19.3.07

Dia 19 (clique para ouvir Chico Buarque)

Lembrar-me do meu pai não é difícil. Cada vez que o faço recuo no tempo e chegam-me à memória retratos de família: aquele afago, um carinho, um chupa-chupa como prémio por me ter portado bem.
Homem simples de raiz alentejana, marcou-me sempre. Quase anónimo, pobre de finanças e analfabeto, batia solas em busca do sustento e fazia versos que não escrevia. Cantarolava modas da sua terra de Odemira e vivia um dia de cada vez.

Sabendo da importância que uma mãe tem na vida duma criança, do pai fica quase tudo. Copiamos a figura. Imita-se-lhe os gestos e segue-se-lhes as pisadas. Mesmo depois da incontornável separação que a própria vida nos impõe em dada altura, o pai é sempre a primeira moldura que se vê quando se abre a porta da nossa nova casa.

Por isso, hoje recordo o meu.
Arrependido apenas por não ter conseguido viver mais tempo ao seu redor e, como sempre nas limitações dos mortais, não poder voltar um pouco atrás.
Mas nada podia fazer. A morte levou-o cedo.
Cedo demais, presumo eu.

14.3.07



“Hoje não me apetece escrever” podia ser um resumo simples que serviria apenas para optimizar a actualização do novo blogspot que só veio complicar. Mas não é. E não sendo um tipo de falar muito, há sempre qualquer coisa que me atrai nas palavras. O sentido, o significado, o som e a cor que elas transmitem deixam-me para aqui a ler e a escrever sozinho.

Por ordem das coisas, passados que foram já uns anitos, os blogs vieram substituir as minhas bic laranja e bic cristal. As minhas folhas A4 e a minha velhinha máquina de escrever. Nessa aturada fase de afirmação pessoal eu era um ditador. Era tudo meu, como acabei de confessar, e até os disparates que escrevia ficavam escondidos para mais ninguém os ler.

Actualmente tudo mudou. Desnudei-me de certas peças. Despi-me. E mesmo que não se veja nada de extraordinário e os disparates continuem, sinto que a inaptidão ao mundo escolar de outrora, em certas áreas, podia ter sido melhorada caso tivesse a sorte de ter Professores como a Emília Miranda.

Isto quer dizer o quê?
Quer dizer que havendo vida para além de Marte, existe também uma realidade que o jet set dos bloggers, como lhes chama o nosso conhecido Jumento (link ali ao lado), menosprezam ou votam ao ostracismo: os blogs editados por crianças e para crianças. O Netescrita, entre outros que fui descobrindo, é um deles e um exemplo.

Com a particularidade daqueles putos andarem nestas coisas há três anos.
Parabéns Emília!
Parabéns Netescritores!

10.3.07



Depois de ter passado o meu tempo primaveril a tentar focá-las (para não utilizar outro palavrão sexualmente mais desonesto), reconheço que a Mulher é, foi, e será sempre, uma pessoa fundamental nas nossas vidas. Os bloggers mais jovens que se pronunciam sobre estas coisas podem vir a descobrir isso mais tarde mas, posso deixar já registado que, quando chegarem a essa conclusão, provavelmente, já terão meninas pequeninas a quem querem dar o melhor para o futuro delas.
Aí, vão ter que contar com outras já maiores. As tais que escolheram para companheiras duma vida.

Pensando bem, uma pessoa nasce e cresce com a atenção e os cuidados duma Mulher, certo? Seja mãe, tia, avó, a vizinha da frente ou a que estiver mais à mão. Qualquer de nós, homens, teremos sempre uma relação forte com uma Mulher para contar, historiar ou definir. Quer seja no bom ou mau sentido.
Uma Mulher pode marcar-nos a ferro e fogo. Por acréscimo ou defeito, uma Mulher pode acrescentar-nos mais-valias ou problemas que nunca mais na vida saberemos solucionar. A Mulher em si, acredite-se ou não, é a pessoa com mais poderes e encantos para destinar a vida de qualquer um. E tenho as minhas já escolhidas.

Por isso, eu não tenho dia certo para as poder comemorar. Gosto de todas elas e pronto. A qualquer hora. A qualquer dia.
Basta-me que sejam as Mulheres da minha vida.

23.2.07

Como se calcula, a maior parte dos bloggers não fazem vida disso. Escrevem e contam estórias apenas por prazer e passatempo. Transmitem pedaços da sua própria vida e trocam impressões, sorrisos, abraços virtuais que nos fazem descobrir a fórmula de sermos melhores pessoas. Criam amizades e outros laços afectivos como se desde pequeninos se conhecessem. Marcam encontros, almoços, e jantam em simples cavaqueira e reinação. Celebram datas que os marcaram a todos e trocam opiniões.
Este dia vinte e três não foge à regra, e hoje considero-o especial.

Para além de vincar sempre que posso a relação com a minha companheira nesta data, faz hoje vinte anos que morreu o Zeca Afonso. Isto lembra-me logo uma data de comunistas e poetas de quem fui, ou sou, compincha. Isto leva-me logo às calças à boca-de-sino e ao cabelo comprido a chegar ao meio das costas. Isto leva-me no comboio descendente e ao trazer mais um amigo. Às reivindicações, manifestações, e muitos encontrões e chibatadas de uns senhores de escuro vestidos.

O Zé estará para os putos da minha rua e geração como o Benfica esteve para os insatisfeitos da minha cidade. Coisas distintas é certo, mas que por qualquer razão que nem só os psicólogos sabem explicar, eram motivos mais do que suficientes para nos fazer pôr a pensar, a mexer e a gritar.

Zeca Afonso é, foi, e será sempre, um marco na minha formação como pessoa. Igualmente como os meus filhos e netos, ou as alegrias e tristezas que preenchem as vinte e quatro horas de todos os dias que continuarão até ao final dos outros que ainda me podem sobrar. Tal como os bloggers, essa rapaziada que escreve e contam estórias reais. E que me ensinam a ser melhor pessoa.

13.2.07






RTP 50 ANOS

São estas pequenas coisas que trazem à realidade quantos anos já passei.
Impossibilitado na escolha de ser filho do Estado Novo, sinto-me um dos netos do 25 de Abril. Só que já cá moram quase cinquenta e três e nem sequer ando a dar por isso.

O facto da RTP comemorar meio século levou-me a lugares longínquos no tempo. Nasci ao lado dela e retenho gratas recordações daquela infância.
Para quem não sabe, a minha escola na Rua de Santa Marta “dava” o dia 7 de Março. Dia maioritariamente dedicado aos miúdos. Muitos desenhos animados e muitos filmes. Estarei avulsamente a recordar o gato Silvestre e um outro com uns olhos muita grandes, o Bugsy Bunny, o Coyote, eu sei lá…, só sabia que aquele dia era o dia de fazer “campismo”; almoçava, lanchava e jantava no tapete que estava em frente da televisão.

Sendo de origem humilde, no entanto, tive a sorte de viver os meus primeiros anos na casa da minha tia Esperança. Uma minhota finíssima de trato e de perspicácia incomum que nos deixou faz pouco tempo. Mulher independente, acima da classe média em termos financeiros, que me permitiu desfrutar de oportunidades fantásticas que a maioria dos miúdos da minha rua ainda não tinham. A caixinha que mudou o mundo foi uma delas e comecei a formar-me com o Ivanhoe, com o Robin dos Bosques e com o Oliver Twist, entre outros. Pequenos momentos mágicos (link) da minha vida que ajudaram a lapidar o que hoje sou: uma completa miscelânea maluca daquela década.

Por isso, antes que passes o “Vamos dormir”, obrigado RTP!
Por tudo.

2.2.07



À pergunta do referendo sobre o aborto quem vota Sim ponha o dedo no ar!

Claro que a questão colocada deste modo, até parece estou a reviver os excessos daquela juventude revolucionária de que fiz parte. Mas com o passar dos anos, a malta vai adquirindo mais e mais conhecimentos, mais e mais experiência, e chegamos a um ponto onde podemos dar palpites qualificados. Daqueles que já nos passaram pelas vidas, daqueles encontros fortuitos, e daquelas camas feitas à pressa e mal-amanhadas, só para podermos dar a cambalhota do século com a miúda que engatámos naquela festa, praia ou discoteca, e depois se tem azar.

Calhou-me ser um dos felizardos desses azares cometidos por essa mesma juventude que, e diga-se em termos abonatórios, não é muito diferente da de hoje. No entanto, as soluções não tinham nada a ver com as que existem nestes tempos, onde as coisas correm mais depressa, e decidimos (eu e a secular chavala) fazer abortar o fruto daquele amor acalorado. Faria talvez hoje, ou amanhã não sei, 34 ou 35 anos se tivesse vindo a nascer e seguisse o mesmo rumo dos sete que vieram a seguir. E que continuam vivinhos da costa, graças a todos.

Dois contos e quinhentos foi quanto aquele risco me custou. (mentira, foi a minha mãe que ardeu)
Mas agora o país modernizou-se. As relações sexuais, mesmo que fortuitas, são mais cuidadosas devido à informação que se possui. Mais programadas em termos de saúde e higiene. Para "desgraça" da paixão assolapada que nos estava à flor da pele naquele tempo e que era tudo ao molho e fé em deus (hehe...).

De qualquer forma, não faço nem quero fazer, parte activa de qualquer Movimento. Primeiro, porque existem lacunas que o Estado ainda não clarificou no que diz respeito ao aborto que se está a tentar discutir, e eu nestas coisas desconfio imensos destes gajos. Dos outros também, é óbvio. Segundo, porque, na minha opinião, é às Mulheres deste país a quem cabe esta palavra final.

Só que pelo meu lado, gostaria que aquela cave da “Luciano Cordeiro” não se repetisse, e que o futuro que está nas mãos desta juventude nunca mais tivesse que subir aquelas escadas às escondidas.

27.1.07



Ela convenceu-me (link)

Desde miúdo fui sempre adverso a comprimidos. Ainda hoje, quando alguma dor de cabeça me chateia a cornadura (sou Carneiro) ou alguma parte do corpo onde me doa, evito os “melhorais”, os simples “cêgripais” e outros caldos de galinha. No entanto, a Herbalife entrou-me pela casa adentro acerca de um mês e a coisa está a mudar de figura. Eu explico.

Para além de uma pessoa séria e cem por cento cool, a minha "pikena" preocupa-se com a saúde dela e minha. Com a dos filhotes e dos netos, e até com a da empregada da limpeza ou a do meu vizinho da frente, que é o meu parceiro de snooker cá do bairro.

Na realidade, sou testemunha directa que “aquilo” só está a trazer vantagens a quem toma. Em boa medida, até eu já me sinto menos cansado desde que comecei a engolir diariamente o “Omega” não sei das quantas. Desde simples dores de cabeça, perda de peso, pele limpa e saudável, fortalecimento das paredes intestinais e outros etc’s., aqueles produtos nutritivos e naturais operam milagres. Acho que só não faz nascer os dentes novos que já ando a precisar.

Por outro lado, não menos interessante para as pessoas mais materialistas, o investimento em se ser distribuidor/a independente destes produtos fantásticos não é exorbitante, e rende muito mais por centos do que qualquer banco “dá”. (aqui, sou eu a puxar a brasa à minha sardinha) Faz-se na passada, como os representantes da empresa dizem. Mas para essa fase resultar é necessário ter mais perfil do que qualquer vendedor de viaturas usadas. E ela tem.

23.1.07



mais um dia 23, amor
que de tanto o amar
me envolvo
perdidamente

e de me achar tão certo
valho-me do saber
que de te amar eternamente
nunca sei quando me perco

20.1.07



Cortaram-se os festejos!
Eu tive sorte porque demoraram um pouco mais do que é normal na maioria da rapaziada que anda por estas bandas. Nem todas largas, mas dá para desenrascar qualquer cumprimento que se queira dar aos que de mais de perto acompanhamos nesta brincadeira dos blogs.

Já cá venho! Ou melhor... já aí vou.

6.1.07



Presentes

Desde o século XIII, as encenações do Natal de “nuestros hermanos” tem sido um dos aspectos mais conhecidos das celebrações espanholas. País com forte tradição católica e talento para realizar festas religiosas tradicionais, desenvolveu muitas maneiras de comemorar aquela noite especial. Uma delas, ao contrário do que acontece em Portugal, é serem dados os presentes na manhã de 6 de Janeiro, “Dia de los Reyes”.
Para além disto, os festejos são particularmente dedicados às crianças. Em Madrid, por exemplo, iniciam-se junto à Puerta del Reloj com o desfile de carros alegóricos de figuras alusivas à quadra, com os Três Magos distribuindo doces e caramelos entre a multidão.

Neste dia, a família reúne-se à volta da mesa saboreando “roscón de reyes”, o bolo-rei deles, e mantêm a tradição de quem achar a fava será rei por um dia. Quem sabe se hoje não me tocará a mim? (que de espanhol não tenho nada)


Agradecimentos a:
Wathctower e Novo Milénio (fontes históricas)

Márcia Maia (E À Mais Bela Princesa de Além-Mar)

quase um poema de natal


eu queria um natal sem luzes
sem sinos sem coroas sem presentes
sem festas de confraternização
onde se repete quase escandindo
(e à exaustão) a palavra so-li-da-ri-e-da-de

eu queria um natal mais solstício
que natal — um natal pagão —
um natal simples sem palco
onde a gente ousasse ser apenas gente
como a gente que a gente é nos outros dias


Jorge Castro (Poema Inédito)

não te digo do natal coisa nenhuma
do natal enfeitado a sumaúma
que se arruma em cada ano nalgum canto

não te digo do natal em mar de espuma
esse efémero natal-coisa-nenhuma
quebradiço a ter-de-ser e sem encanto

não te digo do natal de coitadinhos
nem daquele de nós todos tão sozinhos
conformados sem ter sonhos nem espanto

não te digo do natal feito de prendas
num afecto leva-e-traz que me encomendas
e trocamos cada ano em qualquer canto

mas te digo um natal fio de seda
do casulo entretecido que te enreda
e te leva ao riso ao sonho em doce encanto

digo ainda do natal feito de enlaces
desfiando o casulo onde renasces
enlaçando cada ser por valer tanto

digo então um natal que desse fio
deslassado mundo fora como um rio
nos envolva a todos nós num acalanto

mais te digo do natal de um outro início
celebrando a nova esperança o solstício
recriado em nossa voz num novo canto.


Morfeu (Cartão Festivo)

Peciscas (Cartão de Natal)


... e também a Neuza, Cinda, Joaquim Nogueira, Civana, TMara, Jacky, Titas, Roger, Vanda, Nuno Soares, Delfim Freire, Publipt e todos os que na caixa de comentários deixaram um pouco da sua amizade.

24.12.06



A esta hora já ninguém passa por aqui.
Mas de qualquer forma, este ano fiz um propósito: não mandei nada p'ra ninguém. No entanto, hei-de dar a conhecer tudo aquilo que me enviaram. Só porque este ano achei mais graça comemorar a data na mesma altura dos espanhóis.

Até lá!

23.12.06



Hoje é dia 23

Apetecia-me plantar a maior árvore de natal do mundo. Gostaria de contar a mais bela história, pintar um quadro repleto de cores que ninguém tem, e desenhar todas as caras de corações que ninguém vê.
Apetecia-me sonhar com outro mundo. Ter notória a percepção de estar aqui. Sereno e solto, rodeado por um mar de azul onde os sonhos e os encantos ultrapassam qualquer fronteira.
Sabia-me bem reviver a criança que não fui. Soletrar poemas que não fiz. Cantar canções alheias, com vozes que nunca me saíram da cabeça. Hoje, apetecia-me virar o bico ao prego. Degustar melhores momentos e ter em mãos uma tarefa que ninguém saiba poder fazer. Mas não posso! Tudo à minha volta serpenteia em alvoroço. Quase tudo se transforma em atrapalho das coisas que prefiro não esquecer.

Só tu, Maria, consegues alterar o rumo ao meu sentido. Mudar a voz da minha rota, e libertar outros tempos que não voltam.

20.12.06



Durante alguns dias, grande parte dos blogs fica em stand by. Compreende-se. Compras de última hora, a azáfama nos preparativos para a festa da família e coisas assim. O meu não foge à regra e, para o caso, já tinha elaborado um discurso faustoso, feito de muitos blá-blás, para transmitir em palavras escritas de ocasião, o que quase toda a gente diz por esta altura.

Mas, em mais um ano que passámos juntos em leituras, trocas de mimos e coisas que tais nas partilhas virtuais de outros adornos amigáveis, optei pelo simples desejo que tenham uma quadra festiva do vosso agrado.
Não que seja penoso ou chato poder ter optado por esta outra forma. Todos merecem mais. Muitos merecem tudo.
Por isso, tomara poder estar no aconchego do vosso lar. No seio da família que os rodeia. Entre sólidos laços que nos unem, caso me aceitem como um dos vossos.

Simplesmente vos desejo um Bom Natal, e que 2007 vos traga tudo quanto desejam.
Porque de qualquer maneira, a gente vê-se por aí.

17.12.06



Crónicas festivas (3)

Por esta altura do ano, mesmo o mais macambúzio dos seres humanos, ninguém fica indiferente ao Natal.
Das formas mais diversificadas, todos os pensamentos vão desaguar na quadra natalícia. É nesta altura em que se disponibilizam cinco minutos a quem não vemos o resto dos dias. É nesta altura em que se faz gato-sapato das dietas e nos mascaramos de bons samaritanos. É nesta altura em que toda a gente apela à tranquilidade que nos falta durante os outros meses.

E o drama da questão reside precisamente aqui: todos sabemos disso e todos os anos se repete a dose.
Ainda nunca ninguém pensou prolongar definitivamente o Natal?

12.12.06


Crónicas festivas (2)

É costume por esta altura do mês alguns blogs realizarem variadas iniciativas animadas no sentido de um balanço geral do ano que está prestes a findar. Não tenho nada contra, nem nunca tive. Algumas até são engraçadas e divertem. Mas uma coisa é o balanço, o baloiço e o critério onde se agitam, e uma outra é serem levados a sério.
Tal como Sócrates garante aos portugueses boas notícias, eu não me esforço tanto nas estimativas dos promotores de tais iniciativas. Talvez por pequenina maldade. Talvez porque os meus genes são quase cem por cento alentejanos.
E o engraçado da coisa reside precisamente aí. Não no facto geográfico da região mencionada, mas na simples constatação de quem pretende avaliar os outros não se conhecerem de nenhures. Ou talvez sim...

Corre por aí “Os Melhores Blogs de 2006”. Até aqui tudo cool. Só que na primeira leitura que fiz aos resultados já apurados, soa-me a leviandade e subordinação. Lembro-me perfeitamente do meu primeiro post à quase quatro anos que tinha a ver como se iniciaram os bloggers. Recordo ainda com mais prazer aquele que referia as novas descobertas e a devida divulgação de pessoas que continuam a escrever para agrado de quem, na leitura, lhes é fiel. E nenhum deles, provavelmente por descuido ou limitação de metros quadrados nos indicadores de referência, está lá.

A mim, por exemplo, já me aconteceu ser considerado “O Melhor Avô dos Blogs” pela Jackie, “O Mais Assíduo” pela Emília, e ganhar um prémio, que agora já não me lembro, por ter sido o visitante número não sei de quantos zeros, pela Catarina. Tive sorte e ganhei estima. Mas agora essa dos “melhores” blogs deixa-me frustrado. Primeiro, porque nunca seria capaz de ser um deles. (e a quarta classe arrancada a ferros é sempre um entrave). Segundo, porque os blogs são tudo aquilo que o seu autor quer que ele seja, mesmo que a avaliação possa ter razão de ser.

Um blog pode ser uma dor de cabeça. Um alçapão. Pode ser um filme, um pedido de auxílio, uma serenata. Um bom blog pode tornar-se até num péssimo programa de entretenimento televisivo na RTP1, um sucesso de vendas ou numa ressaca. Mas tentar considerar “Melhor” qualquer blog, não. Eles são todos bons.

11.12.06


Crónicas festivas (1)

Está na hora de iniciar o que a singela criatura indica.
Tem alguma ideia do que vai receber neste Natal?

Quando se passa a barreira dos cinquenta, no meu caso, a vitalidade nas coisas importantes da vida que levámos esmorece um pouco em qualquer área onde nos quisemos impor. Seja em sexo ou álcool, droga ou poesia, política ou luta armada. Os que sobrevivem às consequências nefastas que quaisquer delas provocam quando em exagero, não o negam. É da lei que o próprio mundo impõe.

Daí o estar mais preocupado em dar do que receber; como foi sempre apanágio nesta humilde criatura que rascunha na mediania em contra-baixo neste blog. No entanto, este ano a coisa está preta. Por muito que tente conseguir ganhar mais uns trocos, entre ajudado por dois braços que me abraçam e se coordenam, nunca vai dar para satisfazer as necessidades de todos quantos de mim mais perto vivem.

Não me basta morrer mais um traidor fugido à causa do que é nobre. Não me chegam os gritos aflitos das petições pelas causas da fome, da miséria e da vergonha, que qualquer sociedade que se diga digna, possa conseguir calar. Não me convence a promessa que justiça seja feita a tanto crime por julgar e a tanta mortandade a que assistimos.
São vírgulas e reticências a mais. São máquinas emperradas por olear. São pontos de exclamação sem respostas adequadas e são as merdas do costume que sentado no sofá não consigo resolver.

Sei muito bem que é Natal. Posso não ser é o pai dele.

20.11.06

17.11.06



Uma coisa chamada blog

Hoje, ao ouvir os Sinais de Fernando Alves na TSF (às 17:52), dei comigo a pensar que o homem é bruxo ou eu sou um grandessíssimo plagiador. Eu explico.
Ontem, já noitinha, vindo para o aconchego deste lar que nos acolhe, optei por dar uma olhadela nos blogs antes de enroscar o meu cansaço, ao lado dum corpo ainda mais cansado da labuta. Para meu espanto e tristeza verifiquei que não tinha acesso à Internet. Logo na altura que tinha em mente uma crónica adúltera, estranhamente explicável ao ser comum, muito parecida com uma outra que escrevi faz anos cujo título era o que acima se descreve.

Num primeiro olhar pelos cabos e outros truques que eu cá sei, não consegui que a máquina arrancasse. Mesmo que me esforçasse a inventar estratégias que podiam fazer inveja à Microsoft.
Como àquela hora os técnicos do Apoio Técnico deviam já ter puxado para cima os cobertores, fui deitar-me debruçado sobre a ideia. Para que quando me devolvessem o meu mundo, pudesse então dar largas às fantasias reais que algumas vezes assolam o espírito de qualquer blogger que se preze.

Do rascunho que tinha delineado fiz um triplo no meu velhinho caixote que, enganadoramente, chamo do lixo.
As palavras amarrotadas que por lá ficaram até à recolha, nunca poderiam ser as mesmas que aquele enorme e ilustre comunicador de imprensa e rádio deu às suas mas a sensação daquela madrugada foi a mesma com que, finalmente, adormeci.

11.11.06



O Verão de S. Martinho está a ser aqui! Sábado. Na hora que der mais jeito.



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Para começar vai ser assim. Em Mangualde, terra de gente nobre e cativa, cantava-se:

“No dia de S. Martinho
Rabusca o teu soitinho
Faz o teu magustinho
Encerta o teu pipinho”


Daí, três coisas são primordiais para se ter uma noção mais completa do evento: conhecer S. Martinho, saborear castanhas e beber numa malga a água-pé. O resto é fado e festa e povo nas tradições seculares.
Para isso ser presente, eis um excelente trabalho de Manuela Ramos sobre o Santo.
Noutro apontamento, conheçamos melhor a castanha e as relações que mantêm com a cozinha tradicional portuguesa e a sua pequena história. Por fim, a água-pé. Esse derivado vinícola que faz as delícias ao magusto e acompanha as Festas pelas mais variadas zonas do país. Desde Marvão a Sernancelhe. De Estremoz ao arquipélago da Madeira ou até em Terra Chã, Angra do Heroísmo. Dos bairros típicos de Lisboa até Vinhais, onde está previsto um megamagusto para mais de sete mil pessoas no maior assador de castanhas do mundo. Quem sabe se na sua própria casa, onde o costume é tradição, não tem histórias de fogueiras e magustos p'ra contar. Talvez não como esta malta que adora o São Martinho, mas de outra forma que nos faça sentir origens. Quer contar a sua?

"Quentes e boas!..."


Boas e quentinhas, pedem vinho novo, barriguinha amparada ao balcão, copinho embevecendo o olhar - a postura típica do... "em flagrante delitro", como escreveu Fernando Pessoa sobre o próprio.
(artigo de Alfredo Mendes, jornalista do DN)


Fernando Pessoa na adega de Abel Pereira da Fonseca, em 1929.
Fotografia enviada pelo próprio a Ophelia Queiroz com a inscrição: «Fernando Pessoa em flagrante delitro».
Provavelmente acompanhado à guitarra e à viola na imprescindível voz de Hermínia Silva.


Gentileza d'A Minha Rádio ponto com


Tempo de Poesia


Os pequenotes da Escola de Ovar.


O Vendedor de Castanhas

Numa tarde chuvosa neste Porto
No Outono frio ventoso e cinzento
Um homem vende doses de calor
Em folhas de jornal velho embrulhadas

No pedaço de papel o conforto
Do bom petisco assado no momento
P’la perícia do vendedor
A preparar as castanhas assadas

Diz-me velho vendedor de castanhas
Que já fazes parte desta cidade
Nos dias frios que só tu entendes!


Quanto é mesmo aquilo que tu ganhas
Com o meu sorrir de felicidade
Ao comer com prazer o que tu vendes?


De João Natal, in Poetry Café


Efemérides de S. Martinho

Didas, a própria. Fez três anos que nos atura e vice-versa, e até parece que sempre nos conhecemos. Mesmo sem comermos castanhas juntos ou brindar com um copo de água-pé, registamos os Parabéns por tal ventura.


Do outro lado do mar também há castanhas

Cora Rónai é jornalista, editora e autora de livros e peças de teatro para crianças. Fotógrafa. Crítica. Blogger. Defensora acérrima do “seu” Rio de Janeiro, do meio-ambiente e dos animais. Senhoras e senhores, rabiscos do sítio dela:

"Vocês sabem como nascem as castanhas portuguesas? Em ouriços verdes, que crescem numas árvores lindas, frondosas e esparramadas. Quando esses ouriços ficam maduros, caem no chão e são colhidos. Às vezes já estão abertos, o que torna relativamente fácil soltar as castanhas; quando fechados, só com expedientes variados -- luvas de couro, instrumentos de jardinagem, pedras. Vale tudo para libertar as castanhas da sua competente armadura.

Imagino que numa plantação profissional existam ferramentas apropriadas e precisas ara a tarefa, mas no sítio temos apenas dois castanheiros, plantados há 40 anos pelos meus pais, e que, mais ou menos por esta época do ano, gentilmente produzem as castanhas de que precisamos.

Os castanheiros foram presente do Mr. Smith, o vizinho inglês, único habitante da região quando o sítio foi construído, em princípio dos anos 60. São árvores voluntariosas, que não crescem como ou onde a gente quer, mas como lhes dá na telha. Não adianta plantar as sementes. Nada acontece. Mas por baixo dos castanheiros crescidos aparecem, volta e meia, umas mudinhas que, eventualmente, podem ser transplantadas. Assim chegaram as plantinhas pequenas nas latas do Mr. Smith, e assim já saíram daqui tantas outras.

Mr. Smith morreu há anos, seu terreno foi vendido e um novo loteamento cresce ao lado do sítio; o morro em frente, antes deserto, hoje é um mar de luzes. Apesar disso o céu continua cheio de estrelas e os castanheiros seguem, ano após ano, seu destino de árvores bem amadas, enchendo o gramado de ouriços."

Festa rija
Falar de S. Martinho sem referir a Golegã é um pecado quase mortal.
As suas ruas nestes tempos estão cheias de cavaleiros e de amazonas. De charretes e outros carros de tracção animal. Mesmo os burricos que por lá se vão vendo ajudam a compor a emblemática feira que tem o mundo equestre como mote. No Largo do Arneiro, o coração da Vila, uma dúzia de cavaleiros percorrem o espaço nas calmas. Alguns cavaleiros envergam trajes de gala, com camisa branca, casaco apertado pela cintura, chapéus de aba larga, botas de cabedal. Outros circulam mais desportivos com calças de ganga e camisas de xadrez onde o chamamento da castanha assada faz sentido.
Acredita-se que ainda lá não fui?

(fonte Espigueiro e aproveitamento musical do meu amigo e saudoso Fernando Campos)



Crónicas de província


Subir a um Castanea não é fácil. Muito mais difícil é saltar dele. No entanto, lembro-me bem que em garoto era o maior desafio que os putos idos de Lisboa ao Minho tinham que enfrentar. Qual carro de bois, tosquia de ovelhas ou pisar as uvas em pé descalço nas vindimas!? Ir ao tojo e ouvir os lobos junto a um riacho de água límpida era soberbo, mas saltar dum castanheiro era o maior rappel daquela altura.
As frondosas galhas aparavam-nos a queda. Os aparatosos gritos das nossas mães em pulgas era o nosso prémio.
Ainda hoje, se não estivesse já c’os copos, atirava-me de um que ainda deve lá morar.
Coisas de putos. Que mantenho vivas até que a queda seja fatal.



Gostava de ter aqui a Aldina a cantar, o Zé Fanha a declamar, e todos os poetas e artistas desta vida que é só nossa em redor da mesa posta que entendemos como farta.
Foi o que consegui mostrar no S. Martinho, mas Portugal tem coisas ainda melhores.

Bom fim-de-semana!

31.10.06



Estou farto *

Estou farto que me digam que não presto. Farto de servir a vilanagem e dar comer aos burros que escoiceiam quando me vêem. Estou farto dos mandantes, dos algozes, de estudantes, e da merda desta vida que me deram. Estou farto!

Depois de dias a trabalhar arduamente num projecto sem importância, quedo no quebrado espelho à minha frente o meu olhar de espanto. O meu corpo, curvado de amargos anos, perdeu juventude e o juízo. Também o senso e os postiços dentes que me custaram uma fortuna. Os anéis foram-se igualmente nas enxurradas dos romances e dissabores mal amanhados a que nunca soube resistir. Os meus olhos claros de castanho marcam pupilas embriagadas de lugares castiços onde me perdi noites sem fim. E as rugas, estas rugas debaixo deste pescoço cansado e esguio, são a prova disso e estou farto.

Farto de alternativas partidárias, de capítulos abertos ao futuro, do sucesso indicador dos outros gajos, da lucrativa pose das bruxas, anti-cristos e outros futebóis.
Já não tolero nem consigo perceber o mundo onde nasci. Já não entendo o nuclear, o militar e as relações bilaterais. Já não tolero mais promoções, revoluções e novos rumos petrolíferos. Sabem-me a folhas secas onde cacarejam as galinhas, a ramos partidos onde mijam sete cães, a terrenos lamacentos onde cagam os porcos todos.

Abomino e desgraço o dia em que nasci sem fortuna exposta. Estou farto dos dias de poupança, dos dias de trabalho extra e da má aventurança que anda atrás de mim. Já não consigo olhar de frente a mulher que me pariu. Já não consigo amar a mãe que me deu filhos. Já não consigo sustentar tanta boca faminta em meu redor. Estou farto! Farto de abortos e arautos da desgraça. Farto que me indiquem o caminho. Que digam cheguei tarde. Que pisei o risco. Que cuspi no chão. Que estive a falar para o boneco.

Estou farto!


* nota do editor: catalogado como ficção e inspirado num anúncio do óleo Fula. De resto, estou muito bem e recomendo-me, hehe...

23.10.06



Cartas de amor, quem as não tem?

Ao contrário da paixão, um amor com muitos anos ganha raízes. Cresce desmesurado e forte. E declaradamente, o dia vinte e três tem lugar cativo neste blog para o conseguir reinventar.

Dizem as influências que tudo tem um significado que, mesmo a figurá-lo nas minhas regras de todos os meses, tem uma condicionante que atrapalha: a maneira de o fazer.
Por isso, hoje, meu amor , não te escrevo em versos de rimas mal escolhidas.
Relembro apenas que nestes passar de anos muitos, continuas a amante e a amiga, a esposa e o suporte entrelaçado deste amor pintado em cores de azul e lima.

Passámos por risos e choros. Trocámos abraços e beijos, mantivemos o hábito de lermos juntos as pieguices do recordar de mais um dia vinte e três, e o nosso cantinho encheu-se de gente boa. Os nossos olhos encontraram-se várias vezes para dar respostas às agruras da própria vida num desejar de cúmplices carinhos. Rabiscámos papelinhos, na surpresa de encontrar colada uma simples palavra de amor, ou de um afago expresso num postal que ilustra as nossas vidas.

E no fundo, talvez nunca tenha sabido dizer-te nas parcelas do meu tempo as coisas lindas que mereces. Reconhecer que me deste uma vida com sentido. Que te devo também a minha parte em troca da tua que nunca me negaste.
Mas conheces-me bem e sabes o meu modo de te estar agradecido.

18.10.06

Por falar de amigos…


Uma recente pesquisa no Google deu-me a conhecer outra variante de como podem funcionar os blogs: em Solidariedade.
Não que desconhecesse essa vertente. O blog com o mesmo nome pode falar por ele, como tantos outros que se prestam a igual virtude. No entanto, a pesquisa levou-me até aqui.
Isto fez logo com que recordasse um dos primeiros casos que aconteceram aos bloggers portugueses. Temo que a Dânae (do Verso Explicito) se tenha também finado em 2004/05 devido a uma doença prolongada. Tal como Fernando Campos (ainda tão recente), do qual sinto saudade da leitura dos seus textos e da nossa cavaqueira sobre os netos e os filhos e da luta contínua no melhorar da nossa própria vida, no Messenger.

Parecendo que a vida continua – claro que terá de continuar – estas coisas mexem comigo (provavelmente é mais um trauma), e levam-me a pensar diferente sobre a vida e a morte. Sobre os que se movem e perpetuam até um dia neste sistema de contacto virtual.
Este raciocínio levou-me a dois casos ímpares: O Memórias do Cárcere e o Sidadania.

Dois casos diferenciados, mas com ligações subsequentes entre si; um está preso por delito, o outro preso está, na tentativa de minimizar os estragos da doença de que padece. Mas têm os dois o mesmo objectivo: divulgar a sua própria situação e alertar os outros para que se previnam das causas do estado em que se encontram. Sem tabus, sem medos. Por vezes até, sem retóricas académicas.

Ao contrário do que tenho afirmado, esta “brincadeira” dos blogs é um caso sério.
E não preciso esperar pelo Natal para reconhecer que é necessário dar-lhes um abraço. Extensivo a todos quantos desta imensidão humana fazem parte.

Hoje especialmente dedicado à minha Mãe,
minhota dos costados todos (Paredes de Coura) que perfaz a módica vivência de 81 anos, a quem faço alongar tal gesto,dedicando-lhe este poema de José Carlos Ary dos Santos:


QUEM DISSE QUE MORREU A MADRUGADA?
QUEM DISSE QUE ESTA NOITE FOI PERDIDA?
QUEM PÔS NA MINHA ALMA MAGOADA
AS PALAVRAS MAIS TRISTES QUE HÁ NA VIDA?

QUEM ME DISSE SAUDADE EM VEZ DE AMOR?
QUEM ME DISSE TRISTEZA EM VEZ DE ESPERANÇA?
QUEM ME LANÇOU A PEDRA DO TERROR
MATANDO O CANTADOR E A CRIANÇA?

QUEM FEZ DA MINHA ESPERA DESESPERO?
QUEM FEZ DA MINHA SEDE TEMPERANÇA?
QUEM ME DANDO TUDO QUANTO EU QUERO
DA MINHA TEMPESTADE FEZ BONANÇA?

QUEM AMAINOU OS VENTOS DO MEU CORPO
E SACIOU O MAR DA MINHA FOME?
QUEM FOI QUE ME VENCEU DEPOIS DE MORTA
E SOLETROU AS LETRAS DO MEU NOME?

QUEM FOI QUE ME FEZ SERVA SEM SERVIR?
QUEM FOI QUE ME FEZ ESCRAVA SEM QUERER?
QUEM FOI QUE DISSE QUE EU PODIA IR
TÃO LONGE QUANTO NÓS PODEMOS SER?

APENAS QUEM ME VIU CALADA E TRISTE
E DESPERTOU EM MIM UM MUNDO NOVO!
APENAS A ESPERANÇA QUE RESISTE,
APENAS O MEU SANGUE, APENAS O MEU POVO!

17.10.06



"Conhecer alguém aqui e ali, que pensa e sente como nós, e que embora distante, está perto em espírito, eis o que faz da Terra um jardim habitado."
Goethe

Poderia ser com estas palavras do filósofo, escritor e cientista alemão, que justificaria a minha entrada nesta brincadeira dos blogs. Para além de ter referido algures que, sendo extrovertido, cultivo amizades reais com relativo jeito, no que toca aos amigos virtuais sinto mais dificuldade. A anomalia é minha, eu sei. Talvez seja por ter entrado já tarde para a blogosfera e estar um pouco mais maduro do que a maioria das pessoas que encontrei. Mesmo assim, não aprendo e não tenho juízo nenhum.


Ainda agora me inscrevi em mais um dos serviços gratuitos disponibilizados na rede (a Facebox) que me garante a companhia de três milhões de almas. Juntando o Orkut e o Gazzag, e mais quatro ou cinco em que estou registado, estarei rodeado de mais de cem milhões de indígenas. Isto sem falar dos quatrocentos e tal blogs que tenho em carteira.


Claro que não mantenho contacto com todos. Também era melhor. Já me vejo aflito para responder aos que tenho ali ao lado quanto mais. Mas a questão que me coloco é simples: terei necessidade de ter tantos amigos à minha volta?


Talvez, porque a minha infância não foi famosa nesse sentido, e sinta a necessidade secreta de manter os que arranjei por aqui. (Traumas, é o que é)
Por isso, neste "arrumar da casa" que me levou os últimos três dias sem quase levantar o cu da cadeira, tive uma sensação esquisita ao verificar que tinha perdido alguns.

Não posso descurar os que me restam.

12.10.06



Os Grandes Portugueses

Nesta altura do campeonato, este programa da RTP, que vai para o ar na sua primeira sessão no domingo, não deixa de me espantar pela negativa. A sério.

Quando se vive uma indefinição social e laboral com as medidas que este Governo tem implementado ao país, não deixa de ser curiosa a forma como alguém se pode recordar do tema. Até parece tortura chinesa.
Se por um lado me parece uma tremenda cabala contra o executivo do engenheiro, por outro, também pode dar a ideia de uma maquilhagem e assessoria como aquela que o ex-PGR tardiamente se deu conta que lhe faltava.

Podem vir a lume nomes como Aristides de Sousa Mendes, Camões, Infante D. Henrique, Egas Moniz, Duarte Pacheco ou Marquês de Pombal. Admito. Tal como admito Amália ou Eusébio, ou Carlos Lopes e Rosa Mota, António José de Almeida ou a Padeira de Aljubarrota. Todos eles com o seu grau de contribuição para engrandecer o nome de Portugal.

No entanto, as minhas segundas escolhas recairiam em Zé do Telhado e Alves dos Reis. O primeiro porque, ao contrário do que faz este sistema tributário, roubava aos ricos para dar aos pobres. O segundo, porque é o melhor exemplo da actual banca nacional. Onde as notas falsificadas de quinhentos daquela altura, foram substituídas por grandes máquinas de feudalizar bens, serviços, capitais e trabalhadores endividados.

Por fim, o grande vencedor deste certame, que promete entretenimento e grande espectáculo, seria este Povo que aguenta tudo isto. Sem dúvida, são eles Os Grandes Portugueses.

6.10.06



A minha retoma

Acredita-se que os blogs criam dependência. Discreta, é certo, mas dependência. O cidadão comum – homens, mulheres e crianças, que vamos achando diariamente se quisermos - ao descobrir esta ferramenta, exorcizou alguns fantasmas de comunicação. Problemas que vivemos todos os dias pelos motivos mais complexos que se podem supor.
Eu não fujo à regra.

Excluindo os personagens que fazem disto uma forma de trabalho, outros porém, compenetram-se na divulgação e no partilhar das coisas mais incríveis. Anónimos puros que rebentaram fechaduras das escrivaninhas onde tinham guardado papelinhos segredados de imenso valor artístico e pessoal. Tanto assim, que até os próprios meios de comunicação social já têm um espaço reservado aos seus próprios blogs no aproveitar do andamento deste fenómeno.

Mas esta brincadeira também cansa, satura, mesmo sem ser deprimente. Muito mais quando não se sabe do que falar ou expor.
Nas centenas, para não dizer milhares de blogs que já visitei durante estes quatro anos para onde sigo, muitos deles ficaram pelo caminho no primeiro mês de exposição pública. Outros, nem tempo tanto duraram.
Deixando de fora os clássicos, os mediáticos, os ícones da classe jornalística, o que sobra?
Sobram mais milhares a que é impossível aceder por falta de tempo.

E é neste pormenor, que já tentei decidir acabar por aqui por mais que muitas vezes, depois de ter perdido um pouco da Cinda, do Pedro, do Fernando B., do Verso Explícito, do Green Shadows, do Ivo Jeremias, da Ângela a quem já perdi o rasto, e muitos outros que da passagem breve deixaram marcas. Outras tantas, terei pensado que melhor seria telefonar-lhes. Perguntar pela saúde, pelos miúdos, pelo cão ou periquito, e tentar saber como andam as coisas, como se de família se tratasse.

Auto-impondo um compromisso que tomei com outros mais reais (os blogs da família), vou continuar a ter enorme honra e prazer ao fazer parte do núcleo dos amigos virtuais. Não saberei nunca ao certo por quanto tempo, mas é um bem que me está enraizado.

Por isso, aí vou eu!
Abram-se-me as portas e janelas das palavras que procuro.

26.9.06



Presumivelmente, esta brincadeira já ganhou teias de aranha.
Mas não demoro muito. É só arrumar a tralha, umas coisitas publicadas e…


Depois, será bom saber de novidades e rever os bloggers amigos com um bronzeado de fazer inveja, hehe...

8.8.06



Foto Golfinhu2

posted by Thita - "ordens simpaticamente sugeridas pelo chefe", algures em trabalho.
(tá calão para os blogs, é o que é, hihi...)
Responsável pela ordem e manutenção neste período ficará o meu tio-avô.

29.7.06



Tomar partido

Tomar partido, para além de ser o nome do blog do Jorge Ferreira que nunca vi mais gordo, é uma das posições que os portugueses apreciam em se afirmar. Quer nas discussões dos vizinhos ou da família, quer da imagem que fazemos dos da ribalta, ou quer que seja num simples acidente na Ponte sobre o Tejo.

Ao contrário dos povos nórdicos, ou de mais alguém que se suicida quando está farto de tudo e de todos, nós gostamos de nos demarcar pelas coisas que eles consideram básicas mas que, para nós, são da maior importância para o próprio bem-estar da consciência. Um blogger, em tomar partido, não foge à regra. E os da fama constatados nestas andanças, ou eu próprio que de famoso nada tenho - a não ser na minha rua - também não.

A gente tem o professor Marcelo, o Alberto João, o Miguel Sousa Tavares, o Nuno Rogeiro, o Sérgio Figueiredo, o padre Borga e o diabo a sete mais o João Kleber, o Pacheco Pereira e os seus fantasmas, para nos relembrar que o título do post em todas as matérias tem razão de ser.

Como tal, estou a favor do Hezbollah e contra o dabliubush. Tenho muitas reticências na organização e contratações benfiquistas para esta época (mais um ano a sofrer) mas acredito piamente (mesmo não seja pio) que o Centro de con(es)tágio no Seixal seja um sucesso para a nossa zona ribeirinha. E/ou, para além disso, compreender muito bem a Maria João Pires.

Para finalizar, tomo o partido dos Soldadinhos da Areia, dos Poetas na Quinta da Ribeirinha e em todos os cantinhos, muitos tantos que carecem de carinho, dos casais felizes e de todos quantos possam fazer a esta vida melhorá-la. De resto, a gente vê-se por aí.

Bom fim-de-semana!

23.7.06



"Pikena"
ainda te lembras do tempo em que não havia blogs?
Agora tenho duplamente a forma de chamar por ti.

19.7.06

Coisas de blogs

Aqui há tempos recebi um e-mail a alertar-me que era o 84.º blog mais antigo em Portugal.
Resumindo-me ao especial cuidado desse estudo, lembro-me perfeitamente de que fui dos primeiros portugueses com blog a colocar música do meu gosto e fantasias com figurinhas a mexer (os gif), mas tudo isso foi devido à enorme ajuda da minha amiga Civana (uma ex-blogger brasileira, simpatiquíssima e prestável para o que desse e viesse), e outros experts que ia descobrindo pela rede.

Em princípio, tudo levava a crer que era irritante para os visitantes “levarem” com essa dose. No entanto, hoje em dia, quase todos os bloggers dão a conhecer as suas preferências musicais nos seus espaços que têm há tanto, ou mais tempo do que eu nestas andanças, que até o João “Fumaças” Fernandes já os tolera.

Depois, (passe a imodéstia)também me iniciei nos primeiros a colocarem videoclips. Aqui já foi por mera casualidade e descoberta; havia sites próprios que disponibilizavam essa facilidade, e aproveitava a onda logo que descobria os códigos que as tags deviam ter. Agora, os que se disponibilizavam nesse tipo de função, acabaram de fornecer esse tipo de facilidade, porque provavelmente os custos desses domínios devem ser pagos e a gente deveria estar a gastar energia duma casa que não é nossa. É justo.

Após o boom destes adereços que fizeram as delícias de alguns de nós, vieram os almoços e jantares em encontros blogosféricos sobre qualquer motivo. Braga, Évora, Porto ou Lisboa, foram algumas das cidades que presenciaram esses eventos. Com relativo êxito e no aprofundar de quem somos e o que é que estamos aqui a fazer.

Também, e não por acaso, o mercado editorial estava aberto à nova forma de comunicação que era notícia em quase todos os jornais que tratavam do assunto. Dai, resultaram as edições de blogs em livro e a descoberta de novos talentos. Estou a lembrar-me repentinamente d’O Meu Pipi, do Luís Ene, da Inês Pulido (uma pintora juvenil com enormes predicados artísticos reconhecidos pela gente do Norte e não só), da Rititi e tantos outros.

Tudo isto só para referir que vai sair mais um trabalho de vários ilustres desconhecidos pela editora Apenas Livros e dinamizado pelo meu virtual amigo Jorge Castro, onde a 29 de Julho vai fazer reunir na Quinta da Ribeirinha vários Poetas destes bocadinhos de vida que se empresta.

Agora tenho que ir. Ainda me falta dar uma palavra às pessoas que são do meu aconchego bloguístico e achei por bem ir assar sardinhas para a minha "Pikena" – que está de férias – e não tarda nada está a vir da praia com o seu bronzeado novo e o seu velho, e apelativo, encanto.

A gente vê-se por aí!

13.7.06



Depois de durante estes dias ter posto a escrita em dia e a leitura, cheguei à conclusão de que, em vez de andarem faunos pelos bosques, andaram figuras públicas a fazer o papel de Miguel de Vasconcelos (1590-1640) (colaborador próximo da duquesa de Mântua e do regime filipino), só por acharem que estar do contra traria de volta à realidade os problemas nacionais aos portugueses.

Todos sabem que a maior parte deste povo aprecia imenso caracóis. Ainda mais se forem acompanhados com cerveja fresquinha. E muitas. Perninhas de rãs nem tanto assim, e nunca ouvi falar de que comessem sapos. Engoli-los?, talvez.
Mas os arautos da desgraça, vulgo velhos do Restelo – sem desprimor para o CFB – tinham que “pegar” em qualquer coisa para que se tentasse inverter o rumo das coisas que toda esta brincadeira tomou desde 2004: ele foi o Quaresma, ele foi o sol abrasante que se fazia sentir em Évora, ele foi a Sagres, o Madaíl, as bandeiras nas janelas, eu sei lá…
Haviam de ter visto a comunidade emigrante de vários países, que tanto defendem em tempo de eleições, no companheirismo, na solidariedade num contar estórias de injustiças que também por lá se vive.

Só pelo facto de terem no currículo mais alguns diplomas que o resto do pessoal, há uma coisa que estes fazedores de disparates têm que engolir: os considerados estúpidos, os escravos, os eternamente sacrificados, ganharam um mês de completa euforia e felicidade. Não, apenas e só, pelo que o futebol conseguiu alcançar; isso é efémero, e será sempre, um erro dialéctico. Mas por tratar-se apenas duma coisa tão simples que nos levou um pouco mais longe no sentir de toda esta gente que trabalha por uma vida melhor; de como alguém nos conseguir juntar para uma roda de amigos sem nos explorar e enganar. Aqueles tipos todos conseguiram que desta vez os olhos rasos d’água e corações apertados fossem de alegria e satisfação.

Coisas tão simples que muitos dos que cuspiram para o ar não conseguiram fazer quando tiveram a responsabilidade de nos proporcionar algumas delas quando estiveram no governo do país.


adenda: reparem só como já começamos a torcer por José Azevedo, (a lutar sozinho) mesmo que o ciclismo tenha decaído com a morte de Joaquim Agostinho.
Mas onde estiver um português, estão sempre dois ou três. Milhões!

9.7.06



Regresso a casa

Não tão tarde como previra. De bolsos vazios mas com um coração maior.
Os portugueses, onde se encontrarem, são de facto poetas. Pessoas de bem que apenas o futebol faz aproximar e onde o encanto deste universo fantástico é sublime.
Temos um povo que merecia melhor sorte.

Malas desfeitas, alma emproada na recepção apoteótica que presenciámos, jamais se esquece os momentos únicos por que passei. Não fosse a realidade do país, quase me apetecia gritar “Viva Portugal!”.

24.5.06

Já uma vez aqui o disse que não sei lidar com aquilo que temos de mais certo na vida!
Hoje acrescento que nesta coisa dos blogs ainda é pior. Talvez pela afinidade que nos une pela escrita, que nos aproxima das palavras e ideias abertas ou, apenas e só, pela descoberta que fazemos nas amizades que criamos.

Não é raro saber-se no dia-a-dia da nossa própria vida, de gente que nos deixa sem aviso prévio. Adoece de repente e, mais depressa ainda, nos deixa. Nos blogs não é assim. Espera-se sempre daqueles que acompanhamos mais de perto que sejam eternos.

Daí, uma raiva maior. O grito. Uma injustiça que não se pode alterar.

O fraterno e Amigo Fernando deixa-me já saudade, mas continuará eterno.

Tal como de todos quantos conhecemos assim o espero.

23.5.06

A teoria da conspiração

Duma forma ou de outra, conspirador é uma palavra com a qual tenho alguma empatia.

Ainda não solicitei explicações a Daniel Sampaio mas julgo não ser necessário fazer um trabalhoso exercício de auto-análise para o que presumo ter percebido: é que em miúdo gostava de ver filmes de espadachins e de cow-boys. Tramas que me espicaçavam a imaginação e que acabavam, quase sempre, em rocambolescos desenlaces inventados por mim.

Passados que foram todos esses anos de reprises nos cinemas da minha zona, os conspiradores continuaram a fazer das suas. Agora em cenários completamente diferentes mas com objectivos iguais: tramar, maquinar contra os poderes. Assim de repente, e como escrevo em directo, lembrei-me dos de 1640 e de 1973/74. A maquinação que levou ao derrube da ocupação filipina e a libertação da canga que o regime salazarista tinha imposto ao país. Também posso acrescentar os Três Mosqueteiros, Sir Humphrey Appleby ou os seguidores de Hare Krishna, que não perco nada com isso.

Mas sob o signo da verdade, Manuel Maria Carrilho, homem dotado de excelente cultura e experiência política, excedeu as minhas expectativas sobre o tema em que se debruça. Vendo a coisa desapaixonadamente, também não me incutem confiança todos aqueles tipos de colarinhos engomados que são alvo das alegadas acusações do marido da encantadora Bárbara Guimarães.

Por outro lado, o homem pode estar numa fase de vitimação pessoal o que poderia facilmente explicar as reacções ao livro que agora publicou, mesmo me dando conta de outras conspirações nos processos Casa Pia e Apito Dourado.

Como em Portugal a culpa morre solteira ou enviúva, só tenho uma grave incerteza: e se ele tem razão?

20.5.06



Por muito que se pretenda esconder, o futebol quer se queira ou não, é uma linguagem universal. Mais abrangente que o próprio Esperanto ou as perspectivas da retoma económica (inter)nacional.
Basta verificar que, em termos terapêuticos, funciona melhor do que uma aspirina quando as coisas nos correm bem. Sobrepõe-se, sobretudo, aos altos índices do desemprego, ao deixa-andar de todo um povo que permite auto-manipular-se facilmente e às incompatibilidades dos deputados da Madeira.

Se se reparar no esforço que os blogers fazem para se manterem “actualizados”, não há um que não disponibilize um pouco do seu tempo ao futebol. Inconscientemente, ou talvez não, a coisa não fica por aí: no fundo, bem lá no fundo onde batem as bolinhas dos portugueses, renasce uma fé que se perdeu, exibe-se um orgulho que já teve dias melhores e acredita-se que somos tão bons ao pontapé como qualquer outro país com melhores recursos.

Foi assim em 2004, será assim em 2006. Garanto eu.
A prová-lo estão vinte mil mulheres lindíssimas deste país à beira-mar que tenho aqui ao pé de mim.
Para mostrar ao mundo a bandeira mais bonita que se pode ter.

15.5.06

Ser ou não sê-lo

Jamais alguém me poderá apontar o não ser patriota!
Daqueles antigos patriotas a quem os velhos problemas do Estado e do País nunca derruba.

Não tendo já em mim as energias renováveis que disparates e outros excessos fizeram ruir bastante cedo, nunca deixarei de me identificar com a maternidade Alfredo da Costa, a farinha 33 e o velhinho e já defunto Estádio da Luz. Ciclos que combinam e se completam com a pasta medicinal Couto, o cheirinho castiço da sardinha assada e as tascas de Alfama.
Todo um retrato com Tejo e fado e tudo.

Quero lá saber das incorrectas certezas do Deutsch Bank, das nacionalizações do Morales ou do enriquecimento do urânio iraniano. Antes do mais sou português de todas as costelas que me restam. Defendo o território, a família, a língua e as iscas com elas.
A praia do Meco, a Toirada e a Selecção, também são agentes comuns à minha reacção de contra-ataque.

Agora o que mais me perturba são os efeitos colaterais no pobre do Figueiredo. Um portuguesíssimo de Carregal do Sal que rentabilizou na Afinsa um dos nossos maiores patrimónios culturais e centenários: o selo.

Estarei contigo, Albertino! Ao pé de ti, o Alberto João não é nenhum jardim. É saloio.

8.5.06

Hei-los que partem

Nesta altura do campeonato, falar de futebol é tão ou mais importante como debater os mega projectos governamentais, a crise económica que o país atravessa ou as (des)conjunturas sociais.
Porquê? Porque está em causa o equilíbrio emocional de cidadãos anónimos e sem blog, cidades e regiões que dependem de receitas extraordinárias, sentimentos patrióticos que a razão dificilmente saberá explicar.

E nesta trágica contabilidade dos pontos ganhos e perdidos, o esgar da cidadania regional condói-se. Contrai-se e contraria-se como Fernando Ferreira na defesa da sua ideia. São como colheitas arrasadas por um traiçoeiro vendaval. Um aluimento que foge debaixo do chão que pisam. Um tremor de terra que abala a sua própria vida.

Vi homens e mulheres a chorar por causa disso. Presenciei crianças com cara de espanto sem saber o que aconteceu ao vê-los naquele estado. Vi olhares sombrios e gastos, faces de rugas vincadas pelo desânimo por não terem chegado ao fim.

É terrível a angústia pessoal que o futebol arrasta atrás de si.
Uma bola que bate na trave, um penalty "roubado" à descarada, um golo nos últimos descontos, uma Rádio que difunde em dois minutos as alterações da última classificação.
Aconteceu já com abnegadas gentes alentejanas, transmontanas e algarvias. Acontece hoje com os incansáveis minhotos e com uma parte significativa dos bairros velhos de Lisboa. Mas a matemática futebolística é mesmo assim: o fado dum povo atormentado sem o carisma que Raquel Lito descobriu.

Por isso, é pena minha vê-los partir.

6.5.06




A duplicidade dos portugueses sempre foi um trunfo nas relações que mantemos ao longo da vida com toda a gente, em quase tudo e em todo o lado. Suportados por dois pés, moldados por duas mãos, orientados por duas cabeças.
Já a cumplicidade tem os seus custos duplicados na factura que pagamos se não tivermos dois empregos.

É ponto assente que, duma forma geral, vive-se e morre-se em doses duplas. Em vida somos uns filhos da p…, que depois de a alma nos ter deixado passamos a ser as pessoas mais bacanas deste mundo.
Enquanto vai durando a experimental passagem por este lugar dos vivos, nunca abdicamos de nos rodear de duplicidades; temos dualidade de critérios, de conceitos ou de escolhas, e sempre que caímos à primeira sabemos que à segunda só cai quem quer.

Em Portugal vive-se com dupla personalidade até à exaustão: dobramo-nos em esforços para ultrapassar dificuldades, duplicamos as energias quando somos espicaçados, exigimos em troca o dobro de tudo quanto se dá.
Em sociedade, o diapasão é semelhante: pede-se uísque duplo em sessões especiais, repete-se a dose do cozido à portuguesa quando não somos nós a pagar, e quem não gosta de duplicar as suas próprias emoções sexuais…

À nossa volta, tudo gira com funcionalidades duplas: temos a alternativa governamental habilitada a dois partidos, temos - pelo menos - dois clubes que elegemos ser do coração, temos sempre duas opiniões e cultivamos o amor e o ódio como duplas sensações de estar na vida.
Para mal dos nossos duplos pecados só não temos duas dela, dois ordenados e dois meses de férias.