29.12.07



O Natal que (nunca) tive

Por escolha pessoal, este foi o ano com um Natal que nunca tive. Nem mesmo em criança, quando as dificuldades dos meus pais eram gritantes e que mesmo, de qualquer forma e com muito sacrifício da parte deles, havia sempre umas prendinhas na chaminé junto ao sapatinho que o meu pai nunca deixava deteriorar, já que era mestre bate-sola, e uma mesa pobrezinha mas bem composta no tempo em que o bacalhau era o prato favorito dos menos prósperos.

Por outro lado, recusei educadamente todos os convites e quis passar pela experiência de não ter natal. Masoquismo? Talvez não. De que outra forma poderia entender aqueles que estão “obrigados” a não tê-lo há muitos anos e tentar explicar aos netos e divulgar experiência tão dolorosa? De que outra forma, se pode sentir na pele a triste realidade do meu povo sofrido, como diz Elisa Lucinda?

Serviu-me de exemplo.
O olhar para uma mesa vazia faz doer os olhos. Dar pela ausência de pessoas a que se está habituado, estranha-se e rasga-se qualquer coisa em qualquer um. O facto de ter, ao menos, um tecto protector não ajuda muito ir lá mesmo ao fundo. Faltou o andar na rua, ter o nevoeiro a tapar a visão, e sentir o frio e a chuva a fustigar o rosto de todas as esperanças que pudessem ainda restar de que apenas se esteja a sonhar.

Muito provavelmente, na passagem d’ano vou mudar de rumo. Socializar-me. Enfrentar o novo Ano com uma réstia de confiança que me faltou nestes últimos quatro meses.

Até lá, a gente vê-se por aí.

Sucesso, saúde e sorte, é o que me apraz desejar a todos quantos passarem por aqui. Aos que não passarem, também.