3.11.07



Comovidamente alertado, como já me fez saber uma pessoa amiga, aproximam-se a passos largos datas “trágicas”. Uma já passei (o dia dos entes queridos), com o coração quebrado e a sangrar por vários lados. Aproxima-se outra, a vinte e três; a (ex-) celebração de mais um ano no desenrolar de duas vidas passadas em conjunto e ternamente enriquecidas.

Se passar essa… então, posso afirmar que sobrevivo. Que resisto. Enfraquecido, é certo, mas estoicamente a lutar para não me deixar vencer. Faltar-me-ão ainda mais. Aquelas onde todos juntam sorrisos largos. Crianças felizes. Perspectivas de um futuro mais risonho e muitas luzinhas a indicarem mil caminhos.

Talvez piores, serão as noites frias. Gélidas. Onde mais se vai fazer notar um vazio que não suporto e que me apertam entre quatro paredes caiadas de escuro. Uma mesa solitária sem cadeiras. Os pratos limpos. Uma toalha estendida sobre nada.

Uma cruz que tenho de carregar durante a vida que me resta.

27.10.07



Pesadelo

Por muito que pese a vontade de ultrapassar as coisas mais desagradáveis na vida de qualquer blogger, a coisa não é fácil. Tenho experiência disso e acompanhei, ao longo destes cinco anos que já levo nesta brincadeira de comunicar por esta via, determinados casos reais. Gente com quem contactava regularmente e se finou. Outros que se fartaram. Pessoas que acompanho mensalmente e têm problemas de saúde. De carência afectiva. De solidão. Arriscaria até, em alguns casos, de amor. Outros mais inadaptados, curiosos, refugiados em silêncios que ninguém entende, lá vão levando a água ao seu moinho.

O meu caso é dos mais banais; a Pikena foi-se e acabou.
Fiquei eu aqui. A falar e a escrever sozinho. Impávido e sereno, a cantarolar uma música qualquer ao ir abrir a caixa do correio na esperança que possa compreender alguma nova que me possa devolver o raciocínio de saber que não morri. A vasculhar notícias na Globo, na TSF, jogar os meus trunfos de memórias perturbadoras que me assaltam de noite em casinos virtuais, e saber os resultados da última jornada de futebol. Depois acabo no espreitar do que escrevem os nocturnos. Noctívagos de uma só pernada de pinheiros altos. Que comunicam de qualquer forma o seu estado d’alma e que tenho linkados ali ao lado ou encontro por acaso.

Depois vou à rua comprar pão. Com a barba por desfazer e tentar não me anular. Despejo o lixo que me sobrou. Restos que me não chegaram a satisfazer uma vida que não pedi e não dá para repartir com o que já perdi. (a nossa Becky, mais a dona).

E aí vou eu, ao encontro duma esquina que me esconda. Disfarçando toda uma raiva num simples pedido dum pé de salsa ou de hortelã à senhora do minimercado. Aquele onde gasto os últimos tostões do curto ordenado que se fosse pago em tristeza dava para sustentar todos quantos passam por aqui.

Resta-me a saudade de ajudar a mudar a cama de lavado. De pintar a casa. De arrastar os móveis quando a ela lhe dava na cabeça fazer obras. De ver-mos o Benfica juntos. Atirar-lhe uma flor para a janela quando estava à minha espera. Dormirmos agarrados num aconchego dum calor que era só nosso quando o frio chegava mais cedo e apertava as emoções. Aquele cheirinho. Aquele sorriso. O afago daqueles dias de “hoje não me chateies que dói-me a cabeça”.

São tudo coisas que estou a tentar ultrapassar facilmente.
Tal como, ao olhar as paredes brancas e geladas desta casa, tentar ser um grandessíssimo aldrabão e acabar por me convencer que tudo não passa duma noite mal dormida. Ou pesadelo.

22.10.07



As tragédias não têm necessariamente serem só gregas. Ou de Dickens, Dostoievsky ou shakespearianas. E os desastres emocionais que afectam estruturas que se julga serem sólidas – quer sejam pessoais, políticas ou económicas - destroem qualquer país. Qualquer família. Qualquer pessoa.

Temos os exemplos no Darfur, no Sudão, no Iraque. Sabemos pela História que os genocídios de 1918 e 1945 (Hiroshima) provocaram, e que ainda se sente, dor e sofrimento a quem sentiu na pele a situação. Titanic, Coreia, Vietname, Chernobyl, também ficaram na memória. Tal como o terramoto de 1755, as tragédias de Shansi, Sumatra, Peru, Irão. Isto só para relembrar alguns dissabores humanitários.

À escala do que cada um de nós possa imaginar, a vida de um viúvo não foge à regra. Regra que não sei explicar neste universo complicado que é o ser humano, e que mexe com o interior da nossa alma. Entra-se num conflito interno com forças que não sabemos medir a intensidade, nem os danos colaterais que provocam. Depois andamos de rastos. Com tendências para os disparates que só lemos nos jornais da manhã mais próxima.

Por isso, amanhã, vou viver mais um dia vinte e três. No silêncio de fazer contas à vida. Sem rumo. Talvez sem nexo. Apenas com a certeza que o que se abate de mais negativo nesta data, passe depressa. Nem que me tenha de afogar por uns tempos numa das baías deste rio Tejo que tanto gosto. A do Seixal. Onde o passado que mereço me destinou.

13.10.07

Palavras soltas


Seixal - Foto A. Caeiro

Tal como em circunstâncias adversas, os sentimentos que nos arrastam para dentro dum cemitério valorizam-se. Ali está tudo. O princípio e o fim. O nosso lado melhor. O mais fiel e escondido retrato que nunca ninguém vê. Tudo o que somos transparece de forma delicada. Rendida. Perante muitas coisas que não saberei nunca explicar.

A um metro e meio abaixo do chão que pisamos, jazem pessoas queridas. Corpos inertes que deram vida. Lajes que testemunham histórias e percursos e flores. Muitas flores.

Dos sítios onde me sinto agradavelmente calmo e tranquilo, aquele lugar será um deles. A par da beira-rio onde consigo ler e imaginar o futuro e que não tem necessariamente de ser um lugar mórbido ou triste. Um recanto onde se lavam as mágoas em choro compulsivo. Recuso-me a pensar assim.

Olhando os visitantes, apercebo-me que nutrimos um especial carinho uns pelos outros. Solidarizamo-nos com as perdas dos entes queridos e conversamos em surdina como se pertencêssemos a uma única família. Trocamos olhares cúmplices. Sorrisos amarelos como as pétalas de rosas esquecidas.

Venho de lá sempre emocionado. Com menos um bocadinho da minha própria vida. Mas ao falar com a pedra fria que esconde um dos meus tesouros, rendo-me à evidência que a lei da vida e morte é mesmo assim. Como as palavras tolas e soltas que este coração dita cá p’ra fora.

3.10.07

De volta

Ainda fragilizado a sentir palavras que fazem estremecer, recuperar os habituais gestos e comportamentos da vida passada até aqui, torna-se demasiadamente complicado acompanhar o tempo. Desde os meus primeiros passos que fui educado em ambientes muito portugueses: o da pobreza eterna, o da tragédia recalcada vezes sem conta, o da tristeza – essa vil e falsa amiga – que nos amarra e nos desgasta por toda a nossa existência. Pretendo alterar isso.

Quero mudar o rumo às coisas! Quero (como diz o Poeta) que o destino seja aquilo que eu quiser! E não sei porque carga d’água me fui lembrar deste vídeo que aqui coloquei e que já ouvi vezes sem conta. Mas, mesmo com as lágrimas a trairem-me, que me fez bem, lá isso fez. Provavelmente por ela.

A gente vê-se por aí…

3.9.07


Monsaraz, 2005

Luto é negro carregado. Vida vivida em tons cinzentos e sombrios, onde o mar e a terra alentejana não cala a dor das palavras certas que me traíram. O sofrimento. O sentido da perda. O sufocar dos soluços que aparecem sem ninguém os mandar vir.
Tenho que honrar o compromisso da minha forma de ser. Olhar de frente a nova vida e acabar de me arrastar nos cantos escondidos que fazem sombras dos teus gestos no fumo dos meus cigarros. Naquele amor onde me perdi.
Até sempre, Manuela.

23.8.07



Este meu primeiro dia 23 triste e amargurado, vou passá-lo no álbum das memórias que me recuso esquecer.

No entanto, as palavras das pessoas que não conheço sem ser virtualmente, foram duma enorme ajuda existencial para ultrapassar este difícil momento.
A minha abnegada Thita tem sido incansável nos desdobramentos que estas situações colocam. Assim como todos aqueles que faço questão de acompanhar enquanto por cá andar. Diz-se que os amigos vêm-se nas ocasiões. E aqui estou eu, de coração aberto, a soletrar um Obrigado profundo com a voz a trair-me o pensamento.


Por ordem aleatória, encosto-me ao ombro amigo dos que já souberam do sucedido: a Nucha, a Cinda, o Ouriço Caixeiro, o Orca, o Peciscas, o Finúrias, a Xinha, a Paula Raposo, o Zé “Prisas” Amaral, a Fatyly, o The OldMan, a Kalinka, a Isabel Filipe, a Didas, a Menina Marota, a Professorinha, a Fernanda, a Psique, a Elipse, a Poesia Portuguesa, a Fata Morgana, a Madalena, a Cainha, a Andreia do Flautim, a Irneh, o Quim, a Emília, e toda a família que andam nos blogs vezes sem conta desencontrados. A outros que por aqui passaram em silêncio e por respeito, também.

É a todos vós que dedico este dia vinte e três.

21.8.07



"Pudesse eu não ter laços nem limites,
ó vida de mil faces transbordantes,
para poder responder aos teus convites
suspensos na surpresa dos instantes!"

Sophia de Mello Breyner Andresen


Hoje vim falar contigo a sós um bocadinho. Acenar de longe o gesto simples de rever-te, e lembrar quanta falta me faz o teu doce e meigo olhar ou o sorriso lindo com que me deixaste. São as saudades que não consigo evitar em tudo o que toco e vejo; um livro, um prato, uma camisa por ti passada e limpa. Este blog. A música ligada.

Sei que não é dia 23. Nesse dia terei uma excursão marcada aos vários cenários que mais recordo, e enquanto isto não me passar andarei pelos cantos do quarto vazio onde me encontro e escondo atrás do fumo dum cigarro. E mais do que palavras, soltam-se-me lágrimas que não consigo suster. Só de olhar p’ra ti, emudeço. Estrangula-se-me a voz e a alma. Parece que também morri.

Malfadada sorte a minha.



ps - Fico grato, Cinda, pelo vídeo (e por tudo). Assim como a todos a quem irei dedicar algumas palavras. Frágeis de momento, mas sentidas.

8.8.07

O FIM

Na vida ganha-se e perde-se. Correm-se riscos. Vivem-se momentos mágicos. Trágicos e nostálgicos.
O que me vai acontecer, contêm uma sensação esquisita. Um sentido de perda enorme e um frio na espinha que abalam todas as estruturas do meu ser. Como um descalabro ou um terramoto que deitou por terra muitos anos bons.

Até um dia, Amor.


Vou ter saudades do teu sorriso e dos teus pés pequeninos.
Vou ter saudades da tua mão amiga com que me afagavas.
Vou ter saudades de te acenar da janela quando partias.
Vou ter saudades da tua companhia.

Tantas, que ao dedicar-te este sentimento, me sinto nada só de as pensar.

6.7.07

O negócio da China

Hoje em dia é fácil percorrer trezentos e cinquenta mil quilómetros em dois segundos e três décimos.
E eu ao fazê-lo lá consegui descobrir o grupo económico chinês que está a tentar comprar o Benfica. São estes, os gajos:


Da esquerda para a direita: Joe Berardo, Jaime Antunes, Alberto João Jardim e Stanley-Ho. Muito provavelmenta caracterizados por Fátima Lopes ou Siza Vieira, já não me lembro.

Desde Marco Polo e a Rota da Seda, Mao Tse-Tung e a Muralha, ou Wenceslau de Moraes e Tokushima, que já não me lembrava dos chineses. A sério. Tenho lidado mais com outras chinesices, tipo loja dos trezentos. Mas este interesse repentino pelo meu Benfica faz com que medite seriamente durante este fim-de-semana sobre as minhas próprias capacidades mentais e faça um auto-diagnóstico à reacção neurótica.

Desde o choque tecnológico de Sócrates aos chocos com tinta comidos em Setúbal na semana passada que também já não me lembrava que os neutrões das tomadas que por vezes sou obrigado a mudar cá em casa me fizesse sentir aquele abanão tão sumariamente natural quando não se percebe nada de electricidade e de mercados financeiros sem pontos e vírgulas chegasse a este ponto.

No entanto, nestes últimos dias os choques têm sido demasiados para a minha idade e já não sei se aguento. O melhor mesmo, é ir pedir um pouco de açúcar mascavado e uma folhinha de hortelã à minha vizinha da frente enquanto espero que isto me passe.
Não sem antes de desejar um bom fim-de-semana a quem por aqui passar.

4.7.07

Os novos equipamentos do Benfica... estavam já previstos.



E há sempre uma forma diferente de ver a coisa.



Explicando um pouco mais da situação que para alguns pode parecer de gozo, estamos em crer que a escolha foi a mais acertada. Senão vejamos; o local onde está o centro de estágio do Benfica é no Seixal (que por acaso é onde moro), certo? E neste caso verifica-se que a ideia é ir mais longe na retribuição do apoio que esta população tem dado desde que aqui chegaram. E porquê? Porque na baía do Seixal, um dos nossos ex-libris são precisamente os flamingos. E os flamingos são cor-de-rosa, não são? Ok, siga.

Por outro lado, nestas coisas de mercandish ou lá o que é, convém o reconhecimento às mulheres mais bonitas do país. E as mais lindas, sem dúvida, são do Benfica. E todas elas gostam desta cor. Mais. Também pensaram nas crianças, e decididamente na minha neta Thita que é uma fã incondicional do cor-de-rosa só ultrapassável pelo amor que ela tem ao Glorioso. Além disso, tente-se imaginar a Pink Panther, a Barbie e o Ken, o Noddy e o Ruca, todos juntos, a cantar no Estádio o hino do Benfica vestidos cor-de-rosa.

Eh pá, não me venham cá com merdas…

23.6.07



Qualquer dia vinte e três de todos os meses são extraordinários numa celebração cá muito minha. Mas este, o de Junho, é mais ainda.

É o dia em que me dobro em emoções e onde o cúmplice olhar com que o vejo tem um significado especial. É o dia em que me engasgo e gaguejo. Um dia em que as palavras e os gestos se afugentam num coração a bater mais forte. Um dia a menos para a contagem final dos que já me restam, mas que vivo com enorme intensidade.

É a pieguice do costume. A dificuldade de encontrar a forma de exprimir o sentimento. O medo que um simples "Amo-te" não seja suficiente para demonstrar o carinho, a gratidão, com que se deve tratar com quem se vive.

Pikena!

21.6.07



Previsão do Tempo

Entrámos no Verão.
E este, a analisar pelo que corre no mundo e no país, vai ser um verão quente. Daqueles estaladiços como os “frades” que eu compro pela manhã, vindos da padaria em Casal do Marco.
A crer na meteorologia política, social e desportiva, isto vai ferver. E não há protectores solares que aliviem a agressão das temperaturas elevadas que se vão fazer sentir.

Como sou mais pobrezinho do que a maioria dos bloggers e avesso a grandes deslocações ao exterior, sinto uma camada de ar quente oriunda da região Ota-Alcochete. Prevejo, também, céu pouco nublado ou limpo a norte do sistema montanhoso Montejunto-Estrela devido à precipitação dourada onde podem surgir neblinas ou nevoeiros matinais se a coisa der para o torto.

No centro do país o aquecimento continuará com valores elevados já que o nosso Primeiro fez questão de lavar a sua honra no mar encrespado do Portugal Profundo. Os ventos podem soprar moderados se o falso engenheiro não fizer subir nas terras altas a temperatura máxima que deve rondar os três graus académicos.

Mais a sul os ventos podem soprar a muitos quilómetros por OPA e não existem colecções que façam baixar as ondas que podem atingir alturas ideais para a terceira idade. Aguaceiros fracos podem surgir na capital devido a ares quentes vindos da região centro, onde Telmo Correia explicará os trinta e três mil e duzentos caracteres que Carrilho ainda tem na gaveta.

Nas regiões autónomas, vento em geral fraco com ligeira subida de temperatura caso se verifique que o Alberto João possa ser ressarcido dos valores orçamentais da Madeira. A temperatura da água do mar manter-se-á, apresentando-se boas abertas em todo o território se o gajo ainda continuar a mandar em tudo aquilo.

4.6.07



Uma pa mim, Ota pa ti

Desconheço o plano, o contexto, o impacte ambiental que uma obra desta natureza pode conter e/ou alterar. No entanto, qualquer coisa me diz que a não queria ver enraizada e construída aqui. No deserto. Mesmo-mesmo de braço dado com a nova designação que a cidade onde vivo adoptou: Al-Seixal.

Por isso, não ando a dormir bem e respiro ainda pior. A visão também não anda lá grande coisa desde que deram o nome sui generis de “Caixa Futebol Campus” (!) ao Centro de Estágio do Benfica e a sacana da Sul-Fertagus nunca me deixar chegar a horas ao trabalho nos domingos e feriados. Não sei… parece-me que a criatividade, a competência e o bom gosto, sofreram alterações que me é difícil aceitar. E ver todo este país nas mãos de engenheiros e arquitectos, também não ajuda muito.

Ainda se me dissessem que a excentricidade cria talentos e desenvolve a sociedade, devolvendo poder crítico e soluções alternativas, tudo bem. Agora a malta assistir, impávida e serena, às preocupações do Cavaco sobre a matéria e não aproveitar os direitos que (ainda) temos para fazer vincar as preocupações e dificuldades que a maioria de nós estamos a passar, isso tolero menos ainda. Mas o elo mais fraco deve ser a minha visão – fraca – de ver as coisas.

Não deve tardar muito os blogs a favor da Ota e do Poceirão hão-de esclarecer as dúvidas. Ou então, os interesses privados e os fazedores de opinião não tarda nada colocam tudo em pratos limpos.

Cá para mim, mandava-os todos p’rá Madeira. De lá é capaz de se ver melhor...

30.5.07



Esta brincadeira dos blogs tem coisas giras.
Estarei a lembrar-me de no século passado, os mais antigos nestas andanças (os meus amigos brasileiros), faziam da blogosfera dessa altura a moda do célebre FlashBlog; um momento único em que um blogger estava vinte e quatro horas à frente do teclado a editar o seu blog com tudo o que lhe viesse à cabeça. Desde música, arte, literatura, culinária, poesia e outras coisas que não lembravam ao diabo, para animar um dia como outro qualquer a rapaziada que por lá passasse. O/a desgraçado/a tinha que ali estar de noite e dia a animar os visitantes e que, ainda por cima, era obrigado/a a responder aos comentários que se faziam chegar. Chegaram a ser às centenas.

No final, provavelmente exausto/a e bem tocado/a, o/a pobre diabo passava o testemunho do próximo ao visitante mais participativo e, a coisa por assim dizer, passava de blog em blog até a malta se aborrecer e partir para novas iniciativas. Claro que copiei a ideia. E como na altura os blogs portugueses estavam mais virados para a guerra do Iraque, a brincadeira nem de perto nem de longe teve o sucesso com que a minha amiga Civana fazia o dela. No entanto, com os vinte ou trinta, já não me lembro, que por lá se fizeram representar, divertimo-nos à brava.

Isto vem a propósito de quê?
Vem a propósito que o meu amigo António Peciscas se lembrou de me atribuir, e a mais outros quatro bloggers, o prémio “Blog com Tomates”. É mais uma cadeia que rola em cadência nas pessoas que se tornaram amigos pela escrita. Agora para dar continuação à coisa, já é mais difícil. Primeiro, porque escolher alguém que nos toque mais de perto e que “lute pelos direitos fundamentais do ser humano”, como refere a origem desta menção, é complicado. Segundo; designar cinco que conheçamos já é mais fácil, mas peca pelo número escasso que nos é permitido nomear porque são imensos. No entanto, as minhas nomeações para receber este Prémio são:

- Tupiniquim

- Memórias do Cárcere

- Sidadania

- SolidariedadeBlog

- Netescrita

Mas haveria mais. Muitos mais, que fazem ver que vale a pena lutar pelos direitos e conquistas contra as desigualdades, injustiças, precaridades e desenquadramentos que presenciamos a toda a hora. Quer na saúde, no ensino, na justiça.

23.5.07



A Candidata

Esta candidata, parecendo a mais fácil de todas, é a mais difícil a quem posso contrapor o que quer que seja de irrazoável.
Para além de ser a suposta eleita que fará com que o meu círculo de vida termine com dignidade, é a “pikena” que mais pachorra teve nos meus excessos e conceitos. Os meus filhos sabem disso, e nada melhor que um dia vinte e três para dar a conhecer certos parâmetros. Desenganem-se todos aqueles que possuem de mim um retrato colorido.

Sou intolerante, ditador, tipo de gajo que acredita que o pensar dele é o mais certo. Considero-me atrevido e sem funções qualificadas, esperto ou parvo consoante os dias em que se vai sobrevivendo. Penso ser ateu, de esquerda (ou o que isso queira dizer), e ainda creio no Benfica e na boa-vontade de toda a malta em quem acredito diariamente. Mesmo, mesmo, desde pequenino. No entanto, todos os defeitos de quem ama alguém ou alguma coisa acompanham-me desde que nasci.

Sempre gostei de pobres, de animais abandonados, de causas perdidas. E hoje em dia, mesmo sabendo que as pessoas conotam e avalizam pelo que ouvem ou lêem nos blogs, não temo dizer à boca cheia que gosto de crianças. Pode provar-se pela família numerosa que consta no meu registo paternal, pelas lutas laborais e políticas que travei, pelos cães que sempre tive e gatos que agora tenho. Pela vontade com que me dispus ajudar, logo que possa, os que estão mais à rasquinha.

Pode trair-me uma paragem cardíaca, o vinho alentejano, a visão que tenho das coisas falsas. Podem trair-me as horas extras de trabalho ou as sensações que concluo serem normais em dias a que não posso responder. Mas o que nada me pode trair, é a certeza que tenho nesta minha candidata que me promete, e cumpre, um final feliz.

17.5.07



O Candidato

Para o melhor e para o pior, qualquer português é um eterno candidato.

Retratando-me pelos que já conheço, sei de fonte segura que desde o início do crescimento dos primeiros pêlos da futura barba que muitos depois passam a odiar, somos logo candidatos ao melhor partido da terra; ou seja, a miúda mais bonita que alguém alguma vez já viu. E temos largas experiência no assunto; fomos candidatos ao maior pão com chouriço do mundo, aos maiores fundos comunitários e, a crer no desafio de Blatter, somos candidatos a um dos próximos Campeonatos do Mundo de Futebol. O que me fez logo relembrar noutra vertente, o Benfica; o candidato a maior galáctico à face da terra.

Pelo sim pelo não, e entretanto, o termo candidato é “aquele que aspira a emprego ou dignidade; o que solicita votos para ser eleito para um cargo”, diz o dicionário. Mesmo que o cargo não dignifique toda e qualquer candidatura, mesmo assim, gosto da expressão. Soa-me a cândidas promessas, infelizmente candidatas a caírem em saco roto, como qualquer candidato que se preze gosta de salientar nos seus desaires.

Para quem conhece bem o país e os portugueses, não pode desmentir que numa simples matança do porco a candidatura de haver festa começa logo antes de trazerem o animal da loja, onde provavelmente nasceu, e no qual era o candidato número um para o destino que lhe estava reservado: presunto, salpicão, chouriça. Febras, coiratos e rabinhos com feijão encarnado.
Tal como um tipo qualquer, a acontecer num simples bailarico de aldeia, se se meter com a nossa namorada candidata-se a levar um murro nos cornos e a sair dali em maca. São assim mesmo os candidatos, e não há volta a dar. Porque falar dos ditos nos tempos que correm, qualquer estudante em disciplinas abrangentes e contemporâneas, candidata-se à nota máxima. Tudo pela urgência da teoria. Tudo pela mensagem que um candidato a qualquer coisa quer fazer passar.

E neste caso, não sei se fiz passar a minha. Quer a mensagem, quer a candidatura. De qualquer das formas, e até ver, permito-me pensar que me candidato a que ninguém passe cartão aos disparates de um candidato a candidato. Depois de ler o que um que nunca o foi tivesse dito:

"O pior analfabeto é o analfabeto politico. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, (...) do sapato e do remédio, depende das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e enche o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista. O charlatão, o corrupto, o lacaio, os exploradores da malta que vota neles."
Bertolt Bretch

24.4.07



Por vezes me interrogo se comemorar Abril ainda fará sentido.
A distância que me separa de 1974 é cada vez mais longa. A imagem menos nítida. O som das botas na calçada menos sonoro e estou a envelhecer ao lado duma esperança que nunca dali saiu.

Falta-me o vigor dos vinte anos com que assisti à queda do regime. Perdi já o fulgor da juventude entusiasmada naquele sobe-e-desce constante pelas ruas de Lisboa. Deixei de ver realizadas as promessas que a nova ordem das coisas apregoava.

Em dados momentos, é-me desagradável constatar que perdi o rasto dos poetas e dos pregões. É-me penoso pensar que, passados trinta e três anos, o meu povo continua cómodo e casmurro. De cinzento vestido. Desgarrado e triste. Obeso de formas consentidas.

Em mim entristece-se-me a figura. Falta-me o brilho dum olhar novo. Rareiam as causas em que acredito.
Provavelmente, estarei azedo. Desiludido e parvo.
Mergulhado talvez na dúvida se Abril ainda terá razão de ser.