23.4.09


“Recordar a felicidade, já não é felicidade.
A recordação da dor, ainda é dor.”

Lord Byron

18.4.09

18 d'Abril

Curiosamente, o título poderia sugerir uma Colectividade de futebol ou desportos radicais. Podia muito bem ser uma marca de cervejas, uma cultura neo-liberal ou um relógio em vidro da Marinha Grande. Mas não é!

Abraça apenas uma data simples que marca o tempo do “Happy Birthday” em triplicado. Um longo e saudoso tempo. Saudoso e demasiadamente longo para quem, como eu, viveu o fado/destino tão fortemente enraizado na terra onde nasci.

E se assinalo hoje essa data, é tão-somente porque prefiro a obediência de pensar em tudo o que foi belo e bom, contrariamente aos outros dias de vinte e muitas horas de sombras e noites perdidas.

Quem sabe se partir hoje para parte incerta seja um bom começo?

15.4.09



A riqueza de um homem só, pode pesar-se pelas decisões que tomou. Pelos caminhos que leva. Pela vida que passou.
A sua própria pobreza pode avaliar-se pelos tombos que deu. Pelas pedradas nos charcos dos jardins das ilusões.

O que resta saber é se valeu a pena!

11.4.09

Isto está mudado, bolas.
Já cá venho para celebrar o meu Abril e dar uma palavrinha aos amig@s.
Só para não dizer que não mantenho uma pequenina chama acesa no que consiste em não me dar por vencido. Isso era para o Eça e outra malta que escreviam coisas bonitas e reais.
Primeiro vou abrir janelas e arrumar a casa. Mas vai com tempo que eu não tenho pressa.

Fiquem bem!

14.12.08


O sapatinho dos outros

Pelo segundo ano consecutivo ainda não consigo ter Natal.
Mas pior do que não ter Natal, é este sufoco que não me larga. São as muitas recordações que não dispenso. É toda uma panóplia de incertezas que até a própria crise se encarrega de me lembrar.

A própria visão que tenho do mundo, anda agora distorcida. As outrora luzinhas de Natal já não piscam. O olhar espelhado em cores garridas já não convence e, muito provavelmente, não serei a companhia ideal para acompanhar a Noite de Natal à mesa da família.

Resta-me dar a volta à coisa, e minorar os efeitos desta angústia que me invade.
Por isso, sou muito bem capaz de ir deixar no sapatinho dos outros uma palavra de amigo. O gesto que me habituei a ter com todas estas virtualidades dos blogs. Aquela presença que a muitos sempre dispensei com total agrado, retribuindo todas as palavras de estímulo e de esperança que tiveram a gentileza de me enviar.

Talvez seja a melhor forma de poder ultrapassar este luto que se arrasta: verificar por quantas cores se multiplicam os sapatinhos na chaminé de cada um.

15.9.08

Blogagem Colectiva para Flávia em 9/Set/2008

Justiça para Flavia



Uma onda de solidariedade corre, hoje, todo o oceano Atlântico. E eu, comprometido com tudo o que sejam causas nobres, não podia deixar de levar-me por essas águas revoltas que beijam a outra margem do Mar.
Para quem não sabe da história, a Flavia é uma menina brasileira que aos dez anos de idade teve um acidente numa piscina devido, segundo consta dos autos do processo em que a Odele se tem empenhado, os seus cabelos serem puxados pela sucção de um ralo deficiente. Ficou com mazelas irreversíveis e, passados dez anos, continua em coma sem que a Justiça brasileira tenha aferido os pratos da balança.

Esta podia muito bem ser uma das nossas estórias neste Portugal pequenino. E temos tantas…. No entanto, ao juntar-me a esta magnífica e simbólica rede de amigos, não pretendo referir-me à lentidão da Justiça – porque todos já nós sabemos que ela existe de facto, ou tão pouco às indemnizações irrisórias que os responsabilizados pelo acidente foram condenados a pagar, mas para o qual a Odele já recorreu.

Aos milhares e milhares de quilómetros que nos separam, ninguém imagina a estima e admiração que tenho pelas duas. A Odele, a mãe, nunca se deixou abater, mesmo que se calcule quanta dor e sacrifício já passou. A Flavia, essa filha incrível de olhos lindos, quase imóvel durante uma década, também não desiste de lutar porque, algures no cérebro dela, ainda existe um restinho de esperança de voltar a ver a Mãe, a família, os amigos, o Mundo.
Ao contrário de mim, para quem sabe do meu degredo, elas são duas Mulheres sem preço. Duas Mulheres sem medo. Dois seres humanos de excelência. Tomara ter eu a metade da vontade de ir em frente como elas têm.

Como tal, se da força que possuem conseguisse ultrapassar os meus próprios dilemas, poderia simplesmente desejar que os objectivos a que a Odele se propõe fossem consagrados. Por isso, e são do coração estas palavras, se houvesse porventura alguma possibilidade através de todas estas novas tecnologias da Ciência, era de bom grado que trocava de lugar com a Flavia.
Era a mínima Justiça que da minha parte podia repor. Rapidamente e desassombrado.

22.5.08




Desculpem


Sinto-me em baixo, e não vejo forma de me animar. Por consequência, ando um pouco “bicho-do-mato” e tenho descurado as pessoas amigas. Não levem a mal. São coisas minhas sem a leviandade que isso possa fazer supor.

Recuso-me a arrastar para o meu recato quem quer que seja. Mais a mais, enfrentando o paradoxo de querer saber de todos e não ter a coragem de o fazer. Tipo monge budista que se enclaustra, até que passe a estranha sensação de que tenho os dias contados. O futuro rasgado. O presente em maré de pouca sorte.

Nada prometo para não falhar. De qualquer forma, quero deixar claro que, em todos os “sinais” que tenho de todos, e em que cada uma das amizades desta brincadeira dos blogs se encaixa, o meu pensamento vai direitinho a elas. Sejam do Porto, de Guimarães, de Vila Franca, do Barreiro, S. Domindos de Rana, da Avenida de Roma, ou de todas as Margens Sul onde (ainda) é bom sonhar. Inclusive, naquele Recife de onde se pode ver as Princesas que nunca nos cansam.

Quando passar, talvez a gente se veja por aí.

17.4.08

Amargos de véspera

O 18 d’Abril sempre foi um dia especial para alguns da família que me resta (os meus netos - Thita e Lourenço - mais o meu irmão. Fazemos anos no mesmo dia.). E quando se acasala os 54 anos da minha existência com os últimos dígitos da década em que nasci, é de fazer contas à vida.
Como sucede a qualquer um, perde-se e ganha-se. Tem-se sucessos e fracassos. Lida-se diariamente com a sorte e o azar (por muito que digam que isso não existe), e fazemos tudo o que possa estar ao nosso alcance para que a coisa resulte em favor de todos quantos amamos e gostamos.

Mas quando em menos de três tempos se perde duas das Mulheres que marcam a nossa vida e muitos aniversários, as contas saem furadas e não é motivo para andar aos pinotes. No entanto, sobram vários outros motivos que as pequenas tragédias singulares também afectam: os Amigos!

É para eles todos que tenho que ter uma palavra de carinho. Um abraço apertado. Um “despir” da capa com que sempre andei; a de me fazer capaz de ultrapassar os momentos mais delicados que pode acontecer a muitos de nós, e que traduzimos em forma de escrita o que nos vai no pensamento. Eu, de momento, já não consigo. Mas de qualquer forma – e eu sei quem são - sempre que precisarem de mim responderei PRESENTE!

Mesmo que seja no som do meu silêncio.

5.2.08



Mãe,
quando me deste ao mundo ainda não existia Internet ou blogs e nunca poderias supor, ou imaginar, o futuro que me estava reservado. E eu, que desde pequenino me aventurei a lidar com todas as adversidades do meu e do teu tempo, vejo-me aflito para explicar este teu abandono temporário aos sete netos que, como filho, te dei a conhecer.

Sabes que com palavras sou um fracasso. Sou mais daquele olhar com que se consegue introduzir uma atenção. Um mimo. Um chuchar na teta que me amamentou durante largos meses. Ou um retrato com que se fica de quem sempre nos ensinou a melhorar a sorte que nos calhou. E hoje, consigo colocar-te na posteridade com todas estas tecnologias que por vezes nos confortam com amizades que não vemos, mas sabemos que estão cá.

Já tinha perdido o Pai.
Perdi o calor da cama onde dormia.
Agora perdi-te a ti.

Que mais me irá acontecer?, é o que apetece perguntar.

Provavelmente, serei eu a seguir. Mas juro que não quero levar ninguém atrás.
Irei sozinho um destes dias ter contigo.

Descansa em paz, Mãe!

2.2.08



A morte que me matou
foi à traição.
Sem avisar.
Esventrando-me a existência
dos poemas que fazia
com raiva de cão.

A morte que me matou
não tem sentido.
Fez-me perder o rasto do caminho
e as palavras
que da boca com que ria,
dizer já não consigo

De seguidas luas e noites
não sei dos trilhos onde passou.
Caíram-se-me os abismos.
Quebraram-se-me os vidros
e as portas abertas dos meus muros.
Apenas sei que foi dela a morte que me matou.

27.1.08



O paladar dos (dis)sabores

Um destes dias, ao entrar no vão da escada do prédio onde agora moro (mudei de casa) pressenti um aroma familiar nos primeiros degraus. Quase que posso dizer que estive muito perto do que perdi recentemente. Mesmo ali, ao estender da chave nova que trazia numa das mãos, e senti que as interligações com o imaginário podem fazer sentido.

O cheirinho que irmanava da refeição a confeccionar naquele rés-do-chão, era o dela. O modo e o trato com que se cozinham alimentos eram iguais, e pensei; “estás a passar-te!”
Mas não. Passei foi o resto dessa noite a tentar imaginar o que poderá ser o futuro que não tenho neste 1.º andar onde agora vivo . A pensar no que vai ser a vida de mais uma neta que vou ter. Nas melhoras da minha velha mãe. Nos filhos. Nos outros, a quem trato por amigos, e me vou cruzando esporadicamente por aqui.

Julgo ter aprendido saber que nada sei. E de certezas, ninguém pode afirmar que as tem todas. No entanto, ensinaram-me que determinadas coisas que acontecem na nossa própria vida fazem com que as sensibilidades se tornem mais apuradas. E continuo a lavar-me em mágoas que não consigo evitar, e que jorram do local que dá mais no sítio de onde se pode ver o mundo. Umas, límpidas e joviais pelo sucesso e alegrias de gente com que me acostumei a conviver (a lista, felizmente, era enorme). Outras, são de saudades que o caminho para a velhice molda este pensar. O andar de modo diferente, com os olhos cabisbaixos, à procura do que já não se encontra em qualquer esquina. Um filme que passa em quinze segundos sem intervalo e sem aquela publicidade que arrelia.

De qualquer modo, continuo a recusar-me sequer imaginar que o Livro da minha vida acaba aqui. Mas, por outro lado, sinto que não consigo libertar-me de tal castigo. Parece que criei raízes onde a terra já não dá nada para crescer. Que já não oiço o que o meu Mar murmura, e que as rosas que apanhava para oferecer daquele jardim, sumiram. Ou até aquela Lua que tão bem conheço, se cansou de aparecer à janela onde dormia.

Talvez seja do quarto novo. Ou da coberta onde me enrosco de noites sem ninguém.
Pode ser até das coisas novas a que não estou acostumado. Talvez seja do paladar dos dissabores…

29.12.07



O Natal que (nunca) tive

Por escolha pessoal, este foi o ano com um Natal que nunca tive. Nem mesmo em criança, quando as dificuldades dos meus pais eram gritantes e que mesmo, de qualquer forma e com muito sacrifício da parte deles, havia sempre umas prendinhas na chaminé junto ao sapatinho que o meu pai nunca deixava deteriorar, já que era mestre bate-sola, e uma mesa pobrezinha mas bem composta no tempo em que o bacalhau era o prato favorito dos menos prósperos.

Por outro lado, recusei educadamente todos os convites e quis passar pela experiência de não ter natal. Masoquismo? Talvez não. De que outra forma poderia entender aqueles que estão “obrigados” a não tê-lo há muitos anos e tentar explicar aos netos e divulgar experiência tão dolorosa? De que outra forma, se pode sentir na pele a triste realidade do meu povo sofrido, como diz Elisa Lucinda?

Serviu-me de exemplo.
O olhar para uma mesa vazia faz doer os olhos. Dar pela ausência de pessoas a que se está habituado, estranha-se e rasga-se qualquer coisa em qualquer um. O facto de ter, ao menos, um tecto protector não ajuda muito ir lá mesmo ao fundo. Faltou o andar na rua, ter o nevoeiro a tapar a visão, e sentir o frio e a chuva a fustigar o rosto de todas as esperanças que pudessem ainda restar de que apenas se esteja a sonhar.

Muito provavelmente, na passagem d’ano vou mudar de rumo. Socializar-me. Enfrentar o novo Ano com uma réstia de confiança que me faltou nestes últimos quatro meses.

Até lá, a gente vê-se por aí.

Sucesso, saúde e sorte, é o que me apraz desejar a todos quantos passarem por aqui. Aos que não passarem, também.

23.12.07



Era nesta antevéspera de Natal, em mais um dia 23, que se me colavam aos olhos águas fortuitas.
Era neste dia que se espalhavam aromas e paladares por aquela casa, que só ela sabia fabricar.

Hoje, já nada resta.
Vazio o espaço. Mesa sem nada sobre a toalha bordada à mão, com imensas recordações para poder contar. Mas não consigo.

Talvez aguente a nostalgia ao ir passando pelos lugares de amigos que descobri com esta brincadeira séria nos espaços pessoais.
O que não consigo é quebrar o gelo desta saudade. Desta amargura que se me enrola na garganta quando trinco qualquer guloseima de Natal que ELA fazia.

Até a pena lírica com que escrevinhava sensações se quebrou. Evaporou-se a tinta e acabaram-se-me as folhas frias de papel nestas noites que ficam demasiadamente longas. Frias. Sem telhado onde me abrigar porque, ao que parece, o meu Pai Natal estatelou-se na visita que fazia todos os anos à nossa casa.


Resta-me a vontade e o consolo de vos ir vendo por aí.

Até sempre.

16.12.07



Provavelmente... é Natal!


Provavelmente, à medida que o tempo vai passando, os dias que se seguem trazem solicitude, amargura e saudade no que me toca, e coisas felizes em outras gentes a quem a vida quis que fosse assim.

Provavelmente, à medida que o tempo vai passando, nunca quis que os caracteres deste teclado, nesta conjuntura de escrever às pessoas que não conheço sem ser virtualmente, se apagassem com a humidade que jorra dum sítio que não digo. Que as palavras que escrevo, parvamente e taciturno, se diluíssem no vazio duma quadra que para mim não faz sentido num ano de lençóis frios. De cama e mesa vazias. De janelas onde antigamente piscavam luzes.

Provavelmente, à medida que o tempo vai passando, soltam-se e saltam crianças e casais felizes a estas horas deste Dezembro gelado. Risos e abraços que não consigo partilhar, com pena minha, nas casas abertas onde estes últimos anos mantive um laço mais apertado, e aonde não me cabe entrar. Por respeito e admiração. Por privacidade alheia. Não ser incómodo é a palavra certa, e há um nó que me atravessa a garganta quando utilizo as teclas deste velho e enferrujado computador.

Por isso, cabe-me desejar daqui a todos um Bom Natal neste meu espaço que se tornou triste.
E muito provavelmente, resta-me passar o meu da melhor forma que puder, desejando a todos quantos passam por aqui que estejam melhores que eu na minha maior prova de fogo: sem Pikena, sem Mãe (internada no Barreiro), sem filhos e netos (estou a trabalhar) e, provavelmente, sem a visita do barbudo da Patagónia. Ou mais alguém , a quem a vida, temporariamente a esta hora, não está a sorrir da forma mais conveniente. Mas só a curto espaço, acredito eu.

De qualquer forma, vou abraçar-me a esta facilidade de entender.

23.11.07



23 de Novembro

Todos os dias vinte e três são, ou eram, especiais. E o dia 23 de Novembro é uma data como outra qualquer para qualquer um. Mas para mim tem um significado deveras especial. Foi o dia em que mudei de vida já faz anos. Que arrumei de vez (pensava eu) as minhas traquinices inocentes e as loucuras mais maduras que um tipo da minha idade possa ter. Mesmo com o pijama vestido e os chinelos de quarto já calçados, enganei-me.

Por muito desenrascado que possa ser, ELA faz-me falta. E hoje mais que nunca. Basta pegar no ferro de engomar. Tentar decifrar todos aqueles botões das sofisticadas máquinas de secar roupa que nunca percebi, ou a de lavar loiça de um jantar onde se falava de tudo e mais alguma coisa.

A gata e os periquitos olham-me de soslaio. Inclusive, ter uma conversa passional num transporte público já me incomoda e estou a perder a paciência ao resguardar-me o mais que posso.
Os vizinhos tentam confortar-me. A rapaziada dos blogs têm sempre uma palavra de estímulo e encorajamento que me vão dando algum alento, e não me poderei queixar. Mas, de qualquer forma, queixo.

Queixo-me da vida. Da sorte. Do sacana do futuro que já viu dias melhores.
Não há nada a fazer.

3.11.07



Comovidamente alertado, como já me fez saber uma pessoa amiga, aproximam-se a passos largos datas “trágicas”. Uma já passei (o dia dos entes queridos), com o coração quebrado e a sangrar por vários lados. Aproxima-se outra, a vinte e três; a (ex-) celebração de mais um ano no desenrolar de duas vidas passadas em conjunto e ternamente enriquecidas.

Se passar essa… então, posso afirmar que sobrevivo. Que resisto. Enfraquecido, é certo, mas estoicamente a lutar para não me deixar vencer. Faltar-me-ão ainda mais. Aquelas onde todos juntam sorrisos largos. Crianças felizes. Perspectivas de um futuro mais risonho e muitas luzinhas a indicarem mil caminhos.

Talvez piores, serão as noites frias. Gélidas. Onde mais se vai fazer notar um vazio que não suporto e que me apertam entre quatro paredes caiadas de escuro. Uma mesa solitária sem cadeiras. Os pratos limpos. Uma toalha estendida sobre nada.

Uma cruz que tenho de carregar durante a vida que me resta.

27.10.07



Pesadelo

Por muito que pese a vontade de ultrapassar as coisas mais desagradáveis na vida de qualquer blogger, a coisa não é fácil. Tenho experiência disso e acompanhei, ao longo destes cinco anos que já levo nesta brincadeira de comunicar por esta via, determinados casos reais. Gente com quem contactava regularmente e se finou. Outros que se fartaram. Pessoas que acompanho mensalmente e têm problemas de saúde. De carência afectiva. De solidão. Arriscaria até, em alguns casos, de amor. Outros mais inadaptados, curiosos, refugiados em silêncios que ninguém entende, lá vão levando a água ao seu moinho.

O meu caso é dos mais banais; a Pikena foi-se e acabou.
Fiquei eu aqui. A falar e a escrever sozinho. Impávido e sereno, a cantarolar uma música qualquer ao ir abrir a caixa do correio na esperança que possa compreender alguma nova que me possa devolver o raciocínio de saber que não morri. A vasculhar notícias na Globo, na TSF, jogar os meus trunfos de memórias perturbadoras que me assaltam de noite em casinos virtuais, e saber os resultados da última jornada de futebol. Depois acabo no espreitar do que escrevem os nocturnos. Noctívagos de uma só pernada de pinheiros altos. Que comunicam de qualquer forma o seu estado d’alma e que tenho linkados ali ao lado ou encontro por acaso.

Depois vou à rua comprar pão. Com a barba por desfazer e tentar não me anular. Despejo o lixo que me sobrou. Restos que me não chegaram a satisfazer uma vida que não pedi e não dá para repartir com o que já perdi. (a nossa Becky, mais a dona).

E aí vou eu, ao encontro duma esquina que me esconda. Disfarçando toda uma raiva num simples pedido dum pé de salsa ou de hortelã à senhora do minimercado. Aquele onde gasto os últimos tostões do curto ordenado que se fosse pago em tristeza dava para sustentar todos quantos passam por aqui.

Resta-me a saudade de ajudar a mudar a cama de lavado. De pintar a casa. De arrastar os móveis quando a ela lhe dava na cabeça fazer obras. De ver-mos o Benfica juntos. Atirar-lhe uma flor para a janela quando estava à minha espera. Dormirmos agarrados num aconchego dum calor que era só nosso quando o frio chegava mais cedo e apertava as emoções. Aquele cheirinho. Aquele sorriso. O afago daqueles dias de “hoje não me chateies que dói-me a cabeça”.

São tudo coisas que estou a tentar ultrapassar facilmente.
Tal como, ao olhar as paredes brancas e geladas desta casa, tentar ser um grandessíssimo aldrabão e acabar por me convencer que tudo não passa duma noite mal dormida. Ou pesadelo.

22.10.07



As tragédias não têm necessariamente serem só gregas. Ou de Dickens, Dostoievsky ou shakespearianas. E os desastres emocionais que afectam estruturas que se julga serem sólidas – quer sejam pessoais, políticas ou económicas - destroem qualquer país. Qualquer família. Qualquer pessoa.

Temos os exemplos no Darfur, no Sudão, no Iraque. Sabemos pela História que os genocídios de 1918 e 1945 (Hiroshima) provocaram, e que ainda se sente, dor e sofrimento a quem sentiu na pele a situação. Titanic, Coreia, Vietname, Chernobyl, também ficaram na memória. Tal como o terramoto de 1755, as tragédias de Shansi, Sumatra, Peru, Irão. Isto só para relembrar alguns dissabores humanitários.

À escala do que cada um de nós possa imaginar, a vida de um viúvo não foge à regra. Regra que não sei explicar neste universo complicado que é o ser humano, e que mexe com o interior da nossa alma. Entra-se num conflito interno com forças que não sabemos medir a intensidade, nem os danos colaterais que provocam. Depois andamos de rastos. Com tendências para os disparates que só lemos nos jornais da manhã mais próxima.

Por isso, amanhã, vou viver mais um dia vinte e três. No silêncio de fazer contas à vida. Sem rumo. Talvez sem nexo. Apenas com a certeza que o que se abate de mais negativo nesta data, passe depressa. Nem que me tenha de afogar por uns tempos numa das baías deste rio Tejo que tanto gosto. A do Seixal. Onde o passado que mereço me destinou.

13.10.07

Palavras soltas


Seixal - Foto A. Caeiro

Tal como em circunstâncias adversas, os sentimentos que nos arrastam para dentro dum cemitério valorizam-se. Ali está tudo. O princípio e o fim. O nosso lado melhor. O mais fiel e escondido retrato que nunca ninguém vê. Tudo o que somos transparece de forma delicada. Rendida. Perante muitas coisas que não saberei nunca explicar.

A um metro e meio abaixo do chão que pisamos, jazem pessoas queridas. Corpos inertes que deram vida. Lajes que testemunham histórias e percursos e flores. Muitas flores.

Dos sítios onde me sinto agradavelmente calmo e tranquilo, aquele lugar será um deles. A par da beira-rio onde consigo ler e imaginar o futuro e que não tem necessariamente de ser um lugar mórbido ou triste. Um recanto onde se lavam as mágoas em choro compulsivo. Recuso-me a pensar assim.

Olhando os visitantes, apercebo-me que nutrimos um especial carinho uns pelos outros. Solidarizamo-nos com as perdas dos entes queridos e conversamos em surdina como se pertencêssemos a uma única família. Trocamos olhares cúmplices. Sorrisos amarelos como as pétalas de rosas esquecidas.

Venho de lá sempre emocionado. Com menos um bocadinho da minha própria vida. Mas ao falar com a pedra fria que esconde um dos meus tesouros, rendo-me à evidência que a lei da vida e morte é mesmo assim. Como as palavras tolas e soltas que este coração dita cá p’ra fora.