21.1.04



ATENÇÃO! (leitura imprópria para sensibilidades marcantes)

Somos um país pequeno e toda a gente o sabe. Muitos confundem até como sendo terras de Espanha as areias de Portugal.
E porquê um país pequeno?
Tivemos Afonso, o Conquistador. Cabral, Vasco da Gama e Magalhães. Eça e Pessoa. Alves dos Reis e as notas de quinhentos. Descobrimos o Brasil. Eusébio e Amália Rodrigues são referências embaixadoras. Derrotamos cinco reis de Castela, o Adamastor e o leão de Rio Maior. Tivemos um Rei poeta, um Formoso e vários filhos da puta. Tivemos a Peste, a Inquisição, o Terramoto e somos campeões do mundo em várias coisas. Temos estádios novos e o Euro 2004 à porta.
Fomos donos de meio mundo e das Colónias inteiras, donde nunca vieram pequenezas. Voámos o Atlântico com Coutinho e Sacadura. Tivemos guerras, prémios Nobel e a Aldeia da Luz. Somos inventores, milagreiros e gente feliz com lágrimas. Temos Santos e Pecadores, cientistas, mestre-de-obras e já vimos Nossa Senhora e os vinhos do Porto serem melhores. Fazemos filmes com gajas nuas e roubamos perfumes das prateleiras dos supermercados.
Temos barbeiros que sabem tudo, temos os melhores condutores do mundo, o Cozido à Portuguesa e os blogs. Ouvimos Villaret e Ary dos Santos, rimos com as graças do Vasco Santana e choramos por tudo e por nada das culpas que morrem solteiras. Temos famílias numerosas, tipos pobres a quem sai a lotaria e outros mais a quem nunca sai um três no Totoloto. Tivemos Camões e outros a quem chamavam de “zarolhos”. Temos a ministra das Finanças atrás de nós e a descoberta, mórbida, de que a Justiça, afinal, não é cega. Temos concursos da treta, mijamos nas esquinas e batemos nas mulheres quando o Benfica perde. Cantamos o Fado e gostamos de toiradas.
Somos o oito e o oitenta duma natural insatisfação. É nosso o Limianos, o café Delta e parecemos a Europa Alentejana. Temos o cavalo Lusitano, os ordenados mais baixos da Europa, os Lusíadas e as Meninas da Ribeira do Sado. Temos provérbios, anedotas e pegadas de dinossauros em Foz Côa. Fizemos uma Revolução com cravos, confiamos no Serra da Estrela, no vizinho da frente e gostamos de gajas boas. Trocamos coisas velhas, pedimos dinheiro emprestado, fumamos que nem cabrões e limpamos o cu aos dedos para versejar nas paredes dos w.c. das grandes superfícies. Somos tugas, carago. Desenrascamos tudo em qualquer parte sem termos cursos e recursos. Não lemos, mas temos muitos livros. Escritores, poetas e outras coisas de que eu agora não me lembro.
Afinal, temos o que toda a gente tem! Mas somos tugas num país pequeno.
Porquê pequeno?


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