
Pesadelo
Por muito que pese a vontade de ultrapassar as coisas mais desagradáveis na vida de qualquer blogger, a coisa não é fácil. Tenho experiência disso e acompanhei, ao longo destes cinco anos que já levo nesta brincadeira de comunicar por esta via, determinados casos reais. Gente com quem contactava regularmente e se finou. Outros que se fartaram. Pessoas que acompanho mensalmente e têm problemas de saúde. De carência afectiva. De solidão. Arriscaria até, em alguns casos, de amor. Outros mais inadaptados, curiosos, refugiados em silêncios que ninguém entende, lá vão levando a água ao seu moinho.
O meu caso é dos mais banais; a Pikena foi-se e acabou.
Fiquei eu aqui. A falar e a escrever sozinho. Impávido e sereno, a cantarolar uma música qualquer ao ir abrir a caixa do correio na esperança que possa compreender alguma nova que me possa devolver o raciocínio de saber que não morri. A vasculhar notícias na Globo, na TSF, jogar os meus trunfos de memórias perturbadoras que me assaltam de noite em casinos virtuais, e saber os resultados da última jornada de futebol. Depois acabo no espreitar do que escrevem os nocturnos. Noctívagos de uma só pernada de pinheiros altos. Que comunicam de qualquer forma o seu estado d’alma e que tenho linkados ali ao lado ou encontro por acaso.
Depois vou à rua comprar pão. Com a barba por desfazer e tentar não me anular. Despejo o lixo que me sobrou. Restos que me não chegaram a satisfazer uma vida que não pedi e não dá para repartir com o que já perdi. (a nossa Becky, mais a dona).
E aí vou eu, ao encontro duma esquina que me esconda. Disfarçando toda uma raiva num simples pedido dum pé de salsa ou de hortelã à senhora do minimercado. Aquele onde gasto os últimos tostões do curto ordenado que se fosse pago em tristeza dava para sustentar todos quantos passam por aqui.
Resta-me a saudade de ajudar a mudar a cama de lavado. De pintar a casa. De arrastar os móveis quando a ela lhe dava na cabeça fazer obras. De ver-mos o Benfica juntos. Atirar-lhe uma flor para a janela quando estava à minha espera. Dormirmos agarrados num aconchego dum calor que era só nosso quando o frio chegava mais cedo e apertava as emoções. Aquele cheirinho. Aquele sorriso. O afago daqueles dias de “hoje não me chateies que dói-me a cabeça”.
São tudo coisas que estou a tentar ultrapassar facilmente.
Tal como, ao olhar as paredes brancas e geladas desta casa, tentar ser um grandessíssimo aldrabão e acabar por me convencer que tudo não passa duma noite mal dormida. Ou pesadelo.
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