a competitividade criativa. Não basta ter a tecnologia de ponta à mão. É necessário saber geri-la. Aproveitá-la como mais-valia.

Por isso se diz neste pequeno e grande mundo que é Portugal, que quando o Benfica espirra o país fica constipado.
Lá como cá!

27.3.06



Dia Mundial do Teatro

Tal como todos os dias internacionais, o do teatro também é para celebrar, claro.
E fugindo um pouco de Gil Vicente, um extraordinário site disponibilizado (entre outros) por João Vidal de Sousa, este assinalável evento não pode morrer de pé como as árvores, como dizia Palmira Bastos, essa grande Senhora do Teatro português. Temos que lhe dar ânimo, já que de vida anda pelas salas d’amargura.

Sou um português que nunca foi muito de fazer teatro mas sempre gostei de boas peças. Estou a lembrar-me de Fátima Felgueiras… perdão, da Mãe Coragem de Berltolt Brecht (Lisboa, 1975), quer interpretada por Gisela May (em Nova Yorque) ou Eunice Muñoz que tive o privilégio de conhecer em fim de carreira, no Teatro Villaret.
Como se percebe, também não frequentei muitos palcos. Eram mais tapumes, pisos duros e, de vez em quando, as escadas rolantes do Parque Eduardo VII.
Quanto a actores, estou recordado de Lawrence Olivier em Hamlet (Viena, 1966), Orson Wells em Citizen Kane (Budapest, 1941), e Luís Guilherme na Reunião Misteriosa (Porto, 2006).

Quanto ao glossário apavora-me os termos, sou franco. Coxia, por exemplo, tira-me o apetite. Já para não falar do Fosso de Orquestra ou Didascal, que me dá uma ligeira sensação de hérnia sedentária à boca de cena mesmo sendo na direita baixa.
O que gosto mesmo é dos dramaturgos. Esses sim. Vivem a peça, os diálogos, fazem todos os personagens. Já a encenação tem a sua farsa. Veja-se o happening dos espectadores de futebol na intertextualidade dos seus ícones.

Para terminar este quiproquo, de maneira alguma se pretende satirizar o solilóquio. Trata-se apenas de um texto cénico onde o imprescindível ponto faltou ao ensaio. Mas acho que fiz o meu papel.

24.3.06



Prestes a passar três anos sobre a descoberta dos blogs, sinto que muita coisa mudou na minha vida.
Neste espaço virtual choveram descobertas magníficas e mil outras coisas interessantes.
Encontrei poemas e prosas que gostaria de ter escrito. Histórias que gostaria de ter contado. Ideias que gostaria de ter tido. Pessoas. Muitas pessoas que podiam fazer parte da família, do núcleo duro das preferências, da roda tertuliana e humanitária onde, se se quiser, encontramos diariamente por esse vasto mundo da blogosfera.

E essa descoberta trouxe-me mais-valias em todos os sentidos. Bastaria partilhar as sensações destes quase três anos para descrever o que ganhei: Amigos. Muitos amigos. E também muita cultura, sabedoria. Bocadinhos únicos que não têm preço.

Sei que não é fácil ser blogger, scripter de dias pardos e longínquos. Não é fácil impor um estilo, um ritmo, um sentido único, uma actualização diária na escrita e nas palavras. Menos fácil será acompanhar duma assentada tudo e todos. Quase impossível saber o que acontece in locco nesta passarelle de testemunhar motivos.

Mas que vale a pena, lá isso vale.

Que seja um bom fim-de-semana!

23.3.06



Realidades da Vida

Quem acompanha mais de perto este cantinho meio escondido sabe muito bem que o dia vinte e três tem um significado especial: é o dia de me sentir gato vadio acarinhado. Um lobo a quem dão um dia calmo, um pardal de telhado endiabrado que saltita mesmo que chova. Um carneiro tresmalhado. Um cavalo à solta.

Tomara que os desgraçados que a vida despreza, se tornassem num dia vinte e três. Fossem todos eles abençoados por um deus que não existe e pudessem compartilhar a vida nova que me calhou.


Sempre soube que nem tudo é pão e milagre das rosas, onde é a própria vida que o ensina em cada despertar antecipado.
Devo pouco a muita gente, devo muito a toda a gente, mas devo tudo a quem cá sei.

Com dedicatória:

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21.3.06



Dia Mundial da Poesia

Sendo Portugal poeta, somos um país profeta que não rima. Impedem-nos os sulcos das terras lavradas, as casas mal acabadas e senhoras mal afamadas.
Desapareceram as armas e os barões assinalados, os barcos no outro alentejo naufragados em troca de tipos mal encarados.
Ficámos um país que não grita nem labuta, um país que virou a cara à luta e que enaltece os filhos da puta.
Sendo Portugal poeta, fadista e profeta, é figura de campónio que da vida faz gemer uma guitarra e um harmónio.
Por isso continua em fila de espera e de agasalho.
Que apenas consegue rimar com primavera e a vontade de mandar tudo p'ró...

Oiçamos um comum amigo:


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15.3.06

Mudar de vida

Quando por motivos incontroláveis se alteram hábitos e horários, levam-nos a repetir a frase esbatida de que se está a mudar de vida. Uma ciganice pura, ou um acto nómada se lhe quiser chamar assim.
Ora eu, bastante familiarizado com estas coisas, pareço quase um saltimbanco. Um artista de circo sem rei nem roque.
Na minha idade (isto de referir sempre a idade como desculpa será sinal de velhice prematura?) já não é normal. Quanto muito, umas adaptações profissionais e sociais fariam sentido. Agora andar com a casa às costas de tempos a tempos parece-me obra dum destino traçado que nunca foi muito meu amigo.
Mas a procura do encaixe duns tostanitos a mais faz sempre jeito. E se existem coisas na vida que muito prezo, uma delas é mudar de vida. Porque nunca me sinto completamente satisfeito com a que levo.

Por vezes interrogo-me: porque será?

11.3.06

Quadrúpedes




“Identificaram aquilo que parece ser uma alteração genética que impede três raparigas e dois rapazes, com idades entre 18 e 24 anos, de caminhar erectos.”




Lendo e relendo a notícia, acabrunho-me.
Ouvindo e repetindo Fernando Alves, vergo-me ao peso dum possível retrocesso humano: a evolução de voltar às três etapas; de caminhar sobre as duas mãos e os dois pés os trilhos dos primatas desaparecidos setenta milhões de anos atrás.

Como René-François-Auguste Rodin, o homem do nariz quebrado, também me espanta que da inadaptação à marcha erecta possa também fazer um retrato deste labirinto a que chamam de sociedade.

Mas não faço!
Porque pertenço à única raça que tolera os inadaptados.

4.3.06



Porque hoje é sábado...

há um relógio que toca aqui ao lado e não é meu.

O emitido som pertence ao quotidiano onde sobram sombras; claridades apagadas dum fugaz descanso. Sobrevivências que resistem a mais uma semana dura de trabalho. No entanto, esse despertar acorda as ideias adormecidas em lençóis brancos de linho onde as certezas, que são algumas, se esfumam no debruçar sobre as notícias matinais.

Como hoje é sábado…
recordo ser o dia das limpezas grandes ao cantinho onde o encanto e cumplicidade pernoitam juntos. Dia de arrumar ideias velhas e descobrir outras mais novas que nos façam esquecer as esperanças falsas. Aquelas temporalidades esperançadas onde muita da nossa juventude está depositada e que faz tempo.

E porque hoje é sábado…
apetece abrir as persianas, usar roupa informal e ir ao Mar apanhar conchas. Trazer de lá as ondas de energias ocultadas e fotografias dos desenhos que deixámos no areal. Naquela areia fina que a próxima onda apagará esse registo.

Mas porque hoje é sábado…não vou ter tempo.
Talvez no próximo descubra a hora exacta de me deixar arrebatar por utopias e demais leviandades. Das tais que é proibido assim dizer ou revelar. Talvez na ideia de que o dito se possa eternizar no imortal Vinicius.
Ou em tantos outros que fazem do sábado o seu próprio dia.

26.2.06



Carnaval

Reza a História que em 1861 desembarcou no Rio de Janeiro o Entrudo; uma festa tradicional portuguesa criada por gente pobrete mas alegrete.
Quase duzentos anos depois surge também por lá o primeiro Zé tuga: o nosso Zé Pereira, menos conhecido por José Nogueira de Azevedo Paredes que de figura foliona e anafada do bombo era parte inseparável.
Passados que foram todos estes anos até 2006, o maior Carnaval do Mundo tem a marca lusitana e ponto final. ( Quem duvidar da seriedade da análise que consulte os anais em Ipariguá que o Perfeito explica tudo)

Serve esta pequena nota introdutória para esclarecer que os Pierrot e Arlequins desta nova geração são outros. As máscaras da Commedia dell'Arte dos séculos XV e XVI, que fizeram sucesso na Corte de Carlos VI também. E mesmo que se retrocedesse no tempo da Era Romana ou Egípcia o resultado era o mesmo.

Portanto, compinchas e foliões dos Dias Magros e da expressão latina de "carne, vale !", vamos mascarar-nos! Tentar imitar Baco (Dionísio para os gregos) e homenagear Pã. Vestir de cores garridas o protesto e fazer do Bacanal um ritual. Só assim o Corso fará sentido.

Eu cá p’ra mim continuo a torcer pela Tijuca e pelo Benfica até que a verdade dialéctica venha ao de cima. Quem sabe não seremos o maior Carnaval do Mundo de emoções angustiadas já para a semana que vem quando chegar o recibo do ordenado deste mês de fantasias!?

Divirtam-se!

20.2.06

Tal como o homem da rádio, também eu acordo antes do trinar dum relógio já velhinho que me alerta para o começo de mais um dia de passos vazios.

E como sempre, da janela aberta do meu quarto, uma janela que me dá a ver as cores do mundo repintadas de traços que não entendo, debruço-me perante os cenários que se arrastam pelos trilhos sulcados das memórias tristes dos velhos sentados na beira dos caminhos.

É por esta abertura rasgada nas quatro paredes frias, de onde me olham as vítimas de Guernica, que me apercebo da raiva e ódio semeados. Da visão profética do Apocalipse. Das rosas de Hiroshima já sem pétalas. De olhares vagos e sem brilho.

Tocam ao fundo os acordes das palavras de Zaratustra. Melancólicas e cruéis. Soltam-se, em vertentes inclinadas, gritos. Vindos dum lugar distante que Kai-Tak e Kirogi, dois impiedosos ventos, assinalaram.

Do outro lado do mundo, homens de negro sem rosto e sem defesa aguardam julgamentos de juízes sem toga. Cem razões que nos escondem da verdade. Cem maneiras de torturar almas embriagadas por outra tanta gente sem gesto. Precisamente igual aos ventos que sopram do lado da Terra dos Arianos.

Terra onde as Geórgicas de Virgílio alertam que pode estar a chegar outro Holocausto. Desta vez vindo dos céus em asas brancas onde se escuta um belíssimo canto: o Canto do Cisne.
Um canto a que as Muralhas de Tróia não podem resistir.

11.2.06

Há dias assim...




Perante os cenários de todos os minutos e horas que passamos em contacto diário com o mundo que nos rodeia, há uma coisa com que ainda não sei lidar lá muito bem: a morte.
Aquele “morrer sem ser visto” que nos toca mais de perto. Aos mais chegados. Gente da família.
E hoje, em vinte e quatro horas passageiras como o vento que me bate na janela, tive dois casos. Mortais. Daqueles que mesmo que esteja preparado para quando tiver que acontecer, ainda assim há uma certa relutância em aceitar e que nos levam tudo o que somos.

E o mais preocupante é que se sabe que em todos os minutos nasce e morre gente comum. Diversa. Desconhecida até. Gente que apenas as sei pelas notícias, e com quem nunca convivi, mas demonstra que o obituário nunca mente.

Por isso, para além dos choradinhos triviais, julgo que nunca fui capaz de encarar o fim que temos pela certa como uma certeza absoluta. Soa-me a mentira. A coisa passageira. Sarcasticamente falando, daquelas coisas que acontecem apenas, e só, aos outros.
Mas não! Na verdade, hoje tocou-me a mim.

Perdi a última das irmãs da minha mãe. A tia preferida da minha visão de ver os outros. Uma minhota dos quatro costados com uma vida que dava um filme e que me deixou mais pobre nos afectos.
Passadas as horas acima referidas, mais uma “acostumância “que me ligava há vários anos nos abandonou: a Becky. Uma cadela meiga e doce que nunca ninguém teve e que deixou uma das nossas casas mais vazia.

Morreram as duas em silêncio. Sem avisar. Provavelmente, sabendo que nunca queriam dar trabalho aos outros. Aqueles outros em que estes próximos dias não vão ser fáceis de esquecer.
Mas a mim toca-me as partes piores quando estas coisas acontecem: saber gerir o golpe trágico que afecta a vida com estas realidades que temos pela certa. Porque também me fino ao dar conta delas. Sejam pessoas ou animais.

Há dias assim…

31.1.06

A Bilha

Tal como Bill Gates, também tive uma visão futurista: nunca, mas mesmo nunca, conseguiria aderir ao gás canalizado. Eu cá sabia porquê!


















(Imagem generosamente retirada do Praça da Repúlica. Em Beja. Onde nevou há bem pouco tempo.)

20.1.06



O dia da reflexão

Encontro-me perto de reflectir, anunciam, lúcidos, os guardiães dos templos das certezas que não vingam. Aqueles que moldam ideias e caminhos. A vida. Caminhos traçados até que a ligeireza dos dias que nos calharam se esfumem num assopro.

Finjo não ouvir o apelo. Fujo das vozes sonantes dos cantinhos da rádio. Das esquinas de onde a caixa que mudou o mundo nos persegue.
Penso e reflicto. Devagar. Ao som das aves migratórias que fizeram ninho e das teclas de um piano que me conta estórias imortais. Estórias que já fazem parte do passado onde foi criada vida. Onde se criaram também laços e afectos que nos amarram para a existência efémera em que dura apenas o anúncio.

É dia de reflexão, voltam a lembrar. Em mais um take para que o espectáculo, perante as luzes que ainda não abriram, possa continuar.

E eu a julgar que reflectia todos os dias…

14.1.06



Na vida de qualquer um de nós, os que existimos, as mudanças e as aprendizagens tornam-se importantes ao longo do tempo em que vamos subsistindo. Por norma ou pela caracterização que se faz do nosso próprio existencialismo.

Por princípio, não sou apologista de mudanças sem sentido. Mas algumas são necessárias e imprescindíveis. Tal como as que pretendo fazer agora: mudanças simples e que não prejudicam nem alteram a relação que tenho com toda esta rapaziada dos blogs.

Só que, ao longo de três anos de convívio com o sistema, e porque tenho um “brinquedo novo”, vou pausar uns tempos. Abdico de editar a pretensão de escrever o que posso ter na ideia e vou recomeçar a ler os outros. Fazer do próprio espaço deles os meus posts.

É mais giro. Mais gratificante.
Talvez o sol da meia-noite que me faltava.

Até lá!

7.1.06



O meu computador está a dar o berro

Parecendo uma frase banal, do tipo “o que é que tenho eu a ver com isso?,” não deixa de me levar à fantasia e, ao mesmo tempo à realidade, na vida de um blog. De um espaço a que já me habituei, ou até mesmo, desenhar a vida do varredor da minha própria rua.

Tal como qualquer ser vivo, um computador tem os dias contados.
O varredor também.

Depois de vários anos ao serviço, a máquina que já faz parte das nossas vidas perde características, personalidade, vigor. Habitua-se a certos hábitos, crenças, automatismos. Segue quase de olhos fechados as definições, as pré-definições ou o que lhe mandamos executar. Muitas das vezes sem ter o cuidado de pensar se a podemos estar a prejudicar.

E um dia dá o berro. Estoira. Faz kaput depois de um esforço demasiado. Tal e qual como qualquer varredor da minha rua ao fim de imensos anos de trabalho. Parece normal à primeira vista mas não devia ser assim.

O meu computador, e outros muitos computadores de almas que sempre dizem certas coisas, mais o varredor da minha rua, deviam ser eternos. É com eles que vejo o mundo e o entendo. É neles que me apercebo que o dia está chuvoso, frio, e me alertam para tomar cautelas. É neles também, em outros dias, que vejo o sol nascer airoso quando lhes vejo aquele sorriso: um sorriso que dá prazer de cá andar e me mostra quanto foi bom o ter nascido.

Mas desgraçadamente, o meu computador está a dar o berro.
O varredor da minha rua não. Nem todos aqueles de águas turvas e de silêncios não são cúmplices.
Ainda bem!, porque não há retorno.


Nota: um agradecimento especial à Márcia Maia, ao Buba e ao Orca, pela generosidade de fazerem ter chegado à minha humilde casa o muito da amizade que nos uniu ao longo deste tempo que vamos passando aqui.
Em palavras editadas na morada certa.

Agora vou dar uma volta por aí, antes que estoire de vez o companheiro que está a dar o berro.

1.1.06



Ano Novo, vida nova

Depois de uma voltinha pelos blogs australianos, ingleses, italianos ou jamaicanos, nota-se alguma perspectiva em relação ao ano que nos entrou pela porta adentro. Os portugueses não fogem à regra.
Existe uma esperança redobrada no primeiro de Janeiro pela melhoria da qualidade de vida de cada um, que se vai desfazendo à medida que os outros dias vão passando. É normal, e estamos fartinhos de ver o mesmo filme.
No entanto, há uma coisa que sempre me fez espécie: não podendo manobrar o futuro, posso muito bem controlar o presente e o que ele pode representar para dias que se desejam melhores.

O que é que isto quer dizer?
Quer dizer que tenho me esforçar mais, trabalhar mais, saber mais. A função de cada um de nós na sociedade, e o modo como nos inserimos nela, faz com que tudo possa melhorar. Mas tem que começar por mim. Por ti, pelo colega, pelo amigo ou vizinho, talvez hipotecando que sejam outros a decidir por nós.

Também eu me proponho no dia 1 a que tudo corra pelo melhor. Mas duvido. Não só pelo anos que já levo nestas andanças sociais, mas porque também sempre fui céptico em relação às pessoas que têm o nosso destino nas suas mãos.

Mas hoje não quero ser desmancha-prazeres. Vou confiar na credibilidade que os portugueses me merecem.
No entanto, já estou a gastar aquilo que ainda não ganhei. Aumentou o gás, a electricidade, e o meu vício. Amanhã, também vou pagar mais por um cartãozinho que me leva ao local onde trabalho. Pode ser que comece logo a resmungar, mas lá estarei a tentar criar riqueza num país que já de si é pobre.

Bom Ano, ó companheiros!

31.12.05



O último dia

Duma forma geral, os portugueses têm memória curta. Por isso gostamos dos balanços, dos resumos finais e dos rescaldos de cada ano a mais por que passamos. Este (2005) não é diferente.

Choramos as tragédias alheias. Sentimos saudade de tempos idos. Sofremos perante dramas diários que nos passam pela calçada da nossa rua e com novelas que tenham finais angustiantes. Gostamos que nos lembrem o que para trás ficou como se disso estivéssemos carentes.

Para além disso, temos a terrível inclinação para o fado que só nós contemplamos e sabemos exteriorizar. Habituados permanentemente a lidar com coisas tristes, não nos damos conta que passam coisas giras à nossa volta. Que ficam na memória de muito poucos. Que só compartilhamos entre as quatro paredes da nossa própria casa.

Tenho a pretensão de alterar isso. Não só de agora, mas porque os amigos virtuais que conhecemos - e que da família já fazem parte - também pensam assim.

Daí, deixar apenas um desejo a todos eles: Sejam felizes!



Logo, venho cá abrir uma

11.12.05

O Subsídio

Se existem coisas que fazem sorrir os portugueses nesta altura do ano, o subsídio é uma delas.
Mesmo não gostando do nome que lhe deram (soa-me a esmola, pedinchice ou até parece que estou a roubar alguma coisa) a mim sabe-me bem. Dá para comprar o bacalhau e as couves. As prendas p’rós miúdos. Alguma coisa que nunca tive.

Mas tem um senão. Porventura, alguns senãos.
Primeiro, porque é pouco. Segundo porque é só um. E eu que sou do contra, comecei a constatar que merecia mais.

Vejamos eu a pensar p’ra dentro: só pelo facto de trabalhar, aquele que me dão já está justificado. Mas ao longo de um ano de esforço pela camisola que visto, (onde o patrão tem comigo sempre lucro, passe a imodéstia,) merecia outro. Isto para não referir que o facto de aturar as más disposições dos colegas de trabalho, o stress traumático dos transportes que se dizem públicos, as más condições das dez/doze horas que se passam num dia cheio ou a má alimentação que um gajo é obrigado a fazer durante a sensação de que se podia fazer mais e melhor, acho que mais um era soberbo.
No entanto, há aqui qualquer coisa que me chateia: por muitos mais que me dessem, ou a eles tivesse direito, tenho sempre na ideia todos aqueles que não usufruem de apenas um que seja.

E isso, nunca sei a quem hei-de me queixar. Será ao Totta?

8.12.05



Qualificação e competência

Se é moda agora a referência à qualificação dos portugueses pelos candidatos que merecemos ter, então vamos por partes.

Começando já por mim, e olhando para toda a rapaziada que anda nesta coisa dos blogs, sou o gajo menos qualificado de todos quanto conheço.
Posso estar muito bem relacionado com professores, mantenho dialogo com gente boa e estarei bem posicionado com poetas, executivos, escritores, historiadores, e muita malta que até dá na televisão. Aliás, mesmo não fazendo parte dela, sinto-me de tal forma inserido nesta elite que até a minha própria gata já me trata por senhor doutor.

No entanto, não consigo encontrar um sacana de um pedreiro ou de um servente que tenha o raio de um blog. Em termos qualificativos, digamos, ainda não descobri ninguém abaixo do nível a que pertenço que possa falar , ou escrever, sobre a matéria. É um pouco frustrante porque sei de antemão que eles tinham muita coisa p’ra dizer sobre a competência de como cada um faz o seu trabalho.

Falando precisamente em trabalho, todos nós sabemos que a maioria dos portugueses não gostam de trabalhar. Provavelmente, o resto do mundo também. São mais a favor do emprego. Das posições. Das carreiras. Tudo a favor da procura do melhor para as suas próprias vidas, estando-se a cagar para o desenvolvimento do que quer que seja.

Em termos generalistas, nunca tivemos apetência para renovar coisa nenhuma e vivemos sempre ao sabor dos ventos e das ideias de algum iluminado que apareça. Deixamos fugir os cérebros, não apoiamos a iniciativa dos nossos jovens e, por incrível que pareça, continuamos a ser mesquinhos e ciumentos com o sucesso do vizinho.

Mas não há crise. O espírito natalício supera tudo.
Os nossos erros históricos, a falta de respeito de putos com dinheiro (Cristiano Ronaldo), e o adiamento sucessivo de soluções que todos nós sabemos ter, também. Vivó Benfica!

1.12.05

Carta ao Pai Natal

(também conhecido por Noel, St. Nicholas, Mr. Lonely, St. Nick ou Santa Claus, e mais alguns nomes menos próprios que o Dicionário de Língua Portuguesa admite nos estádios de futebol)

Querido Pai Natal:
Estou sorumbático. Triste. Desconfortável até.
Chega este momento e pareço um puto assustado por não saber o que pedir-te. Podia começar por mandar beijinhos, dar-te graxa, afagar a cabeça das renas que te acompanham há muitas eras, ou chantagear-te o ego para poder obter o que pretendo como só as crianças o sabem fazer. Mas não. Como adulto que já és, sei que não ias gostar.
Por isso, ao longo dos anos que crescemos quase juntos, não é um pedido que te faço, é mais uma exigência se assim o entenderes: não desças pela minha chaminé!
Anda pelas ruas e nos becos. Por quatro tábuas meio erguidas, ou mesmo paredes, que não possuem bifurcações nos telhados.
Na minha não, por favor.
E se nos encontrarmos por aí, hás-de verificar que podes ter o teu lugar ameaçado.

27.11.05

Os Candidatos


Qualquer que seja o lugar a que cada candidato se candidata, podem prever-se várias estimativas que os estimulam a isso. Talvez a vaidade, apetência e/ou vocação. Do oito aos oitenta, vai-se em três segundos mais rápido do que qualquer Ford Escort alterado para as corridas nocturnas em Monsanto.

Pode até desconhecer-se, mas cada um de nós tem em si um candidato escondido. Ou porque se quer resolver coisas e estar disposto a dar um abanão a esta merda, ou aproveitar a dolce vitta que proporciona ser-se conhecido quando se passa em qualquer rua ou lugar. Aí, não há mãos a medir. Reveja-se as imagens televisivas. As fotos das revistas. Outra vida que podia ter tido o gajo da fotografia. Vejam-se as candidaturas ao primeiro emprego. Aos castings. Ao subsídio e ao desemprego. Continuamos a ser "the best".

Estão a extinguir-se as Terezas de Calcutá. Os Budas e os São Franciscos Xavieres. Sobram entretanto muitos macedónios entroncados com perfil adequado no uso da força e da fraude: os tiranos. È apenas uma questão de escolha.
Acontece que os portugueses preferem que os não tomem por candidatos. Nem sequer apreciam o facto de escolher. Situam-se na longa lista de indecisos, jogam à defesa e atacam à má-fila e na má-língua. Tudo ao molho e fé num deus que já morreu. No entanto, existe a esperança de que qualquer coisa possa melhorar. Nem que seja para pior.
Depois disto, resta-me candidatar a um lugar que nunca quis: o meu sofá. E ver dali o que mais nos irá acontecer.

Uma boa semana a quem passar por aqui. Aos outros também, claro.

26.11.05

Olá!


esteve por aqui esta semana? Já aí vou...


É porque hoje também ganhei o direito de acordar assim. Parafraseando a Carla (link) ao ver aquela manganona ali ao lado.

19.11.05

A Sociedade Civil

Ao contrário do que se possa pensar, a Sociedade Civil é desmedida em contrastes de coloração política. Tanto pode estar de alva vestida pela noite adentro como de tons nocturnos logo pela manhã.
Nunca se sabe por onde anda nem aonde vai. Uma galdéria assumida, diga-se, mas consta como verdade que gosta de frequentar tertúlias e congressos. Reuniões e raves que durem até às tantas e metam acepipes sem ter que desembolsar um tusto.

A Sociedade Civil é daquelas coisas muito independente que faz da diferença do seu próprio pensamento o seu maior trunfo. Há quem diga que da indiferença também. Daí, poder dizer-se que é uma puta sabida que jamais se compromete publicamente porque lhe falta o vigor da tenra idade.

De experiências acumuladas e super-protectora, é a mãe de todas as consciências. Sobrando-lhe ainda, o aplauso que dedica às causas nobres e aos apelos nacionais. Isso deu para ver no Euro 2004, na vaga de incêndios que afligiu o país e na diplomacia com que trata os caprichos da administração do Metro do Porto e os negócios pouco claros da Banca .

Quanto às presidenciais, é lírica e romântica mas não gosta de perder nem a feijões. De tal forma, que o seu sentido de voto esteja irremediavelmente inquinado para o que pensa ser a solução menos gravosa. Mas não faz mal. A "Brasileira" tem café à borla, o meu filho Marco também faz anos hoje (28) e não é à Sociedade Civil que se pedem responsabilidades.

Bom fim-de-semana!

11.11.05

A Opinião Pública

Esta semana conheci a Opinião Pública.
Figura desassombrada, hirta, muito tu-cá-tu-lá com toda a gente e com semelhanças várias entre a Júlia Florista e a Rosa Enjeitada.

Motivado por razões óbvias – a minha campanha virtual, claro - era obrigatório que um convite para se explicar perante nós fazia sentido. Tanto mais que nestes tempos mais próximos apenas posso vir aqui uma vez por semana.

Sem tornar notória as minhas intenções, movia-me a curiosidade de saber da boca dela própria todos os queixumes. As amarguras que a penetravam (salvo seja), mais os conceitos e os predicados que, por norma, lhe são atribuídos.
Nesta matéria pareceu-me simpática, mostrando-se até entusiasmada com o enorme enlevo que é tida em conta pelos mais variados sectores da má-língua.

Falámos um pouco de tudo e de nada.
Aproveitámos a oferta de castanha assada na tascazinha de Alfama onde nos sentámos a beber um "tricofaite" (receita lá da zona) e soube por ela que tem uma família composta de muitas opiniõezinhas e zinhos. Aliás, como eu.

Sempre com o coração ao pé da boca, a Opinião Pública pareceu-me deveras sabichona e de quem se espera sempre uma resposta a qualquer assunto. Seja ele sobre os namoros homossexuais nas escolas portuguesas, as escolhas mediáticas de Luiz Felipe Scolari, ou inclusive, note-se, a preocupação de como os quatro jurados do “Caso Joana” teriam tão depressa aprendido as leis que regem o Direito, mais o Processo Civil e Penal Português para provar que o nosso povo não é parvo e castiga de forma severa os malfeitores.

De qualquer das formas, a Opinião Pública está exaustivamente por dentro de tudo o que se passa à sua volta. É volumosa de ideias e tem as costas largas. Cheia, portanto.
Desde Clichy-sous-bois até Omã. De Felgueiras até ao Iraque. Do Arco do Carvalhão até às putas de Bragança, opina sobremaneira sobre tudo mas ainda está para saber como é que a Gala da Confederação do Desporto conseguiu atribuir o prémio de "Treinador do Ano" a José Peseiro.

Quando lhe perguntei sobre a campanha dos outros candidatos torceu-me o nariz. Disse-me, olhos nos olhos, que muitos deles não têm tomates – foi mesmo assim – para endireitar o país, quanto mais foder o que fodido está.
Mas acho que gostou de mim. Talvez o bigode a tivesse impressionado, sei lá…
Uma coisa ficou acertada. Vai apresentar-me em breve a prima. Ainda mais maluca do que ela: a Sociedade Civil.

Até p’ra semana!

5.11.05

O Perfil

Após ter ultrapassado a barreira dos cinquenta descobri que também eu tenho um perfil. E com estas coisas das presidenciais, até que podia ser um “bom” candidato a candidato. Vejamos.
Tenho cento e oitenta centímetros de altura, mas de perfil pareço um pouco mais alto. Parte da minha juventude passei-a a guardar gado e estou bem por dentro dos males de que padece a Agricultura. Comecei bastante cedo a ligar-me às relações internacionais visto que o “boom” da emigração clandestina passou quase todo pela minha aldeia.
De finanças, nada nem ninguém melhor do que eu sabe como orientar um orçamento reduzido e estou à vontade para explicar direitinho todas as elasticidades e as matemáticas que se pode fazer a uma nota de cem euros.

Não sendo um político profissional, pertenço à classe dos “gandas mentirosos” e prometer é o meu ganha-pão. Tanto assim que o défice, a gripe das aves e a crise do Sporting, seriam as minhas primeiras prioridades a resolver. Outras se seguiriam como o desemprego, a Justiça e os projectos para o desenvolvimento nacional. Basta dizer que nestes últimos meses estive profissionalmente destacado no Centro de Formação Regional de Setúbal, na Casa Pia de Lisboa e no Intituto Superior de Engenharia da mesma cidade.

De História estarei ainda mais à vontade; não sei se alguém já reparou, mas neste humilde espaço há um tempo a esta parte não faço outra coisa senão contá-las. Assim como nos campos de Geografia, Economato e Veterinária não me atrapalho, tendo já estudos escritos sobre a matéria mas que ainda não me foi dada a oportunidade de publicar.
Nas Artes e na Cultura sinto que tenho ainda muito para dar ao país. Sou um óptimo actor e tenho sempre mais do que cinco minutos para ler os jornais sem ter a boca cheia de bolo-rei.
Isto sem falar das qualidades que possuo sobre os temas da Saúde e do Ensino devido ao facto de morar junto a um Hospital e estar rodeado por escolas secundárias.
Tudo aquém de nas horas vagas ter a pretensão de ser poeta.
Se isto não é ter perfil…

O que falta são as assinaturas. Mas vou já ligar para a Vogue, Visão e Reader’s Digest.

Bom, mas agora está na hora de ir fazer campanha porta-a-porta e passar nos blogs que tenho mais ao pé. Ou mais à mão.
Bom fim-de-semana!

4.11.05

ALERTA À POPULAÇÃO stop DEVIDO AO PROVÁVEL SURTO DE GRIPE DAS AVES stop AVISA-SE A POPULAÇÃO stop DE QUE SE DEVEM DEITAR O MAIS TARDE POSSIVEL stop NUNCA, MAS NUNCA stop SE DEITEM COM AS GALINHAS stop