13.10.07

Palavras soltas


Seixal - Foto A. Caeiro

Tal como em circunstâncias adversas, os sentimentos que nos arrastam para dentro dum cemitério valorizam-se. Ali está tudo. O princípio e o fim. O nosso lado melhor. O mais fiel e escondido retrato que nunca ninguém vê. Tudo o que somos transparece de forma delicada. Rendida. Perante muitas coisas que não saberei nunca explicar.

A um metro e meio abaixo do chão que pisamos, jazem pessoas queridas. Corpos inertes que deram vida. Lajes que testemunham histórias e percursos e flores. Muitas flores.

Dos sítios onde me sinto agradavelmente calmo e tranquilo, aquele lugar será um deles. A par da beira-rio onde consigo ler e imaginar o futuro e que não tem necessariamente de ser um lugar mórbido ou triste. Um recanto onde se lavam as mágoas em choro compulsivo. Recuso-me a pensar assim.

Olhando os visitantes, apercebo-me que nutrimos um especial carinho uns pelos outros. Solidarizamo-nos com as perdas dos entes queridos e conversamos em surdina como se pertencêssemos a uma única família. Trocamos olhares cúmplices. Sorrisos amarelos como as pétalas de rosas esquecidas.

Venho de lá sempre emocionado. Com menos um bocadinho da minha própria vida. Mas ao falar com a pedra fria que esconde um dos meus tesouros, rendo-me à evidência que a lei da vida e morte é mesmo assim. Como as palavras tolas e soltas que este coração dita cá p’ra fora.

1 comentário:

adelaide amorim disse...

Querido Eduardo, não há como não sentir carinho e solidariedade pela tua tristeza. O que consola a quem te lê - e parece uma ironia, mas não é -, é o fato de que você passou por uma perda, mas vive no presente, que é o lugar de quem está aqui, ainda que sofrendo essa perda.
Dá uma passada lá no Inscrições
www.inscries.blogspot.com
que é um post de poemas, e vê o que acabei de postar lá.
Grande beijo e amizade.